2017: o ano de Trump

 

Donald Trump

Tenho visto muito esforço da mídia no sentido de detectar o “tema” do ano que ora termina, e um esforço ainda maior para nomeá-lo “o ano da mulher”.

Poderia fazer sentido. O ano começou, se vocês se lembram — não custa lembrar que este texto é uma “retrospectiva” —, com uma passeata de mais de um milhão de mulheres em Washington, protestando contra o recém-empossado Donald Trump — a passeata foi no dia seguinte à posse do presidente.

A ideia era apresentar o novo titular da Casa Branca como racista, misógino e, claro, abusador de mulheres, depois da tentativa de derrubar sua candidatura com uma gravação clandestina de 2005, na qual o candidato declarava que fazia o que queria com as mulheres porque era famoso, e que as agarrava pela… hum. Xoxota.

Não deu muito certo. Apesar das acusações e denúncias, nada foi provado contra Trump, e ele acabou vencendo as eleições de qualquer maneira, como todo mundo sabe.

Porém, o que ninguém percebeu na época é que a Caixa de Pandora tinha sido aberta, e uma vez que os males lá de dentro começaram a sair, bem, não haveria como colocá-los de volta.

Os diabinhos custaram um pouco a perceber que estavam livres, é verdade. Mas, finalmente, no início de outubro, o demônio mor botou as garras para fora, com o grande escândalo do magnata de Hollywood, Harvey Weinstein, que foi desmascarado pela revista New Yorker como um “predador em série”, em artigo escrito pelo filho de Woody Allen, Ronan Farrow.

Não sobrou pedra sobre pedra. Muitas reputações inatacáveis foram destruídas da noite para o dia, e até hoje o fluxo de mulheres denunciando abusos, passados e quase presentes, ainda não arrefeceu. O que começou em janeiro com os “gorros de xoxota” [“pussy hats”] cor-de-rosa e declarações provocativas do tipo “I am a nasty woman” [Sou uma mulher desagradável], emitida ao microfone pela atriz Ashley Judd, mais as ameaças de Madonna, que queria “botar fogo na Casa Branca”, desembocou no tsunami #MeToo, movimento que tomou de assalto as redes sociais e convenceu todas as mulheres do mundo que, de um jeito ou de outro, haviam em algum momento de sua vida sido vítimas de abuso sexual.

O que há de bom nisso: as mulheres estão se sentido fortalecidas e cheias de energia. O que há de ruim nisso: os homens estão acuados e desvalorizados, como se fossem todos criminosos e, pior, desnecessários para a continuidade da sociedade, do que, obviamente, discordo.

Tudo que é demais… sabem como é. Desde a semana passada, o (outrora) popular Matt Damon, com sua fachada de eterno bom moço e herói dos desprotegidos, está sendo ameaçado de “banimento social” por ter declarado que nem todo assovio e passada de mão é estupro (traduzindo livremente para nossos hábitos abaixo do Equador). As furiosas MeToo já estão pedindo a cabeça do moço e, pior, passaram na última semana a “proibir” certas palavras, como, por exemplo “supostamente”. No contexto do MeToo, isso quer dizer que todas as acusações, verificadas ou não, devem ser tomadas como verdade, simplesmente porque saem da boca das santificadas heroínas vítimas de abuso. Nenhuma denúncia pode mais ser confrontada com a ideia de que se trata, apenas, de uma suposição de abuso, sob pena de, bem, “banimento social”.

O problema é que Matt Damon está coberto de razão. Em 90% dos casos, paquera não pode ser considerada estupro, e, além do mais, quem iria querer viver num mundo onde não houvesse nenhum representante do sexo masculino nos convencendo de que somos desejáveis? Ou disponível para que a gente mesmo o paquerasse?

Outra candidata indiscutível a “tema do ano” é a rede social. Vamos combinar que, sem ela, não haveria #MeToo, nem, muito menos… Presidente Donald Trump. Com certeza tampouco haveria conluio com os russos, polarização política extrema, fake news, gente que não sabe de nada mandando nas nossas vidas etc. etc.

