Lembranças de Natal

 

Lembranças de Natal   Quando a gente é criança, tudo é mágico. Porque as crianças têm uma visão que não é baseada em preconceitos e cinismos. Para mim, o Natal — assim como a Páscoa — era uma data especial. Mesmo sabendo que Papai Noel não era real, eu gostava de fingir que acreditava, pois aquilo deixava a existência mais leve e colorida.

Quem foi criança na minha época, com certeza lembra-se da boneca Susi, uma antiga versão da moderna Barbie, só que com mais cara de ser humano normal, mais cheinha do que esta última, que tem a aparência de uma maneca de passarela.

Um dia, inventaram um namorado para ela, o Beto. Lembro-me de quando eu vi o comercial na TV pela primeira vez, onde uma menininha cantava uma música estúpida, mas que na época, era o máximo para mim: “Beto é da Susi, Susi é do Beto, tralálálá…” Imediatamente, decidi: eu queria o Beto!

Escrevi cartinhas para meu pai e minhas irmãs mais velhas. Quando eu queria alguma coisa, eu literalmente sonhava com aquilo como se já existisse. Acordava de manhã pensando, e ia dormir pensando no que eu queria. Conversei com a Susi, e prometi-lhe um companheiro adequado; afinal, o Juca (um boneco grandalhão que eu tinha) era alto demais para ela!

A “Susi” escreveu cartas de amor para o Beto, e o Beto respondeu a todas elas. Trocaram declarações de amor apaixonadas, ansiosos pelo encontro que os uniria para sempre. Fiz uma casinha de boneca em uma caixa de papelão, onde os dois morariam para sempre e teriam seus filhos, quem sabe… O casalzinho apaixonado conversava muito por “telefone” (naquela época não existia internet, muito menos computadores nas casas). Enfim, preparei com carinho a chegada do novo membro do meu clube de bonecas.

Conforme o Natal ia se aproximando, mais ansiosa eu ficava, e quase tremia de expectativa.

Uma semana antes do Natal, minha mãe e minha irmã mais velha foram às compras. Voltaram cheias de caixas de presentes, que colocaram, como sempre faziam, sobre o armário mais alto do quarto. Impossível, para mim, alcançá-las… Ficava olhando para as caixas, tentando imaginar em qual delas estaria o Beto.

Finalmente, o Natal chegou. Hora de abrir os presentes. Ganhei roupas, um jogo de panelinhas e outras coisas, mas o Beto não veio.

Acho que foi uma das maiores decepções de minha infância. Não sei por que cargas d’água tinham se esquecido do meu Beto.

Susi ficou arrasada! Todos os sonhos de amor destruídos, as noites de sonhos transformando-se em pesadelos. Ela mal pôde lidar com aquela tremenda decepção amorosa, e caiu em depressão profunda por, pelo menos, três dias. Mas logo, vendo que de nada adiantariam suas lágrimas — o Beto estava perdido para sempre, e nunca mais lhe escrevera cartas de amor apaixonadas — ela acabou se conformando, e aos poucos, foi conseguindo reconquistar o amor do Juca.

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1 Resultado

  1. Ana, que delícia de crônica! Bjs 🙂

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