Carta a Papai Noel

 

Papai NoelQuerido Papai Noel:

 

Não interessa se você existe ou não, é ótimo ter a quem pedir que nossos desejos se realizem. A gente escreve a cartinha, coloca no correio, imaginário ou não, e fica aguardando.

Na maior parte das vezes não acontece nada, mas não dá para abrir mão do sonho: o simples fato de conjecturar sobre o que nos faria felizes já nos traz um pouco de alegria.

Olhe, Papai Noel, este ano não foi muito bom. Então, o meu primeiro pedido, é que o próximo seja melhor.

Se você providenciar saúde para mim e para todos que amo, já ficarei satisfeita. Melhor ainda seria que não se desperdiçasse tempo reclamando que a cor do vestido não combina com a cor do sofá. Como diz uma amiga com quem aprendi várias coisas importantes: existem as pessoas que choram porque não têm o que comer, e as que choram porque as pérolas do colar não são exatamente iguais.

Sabe, Papai Noel, às vezes preciso tomar cuidado para não chorar por causa das pérolas. Então, perdoe-me por isso. Ah, esqueci, você não está aqui para perdoar, nem para julgar ninguém. Ou está? Quando eu era criança, diziam que só ganhava presente no Natal quem tinha se comportado bem o ano todo. No entanto, duvido muito que esse critério fosse realmente para valer, e hoje em dia, parece que vale ainda menos.

Eu própria tenho dúvidas sobre se me comportei de forma exemplar o ano inteiro. Provavelmente não, mas não espere que eu vá lhe contar! Apesar disso, espero que você acate minhas solicitações, e me conforta a ideia de que posso ser atendida, mesmo sem merecer e sem acreditar.

Veja só: ainda agora acabo de cometer um ato de egoísmo, porque desejei saúde para os meus amigos, e nem me importei com o resto da humanidade. Sabendo que a infelicidade está espalhada pelo mundo, quero jogá-la para cima dos desconhecidos. É uma atitude desprezível, Papai Noel, desculpe a franqueza. Uma das minhas características é a sinceridade, que não sei se é um defeito ou uma qualidade, talvez ambos. Dá também para corrigir isso um pouco? Tem me causado alguns dissabores.

A vida é boa, mas pode ser cruel. Quanto mais recebemos de bom, mais temos a perder. Um jogo de soma zero, Papai Noel. Posso pedir, humildemente, que a gente ganhe um pouco mais do que perde? É um pedido e tanto.

Por outro lado, não se preocupe em providenciar-me bens materiais. Tenho o suficiente para viver, já que não consta da minha lista de objetivos ser dona de um iate maior que o da rainha da Inglaterra. Torço para que aprecie este meu desprendimento, e capriche no resto.

Acho que, por enquanto, é só. Fico por aqui, na maior expectativa.

Feliz Natal!

 

P.S. A sua sorte, Papai Noel, é ser um ente imaginário. Existir no mundo real é bem mais complicado. Se fosse de carne e osso, teria que ralar muito para dar conta de tantas cartinhas como esta. Acredite: ficaria tão estressado, que perderia logo o encanto.

 

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