A sociedade pós-celular seria outra, e não se trata de exagero nem de mera impressão. Há coisa de umas duas semanas, um dos fundadores do Facebook declarou em entrevista que a rede social está alterando as relações, a cultura e o próprio tecido da sociedade, e não somente seus executivos têm total consciência disso, como exploram o fato o máximo possível, manipulando as nossas sensibilidades no sentido de nos “viciar” em curtidas e nos empurrar o que for através de seus posts algoritmizados. Inclusive as pussy hats e o Presidente Donald Trump, um presidente que, obviamente, todos esses bilionários politicamente corretinhos do Vale do Silício odeiam de paixão. Paradoxo.

O que me leva, finalmente, ao verdadeiro “tema” inescapável de 2017: Donald Trump.

O presidente foi eleito, em boa parte, por sua habilidade de se comunicar nas redes sociais. Com sua fama de garanhão, Trump incentivou, desde o primeiro dia — pelo avesso, é claro —, o “ultraje” das mulheres progressistas. E, last but not least, com sua franqueza grosseira e intimidade com os anseios do assim chamado homem comum — a infame maioria silenciosa, aliada ao “privilégio dos brancos” —, começou a expor de uma forma que vai ficando cada vez mais patente a infecciosa corrupção que corrói o “suposto” bom mocismo dos progressistas, inclusive de seu campeão Barack Obama, que, a cada dia que passa, vem sendo exposto como um presidente inepto e comprometido.

Por contraste, a esquerda barulhenta não encontrou nenhuma saída para sua derrota iminente a não ser insistir na tecla de que Trump é um incapaz, burro, ignorante, maluco, senil e despreparado para “liderar o mundo livre”.

Pois vejamos.

Este ano viu uma recuperação econômica poucas vezes vista na história. O índice Dow Jones da Bolsa de Nova York vem batendo recorde atrás de recorde, fechando o ano próximo dos 25.000 pontos, um explícito atestado de confiança concedido aos planos do novo presidente; e, no apagar das luzes de 2017, o governo americano aprovou um dos maiores cortes de impostos de que se tem notícia. Para as empresas, por exemplo, o percentual despencou de 35% para 21%, num corte de caráter permanente, e as pessoas físicas não ficaram muito para trás: o “desconto padrão” simplesmente dobrou, passando de 12.500 dólares por casal declarando em conjunto para 25.000 dólares, mais um desconto significativo nos percentuais das várias faixas. A promessa de transformar a complexa declaração de imposto de renda americana em um “cartão postal” ainda não saiu da gaveta, mas foi pavimentado o caminho para isso.

Bem razoável para um presidente demente, não é mesmo?

E a economia não foi tudo, estúpidos. A maior revolução, silenciosa, sendo perpetrada por Trump na sociedade americana — que, nos últimos 50 anos, vem sendo esgarçada pelo ideário progressista —, está sendo urdida no sistema judiciário. O sinal mais visível desse processo foi a nomeação do juiz Neil Gorsuch para a Suprema Corte, em abril, aumentando substancialmente a “pegada” conservadora do judiciário americano, que, em última instância, é quem manda neste país que é considerado o “império da lei”. Mas Trump não parou por aí, e seu recorde mais expressivo até agora foi o número de juízes federais que o presidente nomeou em seu primeiro ano de governo. Meio na surdina, foram 19 já aprovados pelo Senado e 50 já nomeados aguardando aprovação.

É preciso ser pelo menos “metade americano” para entender a importância dessa “invasão” de conservadorismo no judiciário. Afinal de contas, trata-se de juízes em geral razoavelmente jovens, que, com seus cargos vitalícios, poderão influenciar os rumos da sociedade pelos próximos 40 anos! Uma geração inteira!

Nada mal para um presidente que passa o dia inteiro escrevendo impropérios no Twitter, não é mesmo?

Pois é. Imaginem que o tão festejado e propagado “legado” de Obama foi praticamente defenestrado por umas poucas canetadas de Trump… Boa parte do avanço obtido pelo ex-presidente, notadamente nos campos da proteção ao meio ambiente, alterações climáticas, direitos dos transgêneros e incentivo à diversidade, eufemismo progressista para imigração ilegal, foi instituído no país através de decretos presidenciais, que, infelizmente para ele, podem ser desfeitos com a mesma canetada com que foram aprovados, e Trump não está deixando barato: em seu primeiro ano, desfez mais de 50 decretos presidenciais de Obama. A longa lista foi atualizada na semana passada pelo Washington Post, incluindo o cancelamento da obrigação das forças armadas de bancar cirurgias e tratamentos de mudança de sexo. E ainda tem mais: a partir da mais recente Estratégia de Segurança Nacional, as “alterações climáticas” deixaram de ser oficialmente “a maior ameaça aos Estados Unidos”.

