Brolly ou Fitbit?

 

Brolly ou Fitbit   Para o bem ou para o mal, me rendi às engenhocas eletrônicas. Ainda não tenho um robô aspirador para limpar a casa e não recebo as compras de supermercado por drones aterrissando à minha porta. Porém levo no bolso um smartphone que abrange conhecimentos do mundo todo. São tantos aplicativos na palma da mão que nem dá tempo de ver ou absorver todas as informações.

Como se isso não bastasse, me presenteei no Natal com um Fitbit, que além de relógio e calendário me ajuda a ter uma vida mais saudável. Carrego-o no pulso dia e noite, já não sei viver sem ele. Às sete da manhã ele me desperta com um barulho insistente e me controla o dia inteiro. Conta minha meta de 10 mil passos diários, 8 a 9 horas de sono, a frequência cardíaca, as calorias gastas. Se fico sentada mais de 15 minutos ele vibra e me manda caminhar. Enquanto escrevo esta crônica à noite, ele me avisa que chegou a hora de me preparar para dormir. Se não obedeço, continua vibrando até que eu tome uma atitude. Ou vou para a cama, ou ele atazana a minha vida. Só o dispenso na hora do banho. Através de um app instalado no meu smartphone recebo os dados do meu progresso. Além disso, ele está conectado ao Fitbit da minha neta, e assim podemos trocar mensagens e ver quem se dedica mais à malhação. O único ponto negativo é que já estou usando-o há 3 semanas e apesar de todo este esforço não perdi um quilo sequer. Frio e chuva não combinam com caminhada, reconheço que ando meio preguiçosa, hibernando neste inverno.

E por falar em chuva, comecei a refletir sobre um objeto que, com todos os avanços tecnológicos, não mudou nada ao longo dos anos: o guarda-chuva. Com o mesmo design desde a antiguidade é dotado de uma armação flexível coberta por pano ou outro material, para nos proteger da chuva ou do sol. Além disso, tem várias outras utilidades, como servir de bengala, arma de defesa ou esconderijo para evitar contatos indesejados. As mulheres o usavam também para ocultar o rosto, atraindo a atenção masculina. Mas isso é coisa do passado, hoje seria considerado assédio ou insinuação inoportuna.

O fato é que fiquei curiosa e fui pesquisar sobre a história do nosso teto portátil. Segundo Marion Rankine, autora do livro Brolliology, civilizações antigas como dos assírios e egípcios o usavam para proteger os monarcas do sol intenso. No Japão, as mulheres apaixonadas usavam sombrinhas de papel de arroz e armação de osso de baleia para testar uma relação amorosa. Se ao pular do alto de um templo caíssem no chão sem se ferir, a felicidade futura estava garantida.

Na Índia era proteção contra o mal e a magia negra.

Tem gente que não o abre dentro de casa, pois acha que traz má sorte. Dizem que a superstição começou na Europa, quando os padres o usavam para protegê-los do mau tempo durante os funerais. As pessoas começaram a associar o objeto com a morte de parentes e amigos e tinham medo de abri-lo dentro de casa. Vai entender…

Nas guerras napoleônicas, os oficiais ingleses lutavam contra os franceses com um guarda-chuva na mão, para espanto dos adversários.

Escritores famosos como Charles Dickens e outros incluíram com frequência o guarda-chuva em suas obras. Em Madame Bovary, Gustave Flaubert descreve Emma abraçada a Léon, seu amante, debaixo de um guarda-chuva durante um temporal, com a sensação de que uma separação seria algo insuportável. Uma paixão sem limites, quando raios iluminavam o céu e os pés chafurdavam na lama.

Britânicos usam o guarda-chuva como complemento do vestuário. Nada como passear num parque e ouvir, faça chuva ou faça sol, um senhor com ares de lorde dizer para uma desconhecida ‘What a lovely day!’. O dia fica mais alegre com uma simples gentileza.

Guarda-chuva é sombra, proteção, abrigo, e mesmo assim o desprezamos quando não é necessário. Quem ainda não perdeu um guarda-chuva? No Departamento de Transportes de Londres existem 35 mil guardados na seção de achados e perdidos. Ficam lá abandonados sem que ninguém reclame. Já perdi guarda-chuvas em táxis, restaurantes, consultórios, sem dar valor a um acessório tão útil. Discreto, é incapaz de revelar a vida de quem o usa.

Do jeito que o mundo anda esquisito, estou pensando seriamente em dar mais valor ao meu brolly e aposentar o Fitbit. Melhor voar como Mary Poppins do que ter os meus dados todos na nuvem à disposição de desconhecidos. Liberdade não tem preço. É supercalifragilisticexpialidocious!

https://www.theguardian.com/books/2017/nov/04/brolliology-marion-rankine-review-history-of-umbrella

Rankine, Marion. Brolliology, a History of the Umbrella in Life and Literature, Melville House, 2017.

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1 Resultado

  1. Irene Paternot disse:

    Feliz com a volta de tuas crônicas, Clarisse! Sempre me distraem e ensinam. Partilho tua admiração pelo guarda-chuva, igual há tanto tempo. Designers que me lêem, está feito o desafio de renovar nosso protetor das intempéries com um objeto pequeno e leve, uma geringonca jovial que caiba numa bolsa de mulher! Parabéns mais uma vez, Clarisse!

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