Liberdade e liberdade condicional

 

Liberdade e liberdade condicional   Enquanto no Brasil, o presidente da República é retratado como um vampiro em uma escola de samba do Rio, na Venezuela, o presidente manda prender se apenas discordam de sua política. Aqui, podemos não apenas falar ou escrever, mas representar artisticamente quem quer que seja. Lá, os cidadãos vivem em uma espécie de liberdade condicional, como disse ontem um membro da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA: podem ser presos a qualquer momento por se manifestarem. Desculpem, mas não dá para passar batido sobre a crise na Venezuela, ainda que estejamos enfrentando a nossa própria.

E não dá pra passar batido simplesmente porque os venezuelanos estão fugindo do autoritarismo, da fome e da miséria e estão migrando para os países vizinhos, e o Brasil é um deles. Já são 40 mil venezuelanos em Boa Vista, creio que o total no Brasil esteja próximo de 80 mil. Na Colômbia, já são mais de 500 mil.

Ontem, houve dois eventos importantes: a OEA publicou um extenso relatório sobre a situação humanitária na Venezuela e o governo brasileiro anunciou medidas para receber os venezuelanos.

Segundo o relatório da OEA, elaborado a partir de dados fornecidos por ONGs, a situação no vizinho é alarmante. Mais de 80% da população experimenta a miséria. Não existem mais instituições democráticas, e houve aumento significativo da repressão e da violência. Não há independência entre os poderes. Manifestantes são estuprados com canos e pedaços de pau, uma barbárie.

Falta o básico: comida e remédio. Nossos vizinhos estão famintos e doentes. Uma gripe pode ser um transtorno imenso. Toda uma geração está comprometida: 70% das crianças estão desnutridas, e um hospital registrou a morte de 19 recém-nascidos em apenas um mês.  Fiquei muito impressionada com uma reportagem da Folha de S. Paulo, que mostra uma mulher que pesa 30 kg com uma filha de seis aninhos, cujo peso varia entre 9 e 13 kg. Certamente não são exceções. Mas Maduro segue saudável, até gorducho.

Não, não podemos dar as costas se os venezuelanos buscam nosso socorro. O sacrifício será grande para nosso país frente a crise que enfrentamos. Mas negar ajuda humanitária está fora de questão. O governo anunciou ontem que vai reforçar a triagem na fronteira, de forma que nosso país possa receber melhor nossos sofredores vizinhos e retirar todo o peso do estado de Roraima. Estima-se que cerca de 30% dos venezuelanos que aqui chegam tenham curso superior. Há muita gente com força de trabalho e, embora o desemprego ainda seja um problema para os próprios brasileiros, podemos dar alguma dignidade a esses cidadãos. Porque, infelizmente, o governo deles está tirando até isso dos compatriotas.

O governo brasileiro também precisa fazer um trabalho para evitar a xenofobia. Há poucos dias, duas famílias venezuelanas tiveram suas casas incendiadas. Não podemos perder nosso senso de humanidade.

Para completar, o governo Maduro pretende retomar uma questão territorial com a Guiana. Será que estamos prestes a ter uma guerra na nossa fronteira? A questão territorial tem a ver com petróleo, mas no frigir dos ovos, se a Venezuela tomar essas terras da Guiana, o que vai acontecer é que mais gente estará condenada à miséria e à repressão. O ministro da defesa, há poucos dias, em visita à Guiana, declarou que “não se pode admitir, para o equilíbrio da região, qualquer saída pela força. O Brasil não aceita essa possibilidade (…)”. Será que o Brasil vai se envolver no conflito de alguma forma? É possível que sim: o Ministro Jungmann assinou acordos bilaterais. Corroborando a tensão, um economista venezuelano que se arrancou para a Espanha há um tempo, declarou que a situação vai terminar “com a mais primitiva de todas as soluções. A saída para o problema [econômico-social na Venezuela] não será interna”.

Diante de tudo isso, embora nossa situação não seja lá muito favorável, o Brasil tem um papel importante. Seja na fronteira, seja nas cidades, repito: não podemos perder nosso senso de humanidade.

Foto: Reuters

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/02/desnutricao-atinge-ate-70-das-criancas-na-venezuela-diz-relatorio.shtml

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,cenario-na-venezuela-uma-populacao-sob-liberdade-condicional,70002187632

https://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/02/12/socorro-a-venezuelanos-e-imperativo-humanitario/

http://blogs.oglobo.globo.com/miriam-leitao/post/bomba-venezuelana.html

https://oglobo.globo.com/mundo/todos-os-venezuelanos-tem-liberdades-restritas-medo-de-prisao-diz-oea-22392678

https://www.oantagonista.com/brasil/jungmann-adverte-venezuela-sobre-ameaca-guiana-o-brasil-nao-admite-o-uso-da-forca/

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