Claro que um não-político como Donald Trump deixa um rastro obrigatório de polêmicas e atitudes no mínimo controversas, e isso inclui a “provocação” à Coreia do Norte, explico as aspas: a verdadeira provocação vem de Kim Jong-un, o “rocket man”, de acordo com a mania de Trump de dar apelidos a seus desafetos. Por outro lado, o presidente faz sempre questão de ressaltar suas boas relações pessoais com Xi Jinping, o sorridente presidente-ditador da China, e deu um passo diplomático gigantesco com sua visita à Arábia Saudita em maio, onde participou de um encontro de líderes árabes (e, cá entre nós, deu uma mãozona para colocar no poder o Príncipe Salman, que promete modernizar o país e abri-lo para o Ocidente), para nem mencionar que o  “estado islâmico”, vulgo ISIS, está arrasado, quase para se tornar uma praga do passado.

Nada mal para um brucutu sem o menor refinamento internacional, que jamais deveria ter sido autorizado a sequer se aproximar do “botão nuclear”, caso dependesse de sua arquirrival Hillary Clinton.

E a cereja do bolo, é claro, deixei para o final: o reconhecimento pelos Estados Unidos de Jerusalém como capital de Israel.  Muita gente boa deplorou a decisão “arriscada” do presidente de reafirmar, com todas as letras, uma realidade da qual, ao que parece, ninguém tinha a menor dúvida. Cheguei a ler um progressista aí que declarou que não entendia por que Trump precisava fazer isso, já que todo mundo sabia que a capital era essa mesmo. Então o quê? O melhor seria continuar com a hipocrisia?

Confesso: vibrei nesse dia. E por mais que os fracassados progressistas tenham tentado nos convencer de que o ato insano e desnecessário de Trump seria a pá de cal no processo de paz do Oriente Médio, a verdade é que, após uns poucos breves protestos, nada, absolutamente nada de mal aconteceu. O esperado apocalipse não ocorreu. Na semana passada, a Assembleia Geral da ONU, reunida em sessão de “emergência”, condenou a declaração americana, provocando uma reação inusitada da embaixadora Nikki Haley, que, apoiada por um tuíte do chefe publicado poucas horas antes, disse basicamente o seguinte: “Façam o que quiserem. Isso não vai mudar absolutamente nada”. Dizem as boas línguas que por trás de suas palavras havia a ameaça de parar de dar dinheiro para uma organização internacional que, nos últimos anos, se tornou o órgão oficial das resoluções contra Israel. Danem-se.

Com tudo isso, pergunto: seria possível evitar nomear o ano de 2017 como o “Ano de Trump”?

Não dá! Para todo lado que se olhe, de um jeito ou de outro, lá está a marca indelével do novo presidente americano, que, caso precisasse ser resumido numa só frase, esta seria “o fim da hipocrisia”.

Feliz ano novo procês!

(Foto sem crédito)

https://www.theguardian.com/lifeandstyle/live/2017/jan/21/womens-march-on-washington-and-other-anti-trump-protests-around-the-world-live-coverage

https://www.newyorker.com/news/news-desk/from-aggressive-overtures-to-sexual-assault-harvey-weinsteins-accusers-tell-their-stories

http://www.bbc.com/news/entertainment-arts-41594672

https://www.theguardian.com/technology/2017/nov/09/facebook-sean-parker-vulnerability-brain-psychology

https://www.reuters.com/article/us-usa-court-gorsuch/in-big-win-for-trump-senate-approves-his-conservative-court-pick-idUSKBN1791GR

https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_federal_judges_appointed_by_Donald_Trump

https://www.washingtonpost.com/news/politics/wp/2017/08/24/what-trump-has-undone/?utm_term=.0bd86a8af20b

http://www.dailymail.co.uk/news/article-5186005/Trump-removes-climate-change-national-security-policy.html

http://www.aljazeera.com/news/2017/05/trump-arrives-saudi-arabia-foreign-trip-170520063253596.html

http://www.jpost.com/International/After-UNGA-Jerusalem-vote-Nikki-Haley-throws-party-for-friendly-states-519822

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