Economia do gotejamento: um desastre para a classe média

 

Economia do gotejamento_um desastre para a classe média   O economista americano Joseph Stiglitz, professor na Universidade de Columbia, economista-chefe do Instituto Roosevelt e Prêmio Nobel da Economia em 2001, elaborou um relatório com o título: “A economia mais forte do mundo”, no qual critica o pensamento econômico predominante nos EUA e propõe sugestões. O relatório, inicialmente direcionado a um grupo restrito que participa das decisões políticas daquele País, despertou o interesse de diversos outros grupos, e o jornal The New York Times, a revista Time e a Fundação Ford fizeram grandes elogios ao texto, que acabou sendo transformado em livro e publicado em 2016.

No relatório, que tem como foco a economia dos EUA e seus problemas, o economista observa, já no início do trabalho, que a economia norte-americana deixou de funcionar para a maior parte dos seus cidadãos, e que a galopante desigualdade verificada nos Estados Unidos ao longo da última geração perturba e surpreende quer os economistas, quer os políticos, pois é diferente de tudo que os modelos econômicos previram.

Stiglitz faz uma crítica dura à concepção econômica vigente nos últimos 35 anos, e afirma que a economia trickle-down, direcionada para aumentar os rendimentos dos que se situam no topo da tabela esperando que isso acabe por beneficiar os restantes, não funcionou. Esse sistema econômico já havia sido ridicularizado pelo humorista Will Rogers durante a grande depressão, que afirmou que todo o dinheiro havia sido direcionado para aqueles que se situavam no topo da pirâmide social na expectativa de que iria gotejar alguma coisa para os que estavam nos patamares abaixo, e com isso criou na política americana a expressão “economia do gotejamento” — trickle-down — modelo econômico que se mostrou um verdadeiro desastre para a classe média americana.

Para o autor do relatório, com o fracasso da economia do gotejamento, a nova visão é a de que uma economia trickle-up, que molda a arquitetura econômica a partir dos que se situam no meio da pirâmide social, tenha maior probabilidade de obter sucesso e entregar uma economia que não construa castas, mas que efetivamente funcione para a maioria dos cidadãos.

Do ponto de vista institucional, sua visão está lastreada em duas observações de caráter econômico bastante simples: as regras e o poder são importantes. Para Stiglitz a crise econômica de 2008 e a grande recessão que se seguiu demonstraram que cumprir a promessa de uma economia de mercado desregulada era e continuará sendo impossível, e adverte de forma categórica que são necessárias regras bem elaboradas e instituições fortes que obriguem, que coajam os mercados a apresentarem um comportamento mais competitivo em benefício de todos.

Outra análise que o autor do relatório faz é sobre a cultura do “grande demais para falir”. Nesse ponto, a crítica de Stiglitz é contundente, decisiva. Avalia ele que o agigantamento das empresas em geral, especialmente no setor financeiro, é absolutamente maléfico para a sociedade, pois coloca as pessoas e o Estado na condição de reféns dessas corporações. Estas, por sua vez, se sentem fortes o suficiente para fazer investimentos cada vez mais arriscados, visando sempre maximizar seus lucros sem se atentarem para os riscos, na certeza de que se algo der errado o Estado virá em seu socorro com dinheiro público, visto que sua falência seria um desastre para a economia como um todo.

Para o autor, nos EUA a desregulamentação generalizada e a negligência regulatória permitiram o crescimento imprudente e abusivo do setor financeiro, que se afastou da sua função essencial, que é a de alocar capital para fins produtivos e caminhou na direção das atividades predatórias buscando maximizar a renda. Reescrever as regras e fortalecer as instituições políticas seria o grande desafio para a economia americana mudar seu itinerário.

Ao afirmar que o mercado não existe no vazio, Joseph Stiglitz sentencia que é o Estado que estrutura os mercados e define as regras segundo as quais eles operam. Para ele, as regras e as instituições são a espinha dorsal de qualquer sistema econômico. Assim, para colocar a economia norte-americana para funcionar em benefício da maioria dos cidadãos, será necessário enfrentar as regras e as instituições que permitiram a queda dos investimentos, o crescimento lento e o acúmulo desenfreado de rendimento no topo da pirâmide social.

Stiglitz sugere que será necessário, primeiro, domar o topo da pirâmide social, que está acomodado e extremamente confortável com o desenho econômico baseado no modelo trickle-down. Feito isso, para assegurar o investimento necessário ao crescimento futuro e a construção de uma prosperidade partilhada, orientada por um modelo trickle-up, será necessário reescrever as regras, circunscrever o poder dos mercados — garantindo mais concorrência —, corrigir as distorções e frear os excessos do sistema financeiro, incentivar a gestão empresarial focalizada no longo prazo e reequilibrar o código tributário. E isso deverá ser feito simultaneamente, pois tudo está interligado.

Ao terminar de ler o livro de Joseph Stiglitz, fica-se com a dúvida a respeito de ter ele elaborado uma crítica ao sistema econômico dos EUA ou do Brasil. Infelizmente, o autor nada fala sobre o Brasil.

Em terras tupiniquins, salvo crítica isolada como a que foi feita pelo brilhante economista André Lara Resende no início de 2017 — que criticou em um artigo a ortodoxia econômica predominante no Brasil e quase sofreu um linchamento —, no Brasil temos um pensamento unidimensional em economia. Nossas faculdades estão doutrinadas a tal ponto por essa ortodoxia econômica carcomida, que certamente seriam incapazes de produzir economistas com visão crítica e independência semelhante. Uma pena.

Assim, seguramente, continuaremos mais algumas décadas com o sistema financeiro dominando o Banco Central e o Ministério da Fazenda, os grandes conglomerados ditando as regras nas agências reguladoras e os plebeus esperando que algum dia ocorra um gotejamento do andar superior. Até lá, a classe média será extinta e o fosso entre a ponta e a base da pirâmide social estará bem mais profundo.

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1 Resultado

  1. Victor Barbosa disse:

    Magnificamente bem elaborado e apresentado. Belo trabalho Dr. Minaré…mais uma vez. Abraço

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