As voltas que o mundo dá: Arábia Saudita apoia Israel, quem diria

 

Mohammed bin Salman, Donald Trump e Jared Kushner

Mohammed bin Salman, Donald Trump e Jared Kushner há duas semanas, quando Kushner anunciou sua viagem à Arábia Saudita.

Rumores neste sentido já vinham circulando faz tempo, e tenho a impressão de que o primeiro passo para essa ideia completamente “fora da caixa” saiu da cabeça de Netanyahu, mas é inegável que Donald Trump também mexeu (está mexendo) os seus pauzinhos:  et voilà, o supreendente apoio da Arábia Saudita a Israel. Quem diria!

Pois a edição de hoje do Times of London traz a seguinte manchete, dá uma olhada: “Príncipe saudita ordena aos palestinos que aceitem o plano de paz de Jared Kushner”.

Uia! Kushner, para quem não sabe, é o marido de Ivanka, genro de Trump e seu assessor especial para o Oriente Médio, a quem a mídia regressiva vem tentando difamar de todas as formas, desde chamá-lo de idiota a qualificá-lo como corrupto. E o primeiro-genro está de viagem marcada para a Arábia Saudita, onde deverá apresentar o plano no qual vem trabalhando.

O novo príncipe coroado, como vocês já devem ter ouvido falar, fez um baita expurgo anticorrupção em sua própria corte na semana passada, exonerando mais de 200 dignitários, com o apoio explícito de Donald Trump. E não é só isso: jovem, dinâmico e com uma mente mais aberta, ao que parece, o príncipe vem prometendo afrouxar os garrotes do islamismo radical, e um dos sinais “positivos” é que, a partir do ano que vem, as mulheres vão poder dirigir na Arábia Saudita.

Francamente, essa ideia de mulheres precisarem de permissão governamental para dirigir no século 21 é quase tão exdrúxula quanto ver uma cabeça coroada por uma kefiah apoiar Israel. Mas é o que está acontecendo. Fontes israelenses informam que bin Salman teria dito a Abbas para apoiar o plano ou, simplesmente, renunciar, o que não é de todo sem precedentes, já que bin Salman forçou a renúncia do primeiro-ministro do Líbano na semana passada, ou melhor, “orquestrou”, citando o Times, de olho na “moralização” do Hamas e do Hezbollah.

Claro que há uma explicação lógica para tudo isso, que é a velha tática de “união contra um inimigo comum”, no caso o Irã. Mas isso pouco importa. O que importa, de verdade, é que a Arábia Saudita é uma espécie de “aliado dos sonhos” de Israel, melhor até que os Estados Unidos, devido ao seu imenso poder diretamente investido na região: o dinheiro. E tampouco interessa o conteúdo do plano de paz de Kushner, que poderá ou não incluir a ideia de “dois estados”, isto é, palestinos e israelenses vivendo em paz lado a lado. Uia! Com dois estados ou um, lado a lado ou do mesmo lado, o que importa, de verdade, é que haja um tratado de paz e que ele seja respeitado — algo que, devo admitir, eu não esperava presenciar durante o que me resta de vida.

Seria mais um golaço de Trump. E uma bola fora para seus inimigos, uma vingança comida ainda quente para quem, como publicou na edição de hoje o Washington Post, considera Trump um “palhaço” e analisou sua viagem à Ásia como “um completo desastre”.

Quem tem desastres como esses não precisa de sucessos. Vá em frente, presidente.

Em tempo, para quem não acompanhou ao vivo, a viagem de Trump à Ásia foi na verdade um sucesso. Diferente do que acontece por aqui, o presidente foi tratado com todo o respeito por seus colegas de outros países e esbanjou simpatia. Faço apenas uma ressalva obrigatória para a interação amigável com Rodrigo Duterte, o intrigante presidente das Filipinas, mas vai saber que caroço tem por trás desse angu em termos de diplomacia internacional, não é mesmo?

Foto Jonathan Ernst/ Reuters

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https://www.thetimes.co.uk/edition/world/saudi-prince-orders-palestinian-president-to-accept-jared-kushners-peace-plan-xjdts8338

https://www.washingtonpost.com/opinions/the-clown-goes-abroad/2017/11/13/854b7186-c8b7-11e7-8321-481fd63f174d_story.html

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