Nosso mundo em frangalhos

 

Picasso Dora Maar

“Mulher estirada no sofá”, retrato de Dora Maar, óleo sobre tela de Pablo Picasso (1939).

Estou tentando, mas não estou conseguindo me conformar com a nota de Vânia Gomes desta manhã, não por causa da Vânia, que é ótima, mas por causa da informação que ela contém e que eu até agora ignorava.

Por que e para que precisaria o (ex-ex)senador Aécio Neves de dois celulares em nomes de desconhecidos? Foi o que me peguei me perguntando na cozinha, falando em voz alta, sozinha, passando o café indagorinha (são 8 da manhã no primeiro mundo e fui acordada de um sonho gostoso para fazer um trabalho que ainda não rolou).

Um celular, como todo mundo sabe, não é como uma “firma-fantasma”, presidida por um laranja, para efetuar negócios escusos na encolha. Qualquer criminoso que se preze pode comprar um pré-pago por uns trocados, dar o tal telefonema culposo e em seguida atirá-lo no rio ou quebrá-lo em pedaços, como cansamos de ver no cinema. Então, para quê?

É o tipo da notícia que coloca em dúvida crimes maiores, mais polpudos e até mais plausíveis. Um detalhe como esse pode derrubar todo um edifício de acusações, como uma peça de dominó que, se retirada na hora errada, derruba um trabalho de horas, ou dias.

Não tenho motivos para defender o (ex-ex)senador Aécio Neves, a não ser pela memória de infância que me liga ao avô dele. Talvez por isso tenha votado no mineiro para presidente da República em 2014, poucos dias antes de deixar para sempre o Brasil, mas, em todo o caso, tenho dificuldades de acreditar que uma pessoa tão bem criada (imagino), vinda de família tão respeitável, seja capaz de cometer tais desatinos, que ainda hesito em chamar de crimes. Sou teimosa. Fazer o quê.

Vai ver, ao contrário do que fomos ensinados, família não vale nada, e a educação desde o berço vale menos ainda. Muito mais importância tem o que aprendemos nas redes sociais e lemos online nos jornais, não é mesmo? Talvez por isso o Senado brasileiro esteja analisando uma proposta para “mudar o conceito de família”, hoje uma ideia arcaica de “união estável entre o homem e a mulher”, para a mais moderna “união estável entre duas pessoas”, brilhante sacada da sexista, ops, sexóloga Marta Suplicy, um projeto idealista que tem mais buracos do que queijo suíço legítimo.

Fala sério, estou cansada de me justificar dizendo que nada tenho contra as opções sexuais de pessoas alguma, mas na intimidade do meu banheiro, debaixo do chuveiro, durante minhas reuniões em português comigo mesma (falando sozinha na cozinha costumo fazê-lo em inglês, porque o Alan pode escutar) continuo acreditando na família de outrora, na criança criada por um pai e uma mãe, como unidade celular de uma sociedade saudável. Pronto. Falei. Se quiserem me rotular como “homofóbica”, paciência.

Taí a beleza do romance de princesa ora vivido pela “americana de raça mista”, ou seja, mulata mesmo, e o prazer que nos dá escutar o príncipe Harry dizer que sim, os dois pretendem constituir uma família à moda antiga.  A mulata, por sinal, foi durante gerações considerada um ícone de beleza para a mulher brasileira, numa terra onde boa parte da população “tem um pé na senzala” (calma, gente, só estou usando esses termos de antigamente para me divertir, e mostrar o absurdo do controle da linguagem a que somos submetidos hoje em dia, e que, além de chatear quem fala, não muda absolutamente nada na intimidade mental de ninguém). Chamar alguém de mulata não era ofensa, mas elogio, e um número indefinido de sambas antigos confirma essa noção. E que mulata bonita é essa nova duquesa! Se quiserem me rotular como “racista”, paciência.

Por sinal, ultimamente, chamar a atenção de qualquer mulher por seu apelo sensual tornou-se crime capital. Hoje mesmo mais um “ícone” do jornalismo americano foi derrubado de seu pedestal, o âncora do programa “Today” na NBC, no ar há mais de duas décadas. Matt Lauer, de quem eu nunca tinha ouvido falar, foi se juntar à galera dos destituídos, já engordada na semana passada pelo também jornalista Charlie Rose e mais uns dois ou três congressistas acusados de assédio sexual.

