Teatro do absurdo

 

Teatro do absurdoAplico ao Brasil uma definição que encontrei para o Teatro do Absurdo: suas peças têm sentido tragicômico, estrutura semelhante ao do Vaudeville, com quadros não necessariamente conectados. A alternância entre elementos cômicos e imagens horríveis ou trágicas é uma constante, assim como personagens presas a situações sem solução, forçadas a executar ações repetitivas ou sem sentido, que usam e abusam de diálogos cheios de clichês, jogo de palavras e nonsense. Enredos cíclicos ou absurdamente expansivos. Paródia ou desligamento da realidade.

Isso não cai como uma luva para também definirmos o Brasil? O nosso absurdo país se supera a cada dia. Quando a gente começa a acreditar que nada mais poderá nos surpreender, alguém tira um novo coelho da cartola.

A semana passada foi pródiga em eventos surreais. Para começar, o presidente Michel Temer “morreu” e não se deu conta. Aposentado como procurador do Estado de São Paulo, deixou de fazer a sua prova de vida e parou de receber os proventos a que tem direito. Brutos, em outubro de 2017, último mês em que a grana entrou em sua conta bancária, R$ 45.055, 99. Não sei o que me espanta mais. Se a São Paulo Previdência precisar avisar ao presidente que ele ainda está vivo ou se a falta de tanto dinheiro ter, durante dois meses, passado despercebida pela família Temer.

Pertenço à classe brasileira que, mensalmente, faz pobrice: escreve num caderninho a receita e as despesas. Se somem duzentos reais, instala-se o pânico no orçamento. Acho que não terei tempo nessa vida. Mas na próxima encarnação conseguirei perder alguns mil euros sem perceber. Deus é pai, sei que desfrutarei a minha cota de blasée financeira.

A ainda quase-futura ministra do trabalho, Cristiane Brasil, também colaborou para o nonsense da semana finda. Gravou um vídeo, com estética de pornochanchada, cercada de amigos sem camisa — tudo muito fino, muito apropriado à liturgia do cargo que ela pretende ocupar — afirmando não entender por que motivos alguns ex-empregados a levaram à Justiça do trabalho. À côté, os marmanjos, igualmente distintos, concordavam em voz alta: afinal, quem nunca teve problema com a Justiça? Concordo, se até o ministro Gilmar Mendes tem os seus perrengues com as leis, por que a Cristiane Brasil não teria?

Finalmente, para nosso orgulho e gáudio, o ministro da Defesa anunciou que o sistema de segurança nacional “está falido”. Que beleza, gente. O homem que deveria garantir a segurança do país jogou a toalha e se escondeu debaixo da cama. Ficamos nós, os contribuintes, no meio do fogo cruzado que faz o dia-a-dia de grandes cidades. E agora, quem cuidará da paz que merecemos ter?

Seremos, os brasileiros, apenas as personagens de um imenso palco tragicômico?

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