E o Oscar vai para…

 

E o Oscar vai para    O telefone tocou no quarto de hospital. Uma amiga queria notícias da paciente, internada em estado grave, depois de uma cirurgia complicadíssima, com direito a vários dias no CTI.

Declarou-se aflita com a situação da outra, que ia melhor, obrigada, o pior já passara, felizmente. Aliviada com as boas novas, desejou que tudo se resolvesse o mais rápido possível. Ansiava pela completa recuperação da amiga, mandava-lhe beijos, e pedia desculpas por não poder visitá-la. Gostaria muito, mas andava ela mesma cheia de problemas que a limitavam.

Ultimamente só saía para ir ao médico, e sempre acompanhada pelo marido, um santo, coitado. Naquele mesmo dia tinha passado a tarde fazendo os exames urgentes que o médico lhe prescrevera na véspera. Seguiram-se descrições detalhadas de cada exame, pontuadas pelos prováveis resultados, que, seguramente, trariam os mais terríveis prognósticos.

Sem esquecer a coluna torta, que a incomodava muito e a obrigava a apoiar-se em uma bengala. Por enquanto só em casa, era vaidosa e não queria aparecer assim em público, mas, certamente, não demoraria um mês até que ela se visse obrigada a usar o horrível artefato em todas as ocasiões. Ou talvez precisasse do auxílio de um andador, se o apoio da bengala se tornasse insuficiente. Quem sabe até de uma cadeira de rodas.

Sorte sua o marido, que a acompanhava em todo o seu périplo sofredor. Uma benção o marido, coitado, que estava quase tão cheio de problemas quanto ela. Ou mais, pobre criatura! No caso dele não era a coluna, eram os joelhos, entre outras coisas, achaques novos e antigos. Seguiram-se descrições detalhadas dos problemas do marido, dos exames passados, presentes e futuros a que se submetera, ou submeteria. Em pouco tempo, os joelhos talvez o impedissem de andar, e aí, o que seria dela? Melhor nem pensar nessa hipótese.

Começou a desfiar argumentos, a favor e contra, para saber, entre ela e o santo marido, quem mereceria sair vencedor de um suposto concurso de mal-estares. Em vão tentou decidir-se por um ou por outro, já que, ao enorme desejo de se declarar vitoriosa, contrapunha-se o amor que dedicava ao marido, e que se confundia com o amor aos cuidados que ele lhe destinava.

Depois de meia hora de lamentações e comparações, a acompanhante da hospitalizada viu-se obrigada a cortar o papo. Na verdade, fazia tempo que deixara de ouvir a lengalenga, e receava que a outra percebesse que o relato de tanta desgraça acumulada estava, em lugar de piedade, provocando-lhe um ataque de riso. A paciente estava melhor, obrigada, e, sim, qualquer novidade eu a aviso, melhoras aí também para você e o seu santo marido, parece que vocês precisam tanto ou mais do que ela. Desligou o telefone rapidamente e soltou de vez as gargalhadas.

Meninos, juro, gente existe assim.

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