Mais um pastel, por favor!

 

Mais um pastel, por favor   Não gosto que falem mal do Rio. Será que a cidade concentra tudo o que é ruim e o resto do Brasil é o paraíso? Estou ciente dos problemas, reclamo, e sou como aquele filho que fala mal da mãe. Ele pode se queixar, mas ai de quem comentar alguma coisa contra ela. Ele a defende com unhas e dentes.

Quando falei que ia passar umas semanas no Rio, ouvi tudo o que não queria: você vai se decepcionar, a vida mudou, a alegria se foi, as pessoas estão deprimidas. Toma cuidado, não sai à noite. Anda com pouco dinheiro e leva sempre uma segunda carteira para o bandido. Não reage se alguém a assaltar, melhor entregar tudo e continuar viva. Usa roupa surrada e tênis ferrado para não chamar atenção. Presta atenção ao atravessar a rua, os motoristas não respeitam os pedestres.

Minha imaginação fértil se alterna entre a tragédia anunciada e o real maravilhoso das propagandas de turismo. Como uma viagem à cidade onde nasci pode ser tão assustadora após um ano de ausência?

Da janela do avião, vejo o sol nascer sobre a baía da Guanabara e sinto uma leveza inexplicável, como se meu umbigo ainda estivesse atado àquele chão. Ao sair do aeroporto, tentando esquecer os conselhos nefastos, pego um táxi, atravesso a famigerada Linha Vermelha sem incidentes, o túnel Rebouças sem engarrafamento, descanso meu olhar na água espelhada da Lagoa Rodrigo de Freitas e chego ao Leblon, onde vivi a maior parte da minha vida.

A igreja, a praça com a estação do metrô, o jornaleiro, a drogaria, o botequim, a lavanderia da esquina, as orquídeas abraçando as árvores. Para quem mora longe, os sentidos ficam mais aguçados e o que é familiar ganha uma aura de encantamento. Andar pelas ruas escutando o próprio idioma é música para os ouvidos. E como saudade se mata com o coração e o estômago, caminho pela Ataulfo para tomar o café da manhã no Talho Capixaba e não abro mão do almoço no restaurante da esquina.

O porteiro, meu conhecido de longa data, abre a porta de madeira escura. Os garçons também são os mesmos, as mesas simples com toalhas brancas, guardanapos de papel, uma lata de azeite e um potinho de molho de pimenta. Sento numa mesa de canto e olho à minha volta. Algo mudou. Antes, o ambiente era esfumaçado, com cheiro de cigarro, muita animação, a turma do Flamengo discutindo em voz alta. Levava-se horas para conseguir uma mesa vazia. Agora reinam o ar limpo e o silêncio quebrado pela conversa discreta de quatro senhores ao fundo.

Converso com o maître, que no passado me avisava quando serviam rã à milanesa — sim, é um dos meus pratos preferidos — e escargots banhados em manteiga com alho, outro preferido.

— Isso não existe mais — me diz ele, trazendo uma Devassa gelada, pastéis de camarão e bolinhos de bacalhau. Com a crise, o cardápio teve que se adaptar ao bolso do consumidor.

Pouco a pouco, algumas mesas são ocupadas com a chegada do pessoal da terceira idade. Um chega de bengala, outro de andador, outro se apoia no braço do garçom para se sentar. Com a proximidade das mesas, de vez em quando puxam conversa com quem está do lado, trocam experiências sobre remédios, receitas caseiras para baixar o colesterol, combater insônia e disfunção erétil. Falam alto e pausado, talvez pela deficiência de audição que chega com a velhice.

Peço outra porção de pastéis e, em tom de intimidade, pergunto ao maître quem são aqueles senhores solitários. Ele me responde com a diplomacia aprendida ao longo de anos que eles vêm almoçar no intervalo do trabalho.

— Trabalho? — não escondo meu espanto. Afinal há 1,5 milhão de desempregados no Rio, milhares de funcionários públicos sem receber seus salários, os jovens estão querendo sair do país por falta de opção, e aqueles idosos estão todos no mercado de trabalho quando têm dificuldade até de se locomover? Ele se cala, com a discrição habitual e me serve um filé mignon com molho madeira e arroz à piemontesa.

Enquanto almoço, vejo que os senhores têm a roupa meio amarfanhada, o cabelo maltratado, o olhar triste. Chego à conclusão de que faltam mulheres na vida deles. Já sei que tem gente que vai dizer que sou machista, que estou protegendo os homens porque quando os vejo solitários sinto compaixão. A realidade é que, geralmente — tudo tem exceção —, as mulheres sozinhas são mais bem resolvidas, se cuidam, viajam, aproveitam a vida.

Saio dali com vontade de caminhar pelo calçadão, ouvir o barulho das ondas nas pedras. Então me lembro do conselho amigo: cuidado, você não vai querer correr fugindo dos arrastões.

Desisto e volto pra casa cantando baixinho os versos da Rita Lee, “minha alma penada, amassada, plissada, godê”… O Rio está me deixando deprê, mas que ninguém fale mal dele, porque continua lindo.

De souvenir, levo na mala a receita secreta do pastel crocante, de sabor inesquecível.

Receita da massa de pastel:

2 xícaras de farinha de trigo

1 gema

1 colher de sopa de óleo

1 colher de sopa de manteiga derretida

2 colheres de sopa de cachaça

1 colher de café de fermento em pó

1 colher de chá de sal dissolvido em 1 copo de água morna

Peneirar a farinha com o fermento. Abrir uma cova no meio e colocar a gema, a manteiga, o óleo e a aguardente. Amassar e juntar aos poucos a água morna com sal. Normalmente, não é preciso usar a água toda. Sovar bem e deixar repousar durante uma hora. Abrir a massa bem fininha com rolo e cortar em quadrados. Colocar o recheio a gosto e umedecer as bordas com água para os pastéis ficarem bem fechados, pressionando com um garfo. Fritar em óleo bem quente.

Foto: acervo da autora

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5 Resultados

  1. Ana Bailune disse:

    Do jeito que a coisa está, melhor é comer o pastel em casa…

  2. Sonia disse:

    Adorei e acho que concordo com você, não falem mal do meu Rio de Janeiro😘😘😘😘👍👍

  3. Irene Paternot disse:

    É isso aí, amiga, o Rio é nosso, ninguém tasca eu vi primeiro! Amei!

  4. Myrthes Lima disse:

    Li com prazer, porque além de estar muito bem escrita, vem de encontro ao que penso e sinto sobre o Rio.

  5. Carmen Reis disse:

    Muito legal, Clarisse! Partilho muitas dessas emoções cada vez que volto a Laranjeiras, onde vivi metade da minha vida. Infelizmente meus amigos cariocas que ainda vivem por lá tem sentido o problema da crise que assola o Brasil de maneira bastante profunda.

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