Está ficando difícil até carnavalizar

 

Está ficando difícil até carnavalizar    Quem diria que o carnaval brasileiro, originado no entrudo, poderia chegar ao cúmulo da patrulha ideológica e politicamente chata, digo, correta. Pois não é que está a maior polêmica, chegando-se ao cúmulo de censurarem fantasia de índio? Francamente. Está ficando difícil até “desfilar a vida, carnavalizar”, como diz lindamente o verso da música “Carnavália”, dos Tribalistas.

O entrudo chegou ao Brasil com os portugueses: eram bonecos gigantes de madeira e tecido, que faziam parte das brincadeiras em plena Idade Média. O entrudo incluía jogos familiares e, no popular, podia ser bem mais ofensivo do que se vestir de índio: transeuntes poderiam ser brindados com um balde de urina, ovos, frutas podres, comida estragada. Já imaginaram? Passando na rua — vamos nos lembrar das vestimentas da época, especialmente das mulheres, feitas com muito tecido —, de repente, sem mais nem menos, você se vê encharcado de xixi, vindo desavisadamente da janela de uma residência. Era prática comum no Rio de Janeiro no início do século XIX.

Mas em tempos de politicamente correto, a chatice e a patrulha comportamental querem acabar com as fantasias carnavalescas. Vestir-se de índio, de cigano, de espanhola, até homem se vestir de mulher, e sei lá mais o quê está ficando “ofensivo”. Peraí! Ofensivo é levar um banho de xixi gratuita e inesperadamente.

Tudo começou com a campanha da índia Katú Mirim, que lançou a hashtag #índionãoéfantasia. A campanha foi potencializada por um site esquerdista que, certamente, foi pago durante os tempos petistas e agora vive de cliques e, para isso, cria tretas. Contudo, várias lideranças indígenas se posicionaram contra a tal campanha. Não veem deboche em fantasias de carnaval e valorizam a liberdade de expressão das pessoas.

De fato, quando há ofensa deliberada a qualquer pessoa ou etnia ou cor da pele etc., tudo perde a graça. Ocorre que o carnaval é uma festa, e ninguém se fantasia pensando em ofender. Todos querem apenas se divertir e se expressar de um jeito diferente do que é. Qual o problema nisso?

Apropriação cultural, estereotipagem, enfim, são inúmeras as razões para as proibições das fantasias de carnaval. Como assim, falar em apropriação cultural dentro de um país com índices de miscigenação altíssimos? Estereótipo? Ora, carnaval é irreverência, é criatividade. Parece que só se pode fantasiar de planta, unicórnio, super-heróis e qualquer outra coisa que não exista. Socorro!

As patrulhas ideológicas alavancadas por essa onda de “politicamente correto” ainda vão destruir nossa cultura e nossas tradições. A criatividade e a diversidade estão sendo cerceadas a cada dia, e a tendência que querem nos empurrar é a igualdade de pensamento.

Já imaginaram se resolvem censurar aquela música da Rita Lee, “Baila comigo”? A primeira estrofe da canção, se tirarmos toda a poesia e quisermos por pelo em ovo — que é exatamente o que essas patrulhas fazem — pode-se interpretar que os versos expressam um estereótipo aos índios.

“Se Deus quiser, um dia quero ser índio
Viver pelado, pintado de verde num eterno domingo
Ser um bicho preguiça e espantar turista
E tomar banho de sol, banho de sol, banho de sol, sol”

Enfim, nesse Brasil em que algumas ideologias querem se impor e se sobrepor à liberdade individual, a chatice quer invadir e acabar até com o carnaval. Temos que ter cuidado com lobotomização de pensamento, de ideias. O objetivo final dessas patrulhas é este.

Precisamos de mais leveza na vida, pelo menos no carnaval, porque o resto do ano…

Bom carnaval procês, minha gente!
Foto: Antônio Scorza / Agência O Globo

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