A anarquia da monarquia

 

A anarquia da monarquia  A família real britânica atravessa um momento interessante. No esforço para não perder súditos, conquistar simpatia mundial e fazer a roda da fortuna girar, aceitou o casamento de Harry com uma atriz norte-americana divorciada e de ascendência africana.

Até numa época bem recente, o panorama era outro. O pai de Harry, por exemplo, precisou de uma autorização especial para se casar com Camilla Parker-Bowles. Apesar de conceder o pedido, a rainha nem foi à cerimônia.

Em “The Crown”, vemos a proibição do casamento da princesa Margaret, irmã da rainha Elizabeth, com um capitão divorciado.

Chega em boa hora esse “Victoria e Abdul — O Confidente da Rainha”, que trata de um assunto que a realeza manteve encaixotado por décadas: a relação de 13 anos de amizade entre a rainha Victoria e Abdul Karim, seu jovem assessor e munshi (professor) indiano.

Apesar de a convivência entre os dois ter ocorrido na virada do século 19 para o 20, a história só veio a público em 2010, quando a jornalista indiana Shrabani Basu publicou o livro que serviu de inspiração para o diretor Stephen Frears (“Ligações Perigosas” e “A Rainha”).

A primeira vez que a jornalista ouviu o nome de Abdul Karim foi no fim dos anos 1990, durante sua pesquisa para uma obra sobre a história do curry. Alguns anos depois, numa viagem de férias, esteve na Casa Osborne, residência de veraneio da rainha, na ilha de Wight. Durante a visita, porém, um retrato de Abdul em tons de ouro, vermelho e creme segurando um livro chamou a atenção. “Ele parecia mais um nobre do que um empregado. Isso despertou minha curiosidade”, disse Shrabani em entrevista à revista Time. Depois, no closet da rainha, mais fotos. Uma de seu ex-confidente, John Brown, e abaixo, mais uma de Abdul. “Ele era obviamente alguém especial para ela”.

Depois disso, Shrabani passou anos e anos pesquisando em três palácios (Balmoral, Casa Osborne e Castelo de Windsor) e três países (Índia, Paquistão e Grã-Bretanha). Leu os diários da rainha e seus cadernos de urdu, os diários do médico da rainha, e documentos de outros membros da Casa Real. Segundo ela, o filme é 90% fiel aos acontecimentos relatados em seu livro.

O longa fala de questões como racismo, xenofobia e luta pelo poder, além de ter um ótimo tom de comédia e o trabalho magistral (e oscarizável) de Judi Dench — que está em sua segunda rainha Victoria. A outra foi em “Sua Majestade, Mrs. Brown”, de 1997.

Na segunda parte, no entanto, o filme se perde nas picuinhas palacianas em vez de se concentrar no que realmente é interessante: a convivência entre duas pessoas tão distintas. Além das aulas de urdu que Abdul dava à rainha, ela gostava de ouvir curiosidades sobre sua então colônia, a Índia. Foi assim que ela descobriu o que era manga.

Cotação: 

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