A banalização do trabalho escravo

 

A-banalização-do-trabalho-escravo   De certa forma, estamos acostumados a vários absurdos que acontecem diariamente nesse Brasil, mas as lideranças políticas com cargos eletivos ou não, sempre nos surpreendem e se superam. Esta semana, a Ministra de Direitos Humanos, Luislinda Valois, enviou um documento com argumentações de que deveria perceber um soldo total de R$ 61.400,00, porque sua atuação “sem sombra de dúvidas, se assemelha ao trabalho escravo, o que também é rejeitado, peremptoriamente, pela legislação brasileira desde os idos de 1888 com a Lei da Abolição da Escravatura”. Na real, sem sombra de dúvida, o que vemos é até que ponto chegou a banalização do que realmente significa trabalho escravo.

Ora, se uma Ministra de Estado que desfruta de ambiente e condições de trabalho confortáveis se julga escravizada, o que dizer de um caixa de banco, que passa o dia num cubículo digitando e lidando com o dinheiro alheio e todo tipo de gente? O que dizer dos professores de escolas de periferia que precisam controlar e conviver com adolescentes violentos, em pé, durante 20 horas por semana, falando, passando conteúdo? E o que podemos considerar sobre os trabalhadores rurais, faça sol ou faça chuva, arando, muitas vezes