As damas de preto

 

Golden Globe 2018

Os pretinhos básicos no Golden Globe 2018. Da esquerda para a direita, Saoirse Ronan, Salma Hayek, Gal Gadot e Viola Davis.

Ando um pouco enjoada dos exageros ativistas de Hollywood. De uns tempo para cá (ou talvez tenha sido sempre assim), cada atriz/ator que sobe ao palco de um prêmio qualquer ou outro palco qualquer da vida se acha na obrigação de emitir um julgamento político ou adotar alguma causa nobre, independente, muitas vezes, de sua real capacidade de entendimento do mundo.

Desde quando a nossa sociedade e sua intelectualidade  em queda passaram a se deixar dominar pelas opiniões dessas celebridades milionárias e mimadas? Fazer sucesso num filme sabe-se lá por que razões — entre elas “fingir que é dor a dor que deveras sente” — não as torna inteligentes nem mais perpicazes. E lá se vai nossa racionalidade pelo ralo abaixo.

Essa situação esteve no auge ontem  à noite, no palco do Golden Globe 2018, quando o simples fato de estar vestindo um pretinho básico (ou não tão báscio assim) se transformou numa declaração de princípios.

A escolha pelo preto, vamos combinar, juntou a fome à vontade de comer, já que o preto sempre foi uma cor favorita quando se trata de vestidos de gala, mas não, longe de mim tentar diminuir a revolta das privilegiadas, que, finalmente, acharam um motivo convincente para serem vistas como vítimas da crueldade do sistema. O protesto teria sido de outra categoria se estivessem todas vestindo branco, ou roxo, por exemplo.

Outra coisa que me incomodou, embora eu já tenha reclamado dos figurinos provocativos neste espaço, foi uma certa tendência a eliminar decotes, brilhos e transparências, embora em alguns casos tais características tenham persistido. Susan Sarandon, por exemplo, parecia estar saindo de uma faxina em casa e indo ao supermercado. Já a premiada Elisabeth Moss, de “The Handmaid’s Tale”, parecia uma freira, e Frances McDormand exagerou em sua opção por “encarar a idade de frente”. Precisava estar tão despojada assim? Com o cabelo sem graça e sem nem um batonzinho? A líder dos protestos Salma Hayek estava coberta de preto da cabeça aos pés, sem deixar um centímetro de pele à vista.

Tenho medo de que, com esse movimento #MeToo, estejamos eliminando não só o prazer de dar aos homens um prazer visual, mas também o nosso prazer com nossa própria aparência. É como se, para castigá-los, estivéssemos castigando a nós mesmas. Quem gostaria de viver num mundo sem sensualidade, sem desafios estéticos, sem a busca pela beleza? Embora eu condene, é claro, os exageros do outro lado, que nos levaram a dietas radicais e plásticas malucas como essa sobre a qual li no outro dia, feita na cadeira do dentista, que elimina a gordura das bochechas. Será que não somos capazes de trilhar um caminho do meio?

Ah, sim, os filmes. Tratava-se, afinal de contas, do primeiro evento da temporada de prêmios de 2018, após o furacão das denúncias de assédio que devastou a indústria da vaid… ops, cinematográfica.

A verdade é que ainda não assisti a muita coisa entre os filmes nomeados. Ontem à noite, por coincidência, logo depois que Seth Myers mencionou o filme, deixei a transmissão do Globe gravando e assisti na HBO ao esquisitíssimo “Get Out”, uma mistura de terror supremacista com um racismo pelo avesso, no qual os negros são considerados como “estando na moda”, mas não do jeito positivo que vocês possam estar pensando.  Bem a propósito, algumas das mais badaladas celebridades trouxeram a tiracolo ontem à noite suas “ativistas de estimação”, uma nova tendência em Hollywood, ao que parece.

Por falar nisso, a única característica de moda que curti ontem à noite foi o fato de atrizes negras estarem adotando novamente seus espetaculares penteados afro, que sempre achei lindos. Detesto essa mania de alisamentos, sempre detestei, não importa a cor da pele nem a textura do cabelo. Até mesmo a excelente Viola Davis, que não se pode dizer exatamente que prime pela beleza, ficou linda com o novo cabelão.

Voltando a “Get Out”. O filme parte de uma premissa meio absurda, mas tem boas atuações, entre elas a do próprio protagonista, Daniel Kaluuya, escalado, por sua negritude moderna, para o papel de um fotógrafo descolado — trata-se, simplesmente, de uma constatação de uma sociedade que, embora viva se mortificando por seu racismo, dá aos negros oportunidades iguais de subir na vida, a não ser que sejam impedidos de fazê-lo não pela cor de sua pele, mas por causa das circunstâncias desfavoráveis nas quais podem ter sido criados, como, aliás, acontece aqui nos EUA com muitos brancos também.  Essa insistência de que “ser branco é ser privilegiado” é, na verdade, uma falácia que tem causado sofrimento a muitos brancos carentes, coisa não tão rara por aqui.

Kaluuya, por falar nisso, não levou o Globo de Ouro, concedido ao “instável” James Franco, o “artista do desastre”.

Natalie Portman, que também é diretora, não perdeu a oportunidade de reclamar que todos os candidatos a melhor diretor eram homens. Coincidência. Afinal de contas, o prêmio de melhor filme foi para o simpático “Lady Bird”, que ainda não pude assistir, dirigido por uma mulher, Greta Gerwig, também autora do script e mais conhecida por seu trabalho como atriz.

E aí chegamos ao prêmio que mais curti ontem à noite, embora tampouco tenha visto a atriz em ação: o de melhor atriz concedido à iluminada Saoirse Ronan, a quem acompanho desde sua estreia no excelente “Reparação” (2007), baseado no portentoso romance de Ian McEwan de mesmo nome, quando tinha apenas 13 anos.

Tomara que tenhamos a oportunidade de vê-la em muitas atuações excelentes, e que ela saiba dosar com sabedoria seu trabalho de atriz e a necessidade premente de se posicionar politicamente, coisa que, aliás, ela não fez ontem à noite, com exceção do seu pretinho nem um pouco básico.

Ah, vocês perceberam que não ressaltei o “grande manifesto político” da noite, o lançamento não oficial da candidatura de Oprah Winfrey à presidência dos Estados Unidos. Logo após o discurso da apresentadora, que recebeu o prêmio Cecil B. de Mille por sua contribuição ao mundo do entretenimento, a NBC publicou um tuíte nomeando Oprah “a próxima presidente”. O ultraje foi geral. Ninguém gostou da ideia, nem eu, e um dos leitores comentou no Twitter que se sentia “muito desconfortável” pela mídia estar decidindo quem será o próximo presidente sem ouvir o povo, o que, para ele, configurou um ataque à democracia. Não terá sido o único nesses tempos conturbados, em que a mídia, deslocada de seu papel tradicional de investigar e informar a verdade, vem cada vez mais cedendo à tentação de manipular a opinião e publicar qualquer versão sensacionalista em busca dos lucrativos cliques, com acentuado descaso pela supremacia dos fatos.

Foto Vanity Fair.

https://www.vanityfair.com/hollywood/2018/01/golden-globes-2018-winners-list

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2 Resultados

  1. Ana Bailune disse:

    Excelente crônica. Na verdade, as pessoas estão cada dia mais chatas!

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