Uma vida de faz de conta

 

Melania Trump no Japão

Melania Trump no Japão com vestido de inspiração oriental criado por Gucci.

Não sei, mas alguma coisa mudou na minha cabeça quando comecei a trabalhar para uma grande empresa como tradutora freelance e, devido ao alto volume de trabalho, precisei praticamente deixar de lado minhas outras atividades, com poucas exceções, como por exemplo, as amadas crônicas de domingo. Com isso, sonhos antigos como a “fama de escritora” foram desviados para o arquivo morto — pelo andar da carruagem, ao que parece, em caráter definitivo. Como efeito colateral, também diminuiu um bocado o meu acesso às redes sociais, nas quais, apesar de continuar curtindo os meus numerosos amigos, já não preciso mais “matar um leão por dia” para conquistar novos leitores e convencê-los de que sou o máximo.

É uma espécie de libertação. Depois de uma vida inteira batalhando um lugar na ribalta — que, preciso confessar, sempre julguei mais do que merecido — estou reduzida à “rotina do homem comum”, qual seja, levantar cedo, trabalhar o dia inteiro feito uma mula e receber um salário no final do mês — nas palavras de James Joyce, “o ganhapão e sua paga”.

Pois é. Nas poucas horas vagas, isso me levou a reflexões mais profundas sobre o porquê de cedermos às muitas imposições do ideário liberal e “politicamente correto” que está cada vez mais radical, e mais destrambelhado também. Em troca de quê? Temos medo de quê?

Em impressionante artigo no Times of London deste sábado, a excelente Janice Turner, espécie de defensora da moral e dos bons costumes numa Inglaterra que vem fazendo o possível e o impossível para se posicionar como líder da enlouquecida “revolução trans” a nível de imposição de governo, nas escolas, nas instituições e em outros pilares  da sociedade, conta o caso de um cantor trans que fez um escândalo no Twitter quando lhe recusaram acesso às cabines de prova femininas numa famosa loja de departamentos, Topshop, que reagiu quase imediatamente liberando o acesso de qualquer pessoa “a qualquer cabine de sua preferência no interior das lojas”, sem nem levar em conta o óbvio incômodo das meninas semidespidas em suas visitas à loja e às cabines separadas umas das outras por uma leve cortina. E isso, pasmem, ao mesmo tempo que vêm sendo desmascaradas as quase ubíquas ocorrências de abusos sexuais contra meninas e mulheres em quase todas as situações em que homens se encontram em situação de vantagem e força.  Agora imaginem a posição privilegiada de um insuspeito predador macho rodeado de adolescentes seminuas num sábado à tarde em Londres!

Sim, porque, como bem lembra Janice Turner, a “celebridade” em questão, de batom azul, sapatos fabulosos e esparsos tufos de barba pode ser tudo, menos uma mulher. E da mesma forma todos esses ativistas trans que se “sentem” mulheres mesmo antes de se submeterem à “cirurgia corretiva”. Francamente, não passam de doentes mentais. Pronto. Falei.

O artigo prossegue descrevendo tanto o exponencial aumento da procura de clínicas dedicadas à “cura da disforia de gênero” quanto as alucinadas novas leis no forno da legislação britânica, que permitem que crianças decidam se submeter a tratamentos de mudança de sexo sem a ciência nem a anuência de seus pais e responsáveis, e sem sequer atentar para as consequências futuras, como a infertilidade irreversível e uma vida inteira dependendo de medicação.

Janice lembra ainda — coisa que todos sabemos, mas nos esquecemos de lembrar —, que mesmo levando em conta esse bando de gente que passou a se considerar trans por conta da intensa (e assustadora) propaganda do lobby da categoria, trata-se de uma mínima minoria. Bastaria que uns poucos de nós se recusassem a seguir essa onda publicamente e puff!, tudo correria o risco de se dissipar no ar como uma histeria passageira, que é exatamente o que isso é. Exceto, claro, para as inúmeras vítimas que já terão se automutilado e se submetido a tratamentos dolorosíssimos para se transformarem no que não são.

Vamos combinar, urge que passemos a fazer isso. Urge que deixemos de ligar para o que pensam de nós esses malucos em minoria, e não estou me referindo apenas à minoria em si, mas também aos malucos que a defendem.

Como li em algum outro lugar, não basta pintar o rosto e as mãos de preto para se transformar num preto — sim, usando o termo “politicamente incorreto” que causou a desgraça de William Waack. E daí? Da mesma forma, não deve bastar passar batom e usar salto alto para se transformar em mulher e passar a usufruir dos (poucos) benefícios auferidos em anos de luta do movimento feminista, entre eles acesso exclusivo a certos locais e privilégios no trabalho e no empresariado, ao menos no primeiro mundo.

Estava eu ruminando essas coisas quando me deparei com algo muito menos grave e muito mais superficial, mas igualmente incômodo: o noticiário de moda referente aos modelitos usados pela primeira-dama Melania Trump em sua viagem à Ásia semana passada. Ocupando o posto de primeira-dama há quase um ano — semana passada completou-se um ano da eleição de Trump em 2016 —, Melania “deu um show de elegância e savoir faire no estrangeiro”, porém, usando figurinos de designers europeus, entre eles um de seus favoritos além de Doce & Gabbana, o espanhol Delpozo, que está faturando horrores com a propaganda gratuita de Melania. Isso, depois de famosos designers norte-americanos terem se recusado a vestir a primeira-dama por “divergências ideológicas”. Os poucos que tentaram se viram “atacados” por boicotes dos progressistas a suas lojas, o que poderia ser considerado um motivo razoável para sua militância sem sentido. Mas hoje, um ano depois, estão amargando um senhor prejuízo, enquanto sua “não-musa” desfila sua beleza pelo mundo. Bem-feito para eles.

Quanto a nós, pessoas comuns, trabalhadores que não vivem em função da fama, não vejo a menor justificativa em defender bandeiras insanas em nome de uma suposta popularidade em redes sociais que não nos ajuda absolutamente nada. Ninguém se sente, ou, pelo menos, não deveria se sentir nem um pouco menos satisfeito consigo mesmo por ser considerado “legal” por meia dúzia de amigos de Facebook, francamente. Mais ainda quando ficamos sabendo, como também foi divulgado esta semana, que o Facebook conscientemente manipulou as emoções humanas ao criar sua plataforma de “interação social”. Um de seus fundadores, Sean Parker, confessou em entrevista que “só Deus sabe o que [a rede] está fazendo com os cérebros das crianças”.

É de amargar. Não custa lembrar que, da mesma forma como pintar o rosto de preto ou usar batom e salto não transforma ninguém em preto ou em mulher — ou ter barba no rosto e pelos pelo corpo não transforma ninguém em homem, caso seja a mão contrária —, ter amigos na rede social tampouco equivale a ter amigos no mundo real.

Trata-se de uma vida de faz de conta esta que vivemos hoje em dia, meus amigos, e já passou da hora da gente despertar, não é mesmo? Lembrando “Star Wars”, já que ontem finalmente assisti à versão mais recente da saga: “Nós temos a força”.

Bom domingo!

Foto Getty Images

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2 Resultados

  1. Ana Bailune disse:

    Amei! Curto sinceridade.

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