O jardineiro sonhador

 

O jardineiro sonhador

Foi há muito tempo, quando compramos nossa primeira casa. Ela tinha um quadradinho que chamávamos de jardim, com alguns canteiros. Portanto, contratamos um jardineiro. Nós o descobrimos numa daquelas lojinhas à beira da BR-040, em Itaipava. Seu nome era Marcelo.

Era um bom jardineiro e tinha jeito com as plantas. Tinha o tal “dedo verde”, pois todas as plantas que ele cuidava cresciam e ficavam viçosas. Jovem, usava uns óculos estilo Lennon que lhe emprestavam um ar intelectual.

Mas tinha um pequeno problema: era muito sonhador. Embora eu não tenha certeza se isso é bom ou ruim.

Tinha mania de me chamar o tempo todo: “Dona Ana! Vê se a altura da roseira está boa!” Eram tantas vezes, que em algumas eu fingia não ouvir. Mas era em vão, pois ele jamais desistia. Berrava:

— Dona Aaaaannnnaaaaa!

Gostava de me dar plantas de presente, mesmo que às vezes levasse algumas de meu jardim, talvez para presentear outras pessoas. Uma vez, apareceu-me com um vaso grande, onde estava plantado um cacto. Todo sorridente, entregou-me o presente, dizendo:

—  Se plantar no chão, ele cresce uns… cinquenta metros!

Respondi:

—  !!!!

Ele coçou a cabeça, e dando o braço a torcer:

—  Tá bom, cresce uns… três metros e meio.

Este cacto está hoje plantado na frente do meu terreno, em minha nova casa, e realmente, está com uns quatro metros de altura… Tá bom, três!

Um dia, Marcelo estava terminando seu serviço quando veio com três gatinhos recém-nascidos, os olhos ainda fechados.

— Dona Aaaaannnnaaaaa! Olha o que eu achei no seu jardim, no meio das plantas!

Logo percebi que ele mesmo colocou os gatinhos lá, talvez os tivesse encontrado na rua. O muro da casa era muito alto para que alguém os tivesse posto lá, e duvido que alguma gata descuidada iria ter seus filhotes em um jardim vigiado por um Rottweiler! Foi um custo conseguir alguém que ficasse com os gatinhos, e eu, com viagem marcada para a manhã seguinte, tentando ligar para as associações de animais, com um conta-gotas cheio de leite e três gatinhos berrando de fome. Mas Marcelo jurou de pés juntos que não tinha sido ele a abandonar os gatinhos em meu jardim…

Um dia, ele não apareceu para trabalhar. Ligamos, e ele nos contou a novidade:

—  Eu agora trabalho com cobras. Capturo cobras e vendo para o Butantã!

Repliquei, admirada:

— Mas como você manda as cobras para lá?!

E ele:

— Ué! Por Sedex!

Mas acho que o negócio das cobras não deu muito certo, pois ele logo voltou a ser nosso jardineiro. Ou melhor, paisagista:

— Dona Ana! Fiz um curso de paisagismo por correspondência. Se a senhora quiser, eu faço um projetinho para o seu jardim, tudo por computador!

— Ah, que bom! E quanto custa?

— Quinhentos reais!

— !!!!!

— Mas para a senhora, eu faço por… cinquenta!

Educadamente, recusei a proposta e lhe desejei boa sorte em seu novo empreendimento.

Começou a faltar novamente, alguns meses depois. Ligamos, e Marcelo tinha uma nova profissão:

— Não faço mais jardim, Dona Ana! Agora crio videogames e vendo pela internet! Se a senhora quiser, eu vendo baratinho…

Mas não, obrigada, eu não quis.

Infelizmente, acho que não vendeu muitos videogames, e voltou a ser jardineiro. Certa tarde, ele estava trabalhando no jardim, quando deu o seu grito de guerra:

— Dona Aaaannaaaa!

Fui correndo atender ao seu desespero, e ele falou:

—  Vou sair mais cedo hoje. Fui picado por uma aranha caranguejeira imensa… estou meio tonto…

— Nossa, então espere, que eu vou ligar para o meu marido, e a gente te leva para o hospital. Onde foi que ela picou?

— Aqui… — olhei e não vi nada. Ele continuou:

— Não precisa me levar para o hospital não, que eu tenho soro em casa, na geladeira!

Mesmo assim, gostávamos dele. Marcelo ia e vinha, marcava e não aparecia, mas tinha alguma coisa de agradável que nos fazia sempre chamá-lo de novo. Acho que era a sua alma de sonhador, que emprestava viço a todas as plantas.

Ainda chegou a fazer o jardim da nossa nova casa. Veio apenas umas três ou quatro vezes e depois, sumiu de novo. Desistimos dele, mas espero que ele não tenha desistido de seus sonhos.

Enquanto escrevia esta crônica, meu novo jardineiro, o Sandro, me chamou umas três vezes:

— Dona Aaaannaaaaa!

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