Balcão de negócios na política: a sociedade exige ação disruptiva

 

Balcão de negócios na política_a sociedade exige ação disruptivaQuando uma democracia está baseada em ações distorcidas, onde o grupo que domina o poder concentra sua atenção e atos para seu próprio benefício e o de grupos menores e mais poderosos na sociedade, ignorando as necessidades e as aspirações da maioria, cria o ambiente para prosperar a insatisfação da população com a forma de exercer a atividade política e realizar a administração do Estado. Isso constitui terreno fértil para o surgimento de elemento disruptivo, que mesmo com menor quantidade de recursos e estrutura partidária consegue desafiar e suplantar o sistema cristalizado que está sendo repudiado pela maioria do povo.

Os políticos que se beneficiam do sistema distorcido, que já não atende mais às expectativas da maioria da sociedade, tentam, a todo custo, apresentar inovações que, na realidade, têm como objetivo final a manutenção — e não a ruptura — do estado atual. Em grande medida, conseguem enganar a maioria da sociedade e prolongar o sistema desvirtuado por algum tempo.

Entretanto, o desapontamento da sociedade com essas práticas é potencializado pelo efeito cumulativo e culmina com o desejo do povo por mudanças profundas. Nesse estágio, a população espera o surgimento de alternativa que signifique a disrupção, que é o desmonte e a substituição do modelo político e administrativo que a sociedade quer ver expelido, eliminado.

Aquele que conseguir fazer com que a maioria da sociedade o enxergue como alternativa viável para esse fim, seguramente será um elemento perturbador para o establishment, que é a ordem ideológica, econômica, política e legal vigente. Esse elemento perturbador, ao constituir uma alternativa real para a sociedade que quer mudanças intensas é, ao mesmo tempo, uma ameaça aos que se beneficiam do sistema que a sociedade quer ver desmontado, e experimentará o crescimento do apoio dos segmentos que foram negligenciados e, em intensidade maior, a fúria daqueles que o enxergam como ameaça.

Na história da humanidade não é incomum encontrar processo dessa natureza implementado ou reprimido por meio da violência. Em processos históricos assim caracterizados, não está em jogo apenas a mudança do governante que dará continuidade ao establishment, mas sim o desmonte do poder e a reconstrução desse poder sobre outras bases.

Nesse contexto, a eleição de 2018 no Brasil, que efetivamente ocorrerá em ambiente onde o desejo da sociedade por um acontecimento disruptivo é incontrolável, certamente será o maior teste para a democracia assentada na Constituição de 1988. Será também um grande laboratório para a sociedade verificar se a maioria dos eleitores tem ou não condições políticas de identificar adequadamente e eleger um candidato que realmente fará as mudanças almejadas, bem como aqueles que apoiarão tais mudanças. Afinal, é importante que se eleja também representantes para o parlamento que não sejam comprometidos com o sistema que se pretende mudar.

Muitos candidatos já estão se apresentando para a eleição de 2018. A maioria, mesmo prometendo mudanças, está com discurso projetado para dar sustentação ao establishment, propondo mecanismos que mais servem para mascarar o sistema vigente do que para desmontá-lo.

Alguns lançam mão de velhas fórmulas com apelo popular consagrado e ostentam frases como: “bandido bom é bandido morto” e “sou favorável à pena de morte”. Outros apresentam como item principal do currículo o fato de não terem histórico na política, colocando isso como garantia de mudança, o que é cômico.

Porém, o que verdadeiramente tem levado a sociedade à exasperação com o sistema político vigente é o fato de que a democracia não está sendo eficiente para promover o interesse público. Os demais problemas, em regra, são sintomas e não causas.

A sociedade já está convicta de que a democracia desejada não é a que está sendo praticada pelos partidos políticos e pelos administradores eleitos. Para a maioria da população, e essa maioria está correta, a democracia deveria ser o instrumento de promoção daquilo que a sociedade entende como interesse público, como bem comum.

Mas o que é interesse público ou bem comum? Podemos afirmar que interesse público é aquele que a sociedade, por meio do processo de legitimação pela democracia, que ora pode ser de forma direta e ora por meio de seus representantes eleitos, elege como tal. Não temos uma lista de temas de interesse público que seja definitiva, dogmática. Todavia, esse processo de escolha deve ser sempre pautado pela absoluta transparência e instruído com informações baseadas em estudos e relatórios sólidos.

Entretanto, se por um lado não temos como colocar uma lista definitiva de ações que sejam de interesse público, temos, por outro, a possibilidade de identificar métodos utilizados no processo de legitimação pela democracia que são incompatíveis com a adequada escolha do bem comum.

Por exemplo, cooptar votos no parlamento por meio de distribuição de cargos públicos, que serão utilizados por prepostos de políticos com a missão de arrecadar dinheiro para uso em campanha política e crescimento do patrimônio pessoal, mediante ações de corrupção, que sempre prejudicam a sociedade para beneficiar grupos de interesse, nada tem a ver com o interesse público. Isso caracteriza o balcão de negócios que a sociedade não suporta mais ver acontecendo na esfera pública brasileira.

Nesse modelo vigente, a sociedade não mais se vê como integrante da democracia, visto que só é chamada para pagar cada dia mais impostos sem ter como contrapartida o recebimento de bens e de serviços públicos que seriam possíveis com os impostos arrecadados.

A ação disruptiva que a sociedade brasileira espera na política passa, de fato, pelo desmantelamento do balcão de negócios vigente e pela criação de uma forma decente de relação entre os poderes, bem como pela condução eficiente e transparente da administração do Estado.

Decididamente, a sociedade brasileira não está pedindo muito — está buscando o básico em matéria de democracia. Todavia, os grandes partidos políticos vêm atuando no sentido de garantir a continuidade do sistema vigente. Seguramente, não terão sucesso nas próximas eleições.

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