Com dinheiro ou sem dinheiro

 

  Antigamente — e nem tão antigamente assim —, o carnaval começava no sábado e terminava na quarta-feira de Cinzas, com o bloco dos que haviam sido presos durante a folia.

Atualmente começa duas semanas antes e haja bloco deste e daquele. E não é só no Rio de Janeiro, mundialmente conhecido por seu carnaval.

Fico me perguntando o “porquê”. E minha intuição me responde: porque vivemos novamente qualquer coisa parecida com os tempos em que os gladiadores lutavam até a morte, na antiga Roma. Enquanto isso, o imperador mandava distribuir pão ao povo e fazia o que bem entendia no seu governo. Bom, mas ele era um imperador em época de outras leis.

Pão e circo. Enquanto o povo se distrai e mastiga qualquer coisa, não pensa.

Muito parece com o que se tem hoje. Enquanto o povo samba, quem dança é o nosso país. Aliás, já dançou. Não em termos econômicos, o Brasil é muito rico e importante para falir. Sua falência levaria à bancarrota muito dinheiro internacional. Assim, este coqueiro Brasil balança, mas não cai.

Cai, sim, a expectativa de decência na política, cai a expectativa dos jovens de terem oportunidades plenas, cai até a crença na Justiça brasileira, quando assistimos corruptos, ladrões, serem soltos: “coitadinhos”, não estão acostumados ao xilindró, seu sol sempre teve o maior brilho, não vai ser agora que o verão através de grades.

Enquanto isto, um número absurdo de presos não sentenciados e nem sequer julgados amontoam-se nas prisões brasileiras, mas quem tem grana para pagar bons advogados sempre encontra um jeito de se safar. E o pior é que existe justificativa na Lei, pois são liberados pelos respeitáveis e doutos juízes da Corte Suprema do nosso país.

E, por falar em lei, a Lei da Previdência está sendo revista. Tudo bem, o mesmo está acontecendo no mundo inteiro. Pessoas vivendo mais são uma sobrecarga nunca antes experimentada. Só que até agora, não sei se por desinformação minha ou seja lá o que for, ainda não ouvi os defensores da mudança nesta Lei falarem em cobrar das empresas os bilhões que, no total, devem à Previdência, enquanto o povo já recebe o seu salário com o devido desconto. Essa dívida já foi divulgada na mídia, não é nenhum segredo, está mais que comprovada.

Será que não existe nas leis que regem a previdência uma forma de cobrar desses devedores? Pois que mudem as leis.

Acontece que só se fala no momento em eleições presidenciais. E as eleições para o Congresso?

Temos que pensar muito direitinho nisso, mastigando nosso pão e assistindo ao circo do carnaval, pois enquanto votarmos em pessoas que se comportam como os políticos atuais, nunca teremos leis de melhor qualidade, que não deixem brechas para os corruptos escaparem de suas penalidades.

No mais, sou brasileira e ainda me orgulho do meu país.

Mesmo com a guerrilha urbana que existe no Rio de Janeiro, mesmo com a corrupção e com a bala perdida atingindo crianças quando estão no caminho da escola ou no interior de seus lares.

Ainda tenho esperança de que o carnaval venha a ser uma festa do povo, para sua alegria e não para sua destruição. O carnaval está tão obviamente ligado à destruição e insanidade, que o próprio governo intensifica neste período as campanhas de Lei Seca e distribuição de preservativos, reforçando o imaginário popular de que carnaval é festa para encher a cara e sair transando à vontade.

Foi-se a inocência do carnaval, foi-se a alegria, ninguém mais fala em “brincar o carnaval”, porque acabou-se a brincadeira, virou festa pagã no pior sentido.

Mas, apesar disso, eu, como disse antes, brasileira e feliz em ter nascido neste país de belezas e possibilidades mil, não vou ficar aqui reclamando.

Vou é torcer pela minha Mangueira, de longe, e cantar junto o samba que fala em “brincar o carnaval”.  Só não digo a autoria porque não consigo me lembrar os nomes dos oito (8) compositores. Um samba.

“O morro desnudo e sem vaidade
Sambando na cara da sociedade
Levanta o tapete e sacode a poeira
Pois ninguém vai calar a Estação Primeira

Se faltar fantasia alegria há de sobrar
Bate na lata pro povo sambar

Eu sou Mangueira meu senhor, não me leve a mal
Pecado é não brincar o carnaval!”

Foto da autora

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