Envelhecendo

 

Envelhecendo“Não há nada como um dia após o outro”, reza o ditado popular. Supõe que a passagem do tempo ajuda a superar os problemas, ou, pelo menos, os torna menos pesados. No mínimo, suaviza a memória dos maus acontecimentos.

No entanto, no tal dia após o outro, vem embutido o conceito de repetição. Repetir tarefas, dia após dia, sejam quais forem, é um fardo. Não à toa, o mito grego de Sísifo sobrevive. Nem todo mundo se assusta com o fantasma da repetição, mas condenar alguém a reproduzir os mesmos atos indefinidamente pode ser cruel. Por isso, quem pretende ter uma vida longa e feliz, precisa se reinventar de vez em quando, ou acaba cumprindo só a parte do longa.

Na prática, a vida longa vem acompanhada por algumas limitações, o que dificulta a empreitada de se reinventar. A Natureza está sempre a postos, descartando o velho e criando o novo. O que inclui os seus joelhos e o resto do corpticho. Não se engane: você não tem o controle, mesmo fazendo exercícios e comendo adequadamente. Quase inevitável uma dorzinha aqui, outra acolá. Ou a demência, o que, de certa forma, deixa de ser problema seu. Mas, supondo que você e sua mente sobrevivam de forma razoável, tente escapar da armadilha da repetição.

Todas as idades têm os seus encantos, e a fase madura traz uma liberdade muito bem-vinda para realizar projetos inéditos ou que foram adiados por diversas razões.

Essa história de adiar é um caso à parte. Há um momento adequado para cada coisa, e é difícil saber onde está o equilíbrio entre realizar algo imediatamente ou deixar para depois. A linha que separa as duas atitudes é tênue.

Postergamos alguns projetos por tanto tempo, que às vezes se torna tarde demais para realizá-los. Não venham com essa conversa de antes tarde do que nunca: em certas situações é tarde mesmo. Saltar de asa delta, por exemplo — plano que adiei até agora —, na minha idade seria uma loucura. Outro sonho protelado, o de aprender mais uma língua, ainda está ao meu alcance, mas com um esforço bem maior e um resultado bem pior, e falta ânimo. Talvez eu nunca quisesse realmente fazer essas coisas, ou talvez a rotina, aliada à preguiça, tenha vencido. Não importa, minha cabeça já decidiu engavetar essas ideias. Sobraram outras.

Adiar planos e decisões nem sempre é inconveniente. Há gente que protela porque quer refletir um pouco mais sobre o assunto. O que lembra outro dito popular: “O apressado come cru”. Repito-o para mim mesma como um mantra, visto que tenho tendência para correr e decidir tudo rapidamente: prefiro resolver de imediato o que me incomoda, a ficar morrinhando e remoendo o problema. Só que existem casos em que a precipitação cria situações ainda piores, e, muitas vezes, quem espera a hora certa, vê que o tempo enfraquece algumas dificuldades, ou até as elimina. Quem empurra as coisas com a barriga, nem sempre se dá mal.

Às vezes a gente protela algo e, quando vê, é tarde demais: perdeu a pessoa amada porque não a pediu em casamento quando ela esperava, ou deixou de comprar uma boa casa aguardando uma oportunidade melhor. Ou, ao contrário, protelando, escapou de casar com a criatura errada ou não comprou um imóvel que lhe traria complicações. Não há como saber.

Sou neófita nesse negócio de velhice, como já fui de juventude. Daí tanta filosofia. A gente está sempre correndo atrás. Fazer o quê? (risos)

P.S. Acho que estou numa fase de prestar atenção aos ditados populares. Vai passar…

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1 Resultado

  1. Ana Bailune disse:

    Ótima crônica! Mas não, não vai passar…

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