O abuso de autoridade bate à porta

 

O abuso de autoridade bate à porta    Algo que vem nos perseguindo há algum tempo é o abuso de autoridade. Sua existência parece ter ficado ainda mais clara com o suicídio do reitor da UFSC, Prof.  Luiz Carlos Cancellier de Olivo, após ser preso numa operação que movimentou mais de 100 policiais federais e que o expôs à humilhação pública. O abuso de autoridade bate à porta de cidadãos de bem.

O suicídio do Prof. Cancellier, no início de outubro, foi um protesto, uma denúncia, um escape da desonra injusta. Guardadas as devidas proporções, o suicídio de Getúlio Vargas teve algumas dessas motivações. Tirar a própria vida foi a saída encontrada por ambos para mudar o rumo da História.

O Prof. Cancellier havia assumido a reitoria da universidade havia poucos meses, portanto, a possibilidade de que estivesse integrado aos supostos esquemas corruptos tende a zero. Mas teve sua honra devastada. Cancellier amava a UFSC, morava praticamente dentro da universidade, tão perto era sua residência. Tinha personalidade conciliadora e, provavelmente, essa característica o levou à vitória sobre a candidata à reeleição.

O corregedor da UFSC, Rodolfo Hickel do Prado, armou um espetáculo para a prisão do reitor e de outros servidores da universidade. Não foi a primeira vez. Os Jornalistas Livres buscaram informações sobre o corregedor (temporariamente afastado do cargo) e encontraram um histórico de abuso de autoridade, perseguições, calúnias, mentiras e violência. Não tem perfil nem para ser síndico de prédio, literalmente. Foi processado por um vizinho, depois de expô-lo a situação semelhante à do reitor Cancellier. Hickel foi condenado por calúnia e difamação, mas recorreu, claro.

Um dia antes de sua posse como corregedor, foi flagrado pela polícia dirigindo na contramão, em alta velocidade. Deu uma bela carteirada e ainda acusou os policiais de abuso de autoridade. Contudo, imagens das câmeras de segurança comprovaram quem abusou da autoridade: Hickel.

Com a morte do Prof. Cancellier, um processo administrativo contra o corregedor foi aberto e encaminhado a instâncias superiores. Veio à tona a situação da comunidade universitária, completamente acuada, amedrontada, perseguida. Hickel persegue do reitor aos estudantes — estes são interrogados com base em suas manifestações nas redes sociais. A vigilância é cerrada; a UFSC vive uma verdadeira ditadura.

A imprensa deu uma forcinha, divulgando as informações fornecidas unicamente por Hickel, de que o rombo nos cofres da universidade seria de R$ 80 milhões, quando não passa de R$ 500 mil. Foram R$ 80 milhões mentirosos na conta da injusta desonra de Cancellier. Ao que parece, os grandes da mídia ainda não corrigiram a informação. Pudera! Vão demonstrar sua incompetência, sua incapacidade de apurar os fatos antes de divulgá-los.

O suicídio do Reitor Cancellier nos chama a atenção para os excessos cometidos pelos órgãos de controle e membros do MPF, para quem, tudo indica, todo mundo é culpado até que se prove o contrário. No entanto, até que se prove, uma devassa já foi feita na vida do cidadão. Foi o que houve com o Prof. Cancellier, um cidadão de bem, com honra. Jamais veremos um Aécio Neves ou um Lula se suicidarem. Nunca tiveram honra e já deram várias mostras de abuso de poder e de autoridade. Estão certos de que sairão livres para continuar praticando seus crimes.

Tive, durante um período de minha vida, contato com membros do MPF. Pelo menos aqueles com quem tive o desprazer de conviver, se achavam a voz da Justiça. Suas recomendações ao Poder Executivo eram intimidadoras e, não fosse a excelente atuação da advogada da União que orientava as autoridades, o MPF teria condenado a agricultura brasileira ao obscurantismo, à improdutividade e, de quebra, levariam o Brasil à completa falência — vamos nos lembrar de que há mais de duas décadas, o agronegócio é o principal sustentáculo da economia nacional.

É preciso, realmente, uma legislação que puna o abuso de autoridade, afinal, quem fiscaliza o fiscal? É preciso muito cuidado, porque nosso parlamento está cheio de mandachuvas abusivos, mas estão certos em querer impor limites a autoridades do MPF, da PF e do Judiciário. Não é apenas a política que está judicializada, e sabemos o porquê — práticas corruptas e abuso de poder e… de autoridade também. Temos que nos conscientizar de que hoje, no Brasil, a vida de todo mundo está sendo judicializada, em maior ou menor grau.

E é justamente a corrupção desenfreada que permite o florescimento de personalidades abusivas que, valendo-se do crime de outros, demonstram uma necessidade de se fazer justiça a todo custo e criam um regime de exceção em suas esferas de atuação. É a corrupção que permite o fortalecimento de candidaturas como a de Jair Bolsonaro, um completo despreparado, preconceituoso que, podemos apostar, se tiver poder suficiente, se mostrará abusivo e persecutório.

Que o martírio do Prof. Cancellier não seja em vão. Que a UFSC recupere a autonomia, a democracia e a liberdade, valores caros à vida acadêmica. E que nós, brasileiros, possamos enxergar além do que o MPF e órgãos de controle nos mostram. Que possamos ser críticos e questionadores. E, principalmente, que sejamos capazes de reconhecer personalidades abusivas e, por meio do nosso voto, as afastemos do poder.

Bom domingo procês!

https://jornalistaslivres.org/2017/10/exclusivo-corregedor-que-denunciou-reitor-a-pf-ja-foi-condenado-por-calunia-e-difamacao/

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