Alan, que faz parte dessa geração que gosto de chamar de “baby bummers” [em tradução literal, “desapontadores de bebês”, um trocadilho com o clássico “baby boomers”, rebentos do surto de bebês nascidos logo depois da Segunda Guerra, e, por Deus, como temos desapontado os nossos bebês!], disse que para a maioria dos homens envolvidos se tratava apenas de um comportamento masculino normal, que agora se tornou execrável de uma hora para outra. Mas ele mesmo se apressa a acrescentar: “Para Hitler, matar judeus também era normal”.

Ele está exagerando. E eu tampouco considero que seja certo um homem usar de violência ou se aproveitar de sua posição de poder para se satisfazer sexualmente com uma mulher, mas consigo entender que era sim, uma coisa considerada normal até há pouco mais de um mês — vamos admitir, tanto para homens como para mulheres. Tanto que fomos ensinadas desde meninas, no seio daquela família hoje também tão desacreditada e desmoralizada, que não devíamos dar confiança a paquera nem falar com estranhos, e que era preciso “nos comportar direito” para manter nossa “reputação”. Mas não tenho a menor dificuldade de entender que se trata do resultado nem tão inesperado de uma muito apreciada e propagada revolução do “amor livre”, durante a qual nós, mulheres, decidimos de comum acordo jogar para o alto todos esses cuidados “caretas” e fazer sexo quando, como e com quem bem entendêssemos e com que fim fosse. Junte-se a isso o fato de a nossa ser a primeira geração da história que colocou a mulher no mercado de trabalho em (quase) igualdade de condições, e, como consequência, de certa forma “impusemos” nossos apetitosos seios e bundas ao alcance das mãos dos colegas de trabalho, antes acostumados e conviver apenas com aqueles de seu próprio gênero.

Uma mudança e tanto, vamos combinar. Se quiserem me rotular como “machista”, paciência.

Duas coisas me incomodam demais da conta em toda essa “sede de denúncias de assédio”. Uma é que a definição de assédio é por demais ampla, podendo, conforme o caso, incluir até uma piscada de olho marota ou um elogio bem-intencionado a uma “colega gostosa”, para nem mencionar que boa parte das acusações data de 20, 30 anos atrás, quando a situação era ainda menos familiar e mais inusitada — a presença da mulher no ambiente de trabalho, digo. A outra é que, de modo geral, estamos jogando fora o bebê junto com a água do banho, isto é, demitindo sumariamente e liquidando com a vida de homens que, apesar de seu suposto comportamento criminoso, têm várias qualidades que nos farão falta.

Imaginem, por exemplo, se Pablo Picasso ainda estivesse vivo! Com toda a proverbial maldade com que tratava suas modelos e amantes, me pergunto, será que deveríamos jogar fora toda a obra do artista mais famoso da história moderna? Deveria o preço de suas obras cair a zero, e usarmos suas telas como papel higiênico?

Não estou aqui para defender pessoas sem nenhum caráter, seja Aécio Neves, Charlie Rose ou Pablo Picasso. Mas deveríamos ter o bom senso de entender que revoluções não se fazem da noite para o dia, embora seja habitual ao longo da História sair cortando cabeças para nos livrarmos dos desafetos de uma hora para outra, algo que também ocorreu durante a Revolução Francesa, que, por sinal, apesar de toda a sua truculência, nos legou a moderna noção de “Libertéégalitéfraternité” que estamos hoje em dia levando às últimas consequências.

Para nós, na faixa dos 60, é mais um mundo que vemos desmoronar à nossa volta, uma sociedade em ritmo de mudança tão vertiginoso, imediatista e irrefletido que pode, por vezes, ser difícil de compreender e aceitar. E que em pelo menos alguns aspectos está deixando saudades de um tempo em que se pensava, se analisava e se apelava mais para a razão do que para a emoção do momento, tão descartável quanto um celular pré-pago.

Imagem Arquivo Google

http://blogs.oglobo.globo.com/lauro-jardim/post/senado-vota-projeto-que-muda-entendimento-de-familia.html

http://money.cnn.com/2017/11/29/media/matt-lauer/index.html

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