Dona Maria

 

Dona Maria  A primeira casa em que morei no Rio de Janeiro ficava em uma ladeira de Copacabana que dava acesso a uma favela. Hoje a palavra favela está quase proibida, mas naquele tempo ninguém se preocupava com isso. O termo moderno é comunidade, do qual desvirtuaram o sentido original, pois todos nós pertencemos a várias comunidades. Enfim…

A casa era grande, com quintal maior ainda. Como o terreno era inclinado, nos fundos existia um pedaço de morro que subíamos e descíamos escorregando. A imaginação infantil corria solta: chamávamos de preciosas as pedrinhas brancas que encontrávamos, e quanto mais claras, maior era a nossa fortuna de mentirinha. Tínhamos mangueiras, carregadas de frutos em dezembro, galinheiro, pombal, cachorro, até um cabrito. Os filhos dos amigos que moravam em apartamento iam brincar conosco, se sujar na terra, correr atrás das aves.

Nós éramos três irmãos e minha mãe, imigrante, sem conhecer praticamente ninguém na cidade, nem os costumes locais, sentiu que não daria conta do recado e tratou de procurar ajuda. Resolveu se informar com as mulheres que diariamente via passando pela ladeira com trouxas de roupa à cabeça. Do portão, observava com curiosidade esse movimento, e começou a fixar o rosto de algumas. Decidiu falar com uma, já um pouco idosa, que lhe pareceu simpática, e fez um inquérito completo. Outra pessoa talvez tivesse receio de abordar, assim ao acaso, uma moradora da favela, mas minha mãe, vinda de uma aldeia pequena e segura de Portugal, nem pensou nisso. De qualquer forma, naquela época não existia o medo generalizado que hoje sentimos dos desconhecidos.

A senhora se chamava Maria, nome ao mesmo tempo simples e pomposo, e explicou que era lavadeira: recolhia a roupa suja, lavava em sua própria casa, e a devolvia passada e dobrada à cliente. Mamãe perguntou o preço de seus serviços, e D. Maria logo percebeu que ela não poderia pagar muito. Disse-lhe quanto cobrava por cada peça lavada e passada, mas fez um descontinho, de forma que minha mãe pudesse entregar-lhe pelo menos as roupas mais pesadas, como as de cama e mesa. Começou assim uma amizade de anos, até à morte da lavadeira, o que ocorreu bem depois de sairmos da casa de Copacabana.

Maria era uma mineira cheia de disposição, viúva, vários filhos quase adultos. Veio para o Rio de Janeiro buscando uma vida melhor, mas até então não conseguira sair da favela. Isso só aconteceu quando ela ficou velhinha e os filhos, com profissões mais rentáveis, foram progredindo financeiramente.

Existia muita gente em Minas Gerais querendo se mudar para o Rio, e, de vez em quando, D. Maria hospedava um parente que decidia tentar a sorte por aqui. Certa ocasião, ela perguntou se minha mãe estaria interessada em empregar uma sobrinha, menina de dezesseis ou dezessete anos, que andava louca para vir para a cidade grande. A tia tinha medo de que a garota do interior, naquela idade em que os hormônios escravizam o bom senso, terminasse nas mãos de algum espertalhão que a abandonasse. Como estava difícil controlar a sobrinha, e mamãe era uma mulher determinada, D. Maria confessou-lhe que só aceitaria a vinda da jovem se pudesse colocá-la em um local em que fosse vigiada, e vislumbrava na nossa casa o ambiente ideal para isso.

Minha mãe, que pensava como todas as mães da época em relação às tais questões de moralidade, compreendeu a preocupação da outra e assustou-se um pouco. Por outro lado, uma ajuda permanente no serviço doméstico seria muito bem-vinda, e sairia barata, porque a moça não tinha qualificação alguma. Assim, pesando os prós e os contras, foi contratada a primeira empregada da nossa casa. Em alguns aspectos, significou quase uma filha a mais, até catapora apanhou junto conosco.

A garota, xucra, sem noção alguma da maldade do mundo, chegou cheia de ilusões e esperanças. Ajudou bastante em casa, porém deu muito trabalho à minha mãe. Arranjava namorados que não prestavam para nada, e foi um custo controlá-la até que aparecesse um candidato que valesse a pena. Anos depois, confessaria os planos frustrados de fugir com cada um deles.

Quando o futuro marido lhe propôs namoro, ela relutou, porque ele não possuía a aura de príncipe encantado como os outros  que a envolviam. Aconselhada pela tia e pela minha mãe, que a tinham na rédea curta, e talvez para demonstrar-lhes que estavam erradas, consentiu em dar uma chance ao rapaz.

Acabou se casando com ele, foi muito feliz, e, na idade madura, nunca se cansou de agradecer às mãos de ferro que a colocaram no rumo certo. Teve quatro filhos, todos bem encaminhados, e, graças ao bom casamento, subiu socialmente muito além do que se poderia prever. Até a morte de minha mãe mantiveram contato, telefonando-se e visitando-se de vez em quando.

Minha mãe confiava tanto na D. Maria que de vez em quando me deixava subir o morro em sua companhia. Uma experiência boa, exceto pela vez em que resolvi acariciar um cachorro sem dono que vagava pelas vielas da favela. Claro que o animal me mordeu, e foi um problema. Ficou-me uma pequena cicatriz no pulso como recordação, uma lembrança que guardo ao lado da experiência de frequentar a favela, saindo da bolha que normalmente habito.

Valeu, D. Maria!

Foto: Artur Pastor

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