Cérebro pró-social e depressão

 

Cérebro pró-social e depressão    Nosso cérebro, às vezes, nos faz cair em armadilhas contra nós mesmos. Uma descoberta científica importante foi feita sobre a depressão: um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Tamagawa, no Japão, concluiu que pessoas com cérebro mais “pró-social” estão mais propensas a desenvolver a doença. A variável utilizada para chegar a essa conclusão foi a desigualdade social. Os cientistas observaram o comportamento de uma região do cérebro, chamada amígdala.

Estudos anteriores indicaram que existem três tipos de indivíduos, de acordo com o modelo de “orientação do valor social”, que mede as reações a respeito da desigualdade social: 60% são pró-sociais — preferem que os recursos sejam distribuídos igualmente entre as pessoas; 30% são individualistas — estão preocupados em maximizar seus recursos; e 10% são competitivos, querem ter mais do que os outros. A grosso modo, quando os pró-sociais são expostos a situações de desigualdade, sua amígdala cerebral reage: se sentem estressados ou culpados por terem mais do que os outros; a reação é a mesma se eles são vítimas de desigualdade. Já as amígdalas cerebrais dos individualistas são ativadas apenas quando estes são vítimas de desigualdade, não havendo alterações se recebem mais dinheiro do que os outros.

O estudo, publicado recentemente no periódico Nature Human Behavior, testou se há correlação entre os padrões de ativação do cérebro e a depressão. Para tanto, os cérebros de pró-sociais e individualistas foram examinados com modernas técnicas de ressonância magnética. E duas semanas antes, responderam a um questionário comumente usado para diagnosticar depressão. O resultado foi que os indivíduos pró-sociais possuem certas características da personalidade — tais como empatia e propensão a sentimento de culpa — associadas à depressão.

Contudo, este é um estudo ainda preliminar, porque os voluntários foram jovens menores de 26 anos — o córtex pré-frontal do cérebro (região onde está localizada a amígdala cerebral) ainda não está completamente desenvolvido. Um próximo estudo vai avaliar se cérebros adultos têm o mesmo comportamento. Outro detalhe é que tudo foi medido na base de distribuição de quantias de dinheiro, o que me parece um parâmetro fraco, já que a desigualdade social é algo muito, mas muito mais complexo. Ainda temos que considerar que o estudo foi conduzido no Japão e, ao que parece, todos os 343 participantes eram japoneses, o que implica que  culpa e vergonha têm um forte apelo cultural nessa sociedade, além de a desigualdade social ser mínima, comparativamente ao Brasil, claro.

Mesmo com essas ressalvas, podemos fazer uma reflexão, com base no que observamos normalmente em nossa sociedade ultra-desigual. Não sei vocês, mas cada vez mais ouço falar de conhecidos com depressão. Esse estudo é interessante, porque faz uma ligação do indivíduo com a sociedade. E, vamos combinar, hoje em dia todo mundo é mais bem-informado. Além disso, pelo menos aqui no Brasil, a desigualdade social está aumentando e, provavelmente, o sentimento de culpa de muitas pessoas também, já que os pró-sociais são, pelo menos teoricamente, a maioria.

Dureza sentir-se culpado por algo que não fez. A desigualdade social não é culpa dos indivíduos e, provavelmente, o pensamento progressista que tem sido alardeado com a especial contribuição das redes sociais ajuda a disseminar a culpabilidade pela miséria alheia. Aliás, uma das características do pensamento progressista é justamente culpar tudo e todos por qualquer coisinha. Não que não tenhamos que lutar para melhorar a qualidade de vida das pessoas, para diminuir as diferenças sociais — nenhuma pessoa de bem quer ser uma ilha de prosperidade e riqueza cercada de miséria por todos os lados. Contudo, se sentir culpado e, portanto, se deprimir com isso, pode ser uma consequência de manipulação social promovida pelo progressismo esquerdista. É que, mesmo um individualista pode muito bem sentir empatia numa situação de desigualdade, pode sentir tristeza pela miséria alheia, mas o que o estudo deixa claro é que um individualista não sente culpa.

As características da personalidade certamente influenciam no sentimento de culpa, mas se o cérebro pode ser treinado (terapia) para superar a depressão causada pela desigualdade social, também pode ser treinado para a culpa.

https://www.scientificamerican.com/article/nice-brains-finish-last/

O artigo original está com acesso aberto: https://www.nature.com/articles/s41562-017-0207-1

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1 Resultado

  1. isabelapieroni disse:

    Oi Vania, interessante o texto, e muito importante abrir esse debate, realmente é uma tendencia mundial essa da depressão, com certeza muito influenciada pelo nosso modelo de vida e de mercato atual.
    Mas eu gostaria de esclarecer uma coisa. A idea que os “esquerdistas” defendem não é que cada um tem uma culpa individual por usufruir de mais recursos do que as outras, mas sim que cada um tenha consciência de seu privilegio para olhar pro outro com empatia, não cair na falacia da meritocracia, entender as condições desiguais com as quais partimos, etc.
    A culpa não é do individuo mas do sistema. Um sistema capitalista neoliberal que permite que 8 pessoas sejam proprietários da mesma quantidade de dinheiro e bens que a metade mais pobre da população com certeza nunca vai garantir uma distribuição de renda mais igual, não tem essa que se vc trabalhar mais vc vai vencer, é um fato que cada vez menos pessoas tem mais dinheiro e cada vez mais pessoas tem menos dinheiro. é a estrutura que precisa mudar. As bases do sistema.
    Nao sofremos pq os esquerdistas pregam que a culpa é de quem é rico, mas sofremos por substituir a nossa dependência do vinculo social pela dependência do mercado, que dominou todas as esferas da vita humana e que garante essa desigualdade em que vivemos.
    Ainda nao tenho a resposta de qual seria o sistema ideal que nao capitalista/neoliberal, mas com certeza esse nao esta funcionando, e o debate e a mudança com certeza precisam partir desse pressuposto.
    Um abraço, Isabela.

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