Os embusteiros

 

Os embusteiros  Em “Sim Senhor”, Jim Carrey interpreta um personagem que, após participar de uma palestra de autoajuda, resolve dizer sim para tudo. O resultado, claro, é catastrófico.

O filme não é novo, porém, a dificuldade das pessoas em dizer “sim” e “não” está mais atual do que nunca — e numa curva ascendente. As mentiras estão como os bitcoins: subindo exponencialmente de um dia para o outro e com verdadeiro risco ao investidor.

Nesse mercado variável, as razões são inúmeras e individuais, e vão do desejo de aceitação à picaretagem — passando pela traição. Conheço casos de pessoas que mentem tão completamente que chegam a acreditar que é verdade a mentira que deveras contam. Mentir virou moeda de troca e é uma fabulosa muleta social.

As lorotas começam a incomodar de verdade quando desenvolvemos um faro apurado para identificá-las. Confesso que não é tarefa fácil tirar do armário minha melhor cara de paisagem todos os dias.

Forçada a lidar com falácias diariamente, criei um método de classificação em três níveis. Há as leves-risíveis, as moderadas-irritantes e as graves. Dentre as leves-risíveis, cito uma do meu pai, que tem o péssimo costume de acordar às seis da manhã, tomar café e permanecer sem comer nada até o meio-dia, quando almoça. Minha luta é fazê-lo entender que é preciso consumir algo no meio da manhã, como uma fruta, um iogurte ou uma gelatina.

Dia desses, ao indagá-lo sobre minha dica de lanche da manhã, disse-me com um ar sóbrio, sereno e sem gaguejar: “Hoje eu comi uma maçã lá pelas 10”. Caí na gargalhada. Desmascarei-o com facilidade, afinal, nunca o vi com uma maçã na mão em toda a minha vida. O DOI-CODI não dorme em serviço.

Ainda dentre as leves-risíveis estão os elogios. Há pouco tempo presenciei o roto louvando o esfarrapado. Um acreditou no outro. Os únicos constrangidos pela cena foram meu acompanhante e eu.

O território mais propício para a propagação das leves-risíveis está nas redes sociais. Sonho em realizar uma pesquisa anônima para descobrir se todos os seguidores que curtem uma foto da Família Adams com o comentário “Parabéns, que família linda!!!!” realmente acreditam estarem convencendo os outros seguidores e os próprios integrantes da família. O Facebook precisa inventar mais um botãozinho: o do narizinho crescido.

As moderadas-irritantes abusam de nossa paciência e inteligência porque somos obrigados a ensaiar uma cara de rainha da Inglaterra quando, na verdade, queremos fazer as caretas do Mr. Bean.

Já convivi, convivo e conviverei com pessoas que “adoecem” de uma hora para outra, “se esquecem” de que têm psicólogo marcado ou “ficam na mão” por causa do carro. Nenhuma delas se dá conta de que chegam ao trabalho no dia seguinte com cara de quem não teve nem uma dor de barriga. Também não percebem que é muito difícil não lembrar de algo tão semanal quanto a visita ao psicólogo ou de que o seguro existe para nos socorrer em casos de emergência.

Os maiores nascedouros das moderadas-irritantes são os filhos dos mentirosos. Filhos que adoecem, filhos que se apresentam no teatrinho do colégio, filhos que vão engolir faca no circo, filhos de 18 anos que não têm como voltar da escola, filhos que são assaltados, filhos que têm pais que dão péssimos exemplos.

O que nunca entendi é se as pessoas realmente acreditam ou, como eu, fingem. Mas fico com a primeira opção.

Há vários mistérios no mundo da mentira. Não é um fenômeno recente, existe desde que o mundo é mundo, e compromete vidas para sempre.

Vejam o caso das que classifico como graves. Conheço pessoas que se tornaram escravas de uma falácia — ou de uma sequência delas. Alimentam algo por décadas para não colocar a moral e o pescoço em risco. Para isso, inventam novas mentiras e histórias mirabolantes, se vitimizam, criticam e ameaçam terceiros, prometem a fuga eterna que nunca acontece e, principalmente, não acreditam em nenhum ser humano a não ser neles mesmos.

Pobres e podres, os embusteiros.

Imagem: Weheartit

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