Só o néctar salva

 

Só o néctar salva   De acordo com o site da BBC Brasil, cinco anos após afrouxar as regras para a abertura de novas escolas de medicina, o Ministério da Educação determinou o congelamento de todos os processos de abertura de novos cursos no país por um prazo de cinco anos. O MEC diz que a ideia é preservar a qualidade do ensino.

E agora, onde enfiamos os milhões de médicos formados pelas universidades Cocalzinho do Sul, Bambuzinho do Norte e afins? Não respondam.

Criada em 2013, a lei “Mais Médicos” impulsionou a abertura de novas escolas para tentar diminuir a carência de profissionais em determinadas regiões do Brasil.

Segundo a BBC Brasil, temos hoje 291 cursos de medicina — 30% deles abertos a partir de 2013, graças à nova legislação. Com os cursos recém-abertos, o Brasil saltou de 17.267 novos médicos formados em 2012 para um potencial de formar 29.996 profissionais por ano. O Maranhão, por exemplo, tem pouco mais de um terço da densidade de médicos do resto do país.

Já vi advogados, publicitários, economistas, jornalistas e outros “istas” não exercerem a profissão, mas nunca vi um médico fazer parte dessa lista. Além de estarem todos em plena atividade, chama a atenção o fato de não abrirem mão de duas letrinhas em seus respectivos nomes bordados no bolso dos aventais: “dr”. O detalhe é que 90% nem detentor do título é.

Está claro que o Brasil não precisa de médicos. Temos os nossos (e os cubanos). O problema é a falta de equipamentos, de estrutura, de condições de trabalho e, principalmente, de qualidade profissional.

O número de vagas é inversamente proporcional ao nível dos formados. Ainda de acordo com a BBC Brasil, resultados do último exame realizado pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo mostram que em 2016, 56,4% dos médicos recém-graduados que prestaram a prova da instituição foram reprovados. Entre os alunos de escolas privadas, a reprovação chegou a 66%.

Os participantes erraram questões básicas. Oito em cada dez que fizeram a prova não souberam interpretar um exame de radiografia e erraram a conduta terapêutica de paciente idoso.

O mais revoltante de tudo é que a prova não impede que os reprovados tirem o registro profissional. A utilidade da sabatina, ao que parece, é só mesmo avaliar o grau de incapacidade dos formados.

Conheço inúmeros casos de negligência médica que geraram prejuízos para o resto da vida dos envolvidos. Uma amiga, essa a que sofreu consequências menores, teve um filho prematuro. Outra, deu à luz um menino com paralisia cerebral e hoje vive entre fisioterapeutas, neurologistas e psiquiatras. Sei ainda de um caso envolvendo um médico famosíssimo que confundiu um câncer com uma gripe. Em três meses, a “gripada” estava morta.

Neste final de semana ouvi o caso de uma dona de casa em Goiânia que arrancou o próprio dente. Depois de percorrer oito postos de saúde na região — nenhum deles com atendimento odontológico disponível — tomou a atitude desesperada.

Eu, médica formada pela prestigiada Universidade Caucaia do Bom Despacho, receito aos brasileiros tomarem uma dose única de um novo néctar, croata, o Slobodan Praljak Water.

Porque pior que está, fica.

Foto: Getty Images

Para ler mais de Tatiana Rezende, clique aqui.

Para comprar o livro mais recente de Tatiana Rezende, clique aqui.

Deixe seu comentário