A caça das bruxas

 

Anotação de diário Debbie GibsonVou logo esclarecer que não tenho nada contra nem a favor desse candidato republicano a senador pelo Alabama, Roy Moore, nem sequer simpatizo com ele. Mas não me custa entender por que os republicanos e o próprio presidente Trump decidiram, ontem à tarde, endossá-lo na corrida eleitoral que se encerra semana que vem.

Não é para menos. Um republicano a menos no Senado seria mortal para Trump, e, vamos combinar, vital para o sucesso do obstrucionismo democrata. Mesmo assim, visto de fora, parece um apoio de “alto risco”, já que Roy Moore vem sendo acusado de assédio e má conduta sexual, o “crime” do momento, e elegê-lo para a câmara legislativa mais importante do país poderia parecer, para o povo em geral, uma estratégia suicida.

Porém, basta pensar um pouco, e observar um pouco, para ver que as acusações contra Moore não chegaram muito longe. O dublê de juiz e candidato está sendo acusado por uma mulher de tê-la assediado quando ele tinha 30 anos, e ela, 15. No Alabama, of all places, e há 30 anos.

Vocês sabem o que é o Alabama? Sabem o que era o Alabama há 30 anos?

Ontem, sob declarações bombásticas, a acusadora (vocês já verão por que não posso escrever “vítima”) adicionou novas (e únicas) provas ao caso. Olhando “distraidamente” para uma lata de lixo no quintal de sua casa, Debbie Gibson se “lembrou” de repente de ter jogado fora lá seu scrapbook da adolescência, intitulado “Pessoas que admiro”, e no tal scrapbook, imaginem, crime dos crimes, estava a prova cabal da falta de moral  de Moore, uma foto com a seguinte dedicatória manuscrita: “Querida Debbie, eu quis te enviar este cartão eu mesmo para que você saiba que terá sucesso em tudo o que desejar nesta vida”. Inclusive destruir a vida do futuro juiz… Não é?

Só que… logo abaixo da dedicatória sem nenhum toque sensual ou invocativo, lê-se o seguinte, desta vez manuscrito pela própria Debbie: “Roy Moore é uma inspiração para mim, porque é um sucesso ele mesmo, em tudo o que faz (…).”

É. As coisas mudam. E mudaram também no Alabama, onde, há 30 anos, um rapaz solteiro de 30 anos cortejando uma menina de 15 “já formada” não seria motivo para tanto espanto. Quantos casamentos se realizaram com essa diferença de idade? Além do que, a própria Debbie informa, em meio a contradições, que Moore a beijou e que foi “consensual”. Não tenho dúvidas de que, na época, a menina se sentiu o ó do bobó por ser alvo de atenções do rapaz mais velho.

Outras duas moças, ao que parece, se apressaram em apresentar ao Washington Post “provas da perversão” de Moore, dedicatórias igualmente carinhosas e sem nenhum tom sexual. Voltando à Debbie, acusadora principal, a moça mostra a anotação eivada de orgulho em seu scrapbook de 1981: “Quarta-feira, 3 de abril. Esta noite Roy S. Moore e eu saímos juntos pela primeira vez. Fomos jantar na Cat Cabin em Albertville, e comemos um excelente (grifo no original, resto ilegível). Parece assédio para vocês? Ou o relato de uma adolescente deslumbrada, namorando com o consentimento de seus pais?

Anotação de diário Debbie GibsonNão sei o que os dois comeram naquela noite.  Sei que o prato que Debbie Gibson está servindo a Moore neste momento está mais do que frio, está gelado. Talvez seja uma vingança bem atrasada por Moore, no final, ter se casado com outra, e dispensado a ressentida Debbie.

Uma história que, posso imaginar, deve estar se repetindo na vida destruída de muitos homens acusados.

Não acho correto que homens tenham poder e ascendência sobre as mulheres, obviamente. Isso, porém, hoje em dia, num momento em que as mulheres não somente estão pleiteando igualdade, mas também poder e controle sobre suas carreiras e sobre seus corpos (cá entre nós, nunca deixei de sentir que tinha controle absoluto sobre o meu corpo, enfim). Porém, usarmos nossos corpos como instrumento de vingança e punição política não me parece a coisa mais certa a fazer, embora atitudes deste calibre estejam sendo incensadas pela mídia e resultando em punições sumárias, sem julgamento e sem provas, o que, francamente, nos faz merecer plenamente o apelido de “bruxas”.

https://www.washingtonpost.com/politics/woman-shares-new-evidence-of-relationship-with-roy-moore-when-she-was-17/2017/12/04/0c3d1cde-d903-11e7-a841-2066faf731ef_story.html

https://www.nytimes.com/2017/12/04/us/politics/roy-moore-donald-trump.html

https://oglobo.globo.com/mundo/trump-da-apoio-republicano-acusado-de-abusar-sexualmente-de-menores-22149812

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Atualizado em 8/12: “vítima” de Roy Moore confessa que falsificou as provas. Que (i)mundo!

http://www.foxnews.com/politics/2017/12/08/roy-moore-accuser-admits-forged-part-yearbook-inscription-attributed-to-alabama-senate-candidate.html

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