O filho eterno

 

O filho eterno    Até que ponto o (pré)conceito leva um pai a desejar a morte do filho? E até que ponto esta rejeição pode se transformar em aceitação incondicional?

Estes questionamentos e muitos outros deixam a plateia perplexa ao assistir à peça teatral “O filho eterno”, baseada no premiadíssimo livro homônimo de Cristóvão Tezza. Para comemorar os 25 anos da Cia. Atores de Laura, do Teatro Laura Alvim, no Rio, o livro de Tezza foi adaptado por Bruno Lara Resende, com direção de Daniel Herz.

Num momento em que discussões sobre discriminação e racismo enchem as caixas de comentários na mídia, “O filho eterno” nos faz refletir sobre quão difícil é julgar situações que não são parte do nosso dia a dia ou fogem ao nosso controle. O ser humano é tribal e tudo o que é diferente traz reações as mais diversas, como no caso do protagonista em questão.

O palco escuro deixa antever uma cadeira e um homem sentado de costas para os espectadores. Assim começa o monólogo corajoso, fora do politicamente correto, onde as limitações do ser humano são expostas de modo até cruel, e outras vezes com extrema delicadeza. O narrador da história alterna sua voz entre a terceira pessoa, apresentando o que os outros personagens pensam e sentem, e a primeira pessoa, como o único personagem presente no palco.

Esse jogo de aproximação e distanciamento depende dos sentimentos que vêm à tona no desenrolar dos acontecimentos.  O ator Charles Fricks, nota 10 em sua interpretação, é o protagonista, um escritor de 28 anos, frustrado por não conseguir publicar nenhum livro. Desempregado, faz a revisão da tese científica de um amigo, sobre genética e a trissomia do cromossomo 21, atualmente conhecida com Síndrome de Down. Na verdade, ele mesmo reconhece que não é ninguém. Depende da mulher para sustentá-lo, enquanto os dois aguardam o nascimento do primeiro filho.

Na expectativa da chegada de Felipe — o único personagem que tem nome —, questiona o que é ser pai e seus sentimentos se alternam entre a insegurança, a responsabilidade e a alegria que terá ao pegar o filho no colo.

A família está ali, na hora do parto, aguardando ansiosa e alegre a chegada do rebento. Ele sonha com a vida daqui a cinco, dez anos, uma vida feliz. Depois do parto olha o berçário, busca reconhecer Felipe.

Tudo corre nos conformes até que, como na tragédia grega, um raio vindo do Olimpo destrói seu castelo de sonhos. No hospital, os médicos lhe comunicam que Felipe nascera com mongolismo, termo usado no começo dos anos 80, quando não havia muitas informações sobre o distúrbio genético. O que dizer para a família e os amigos? Sem coragem para contar a verdade, diz que o menino é parrudo, grande, forte, saudável, enquanto, dentro dele, surgiam os sentimentos mais disparatados. Ódio, vergonha, negação, orgulho ferido, ao ponto de renegar a mulher e o filho, de desejar a morte de Felipe para ganhar sua liberdade, voltar à antiga rotina.

Ouve a descrição dos médicos, “repare nos olhos com pregas nos cantos, o dedo mindinho arqueado para dentro, a hipotonia muscular, a língua enorme e saliente, o pescoço curto demais”. Não, não pode acreditar. Faz-se o silêncio.

Como aceitar aquela criança física e mentalmente deficiente? O bebê agarra o dedo do pai com força, como a pedir ajuda. A partir dali, começa o seu calvário.

O pai descobre que existem coisas na vida que não têm retorno, e a aceitação do irremediável vem com o tempo. Como diz Tezza no livro, “É preciso esperar que a pedra pouse vagarosamente no fundo do lago, enterrando-se mais e mais na areia úmida, no limo e no limbo, é preciso sentir a consistência daquele peso irremovível para todo o sempre, preso na alma, antes de dizer alguma coisa”.

O envolvimento com o filho, a busca de terapias, exercícios de reabilitação, o enfrentamento da escola que rejeita Felipe, tudo isso vai criando um elo entre os dois. O pai sabe que Felipe nunca poderá ler seus livros, mas em outras coisas são até parecidos. A amarga sensação de impotência desaparece quando encontram um interesse mútuo e assim termina a peça: duas cadeiras vazias esperando mais uma partida de futebol, a paixão de Felipe. O pai, finalmente, alcança sucesso como escritor.

Sem pieguice ou vitimização, Cristóvão Tezza, grande escritor contemporâneo, nos dá uma lição de superação e amor. De que somos únicos e especiais, e que a empatia e a compaixão devem ser nosso farol. De que a verdade pode ser contada nua e crua. De que saímos do teatro convencidos de que a arte cura, a literatura salva.

Monólogo de Charles Fricks:

https://www.youtube.com/watch?v=KJKzLlLlWSEhttps://www.youtube.com/watch?v=KJKzLlLlWSE

O Filho Eterno, filme: https://www.youtube.com/watch?v=-Z_Zd8XvDC4

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