Conta outra

 

Conta outra    Todo ano a saga se repete. Às vésperas do Enem, nós quem somos colocados à prova. Temos que aguentar as mesmíssimas pautas. Além dos alunos que chegam correndo, atrasados, e assistem ao portão fechar rente aos seus narizes, há inúmeras matérias sobre as aulas de cursinho.

Professores que se vestem de Harry Potter, Gretchen, Gandalf, de “O Senhor dos Anéis”, que inventam paródias para fórmulas matemáticas ou físicas a partir de músicas populares ou que transformam a aula em palco para stand up. Assim caminha o circo.

Todo ano fico procurando o ineditismo nessa abordagem. Se o jornal exibisse uma matéria de três anos atrás, ninguém notaria a diferença — e assim é no Natal (com a clássica reportagem sobre a troca de presentes no day after) ou em qualquer data comemorativa. Desfiles de Carnaval então… Podem transmitir o de 1999 que estarão lá as mesmas baianas rodando as mesmas saias.

Mais importante do que aconselhar, pela enésima vez, como o aluno deve se alimentar ou dormir antes da prova, seria oportuno aproveitar o momento para falar que a educação no Brasil está na idade da pedra lascada. Um assunto gravíssimo que deveria ser abordado diariamente.

Vez ou outra, jornais publicam cadernos especiais com o título “Educação no Brasil” em letras garrafais dando a entender que estão nos entregando um dossiê quando, na verdade, trata-se apenas de um meio para vender anúncios para cursos preparatórios para concursos e faculdades que dão diplomas por consórcio.

Na semana passada, me deparei com um número chocante: 90% dos jovens brasileiros concluem o Ensino Médio sem saber matemática. E é aí que entro rodando a minha saia.

Nunca tive um bom professor de matemática. No ensino fundamental, era uma média de uma tia por ano. A alta rotatividade de “mestres” aliada à minha total falta de talento para a matéria me rendeu muitos problemas. Não sei fazer contas de juros, resolver uma derivada, calcular o volume de um cubo e nem traçar um triângulo retângulo. Milagre de Roque Santeiro eu estar aqui hoje.

O caso com a Física é ainda mais grave. Nunca entendi absolutamente nada. Se eu lembrar das palavras “polia”, “roldana” e “velocidade média” após às 6h da tarde é provável que eu não durma à noite.

No cursinho, as musiquinhas não sanaram o problema. Até hoje questiono a eficácia dos professores-showmen. Aulas-show com banquinho, violão, perucas e microfones servem mais para descontrair do que para ensinar algo. Em matemática e física, eu conhecia todas as notas, mas não sabia ler a partitura e muito menos tocar o instrumento.

Por isso, compreendo perfeitamente a informação do Unicef sobre evasão escolar. Segundo dados deste ano, mais da metade da evasão escolar no Brasil acontece no Ensino Médio. Mais de 1,5 milhão de alunos deixam os estudos.

Tremi diversas vezes diante da hipotenusa. Pra quê? Ela e seus catetos não somaram nada à minha vida. Estou convencida de que alunos que não têm o dom para uma determinada matéria não deveriam ser forçados a estudá-la. A matemática, a física ou a química não expandiram meu conhecimento. Pelo contrário, só me trouxeram traumas.

O problema da educação no Brasil passa não só pela falta (e despreparo de) professores. A metodologia e a base nacional curricular do MEC são do Paleolítico e precisam ser revistas urgentemente. O recado dos estudantes já foi dado. O abandono escolar continuará crescendo.

Não sei como implementar tantas mudanças num país tão desigual. Se tivesse a fórmula estaria nesta segunda-feira tomando chá nos Alpes Suíços. De meia.

Imagem: Sofya Levina

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2 Resultados

  1. Ana Bailune disse:

    Matemática também sempre foi a pedra no meu sapato, e também não sei como cheguei aqui… acho que o professores concluíram que seria melhor se livrarem de mim. Também acho injusta e inútil essa idéia de que professor tem que plantar bananeira para agradar alunos. Eles é que precisam estudar e ser mais responsáveis.

  2. Joubert disse:

    Também me incluo dentre aqueles em que as Exatas me trouxeram mais noites sem dormir do que conhecimento. Daí finalmente ser uma boa ideia que germina nas escolas enfocar nas matérias em que os alunos possuem mais afinidade. Vamos ver se desta fez pega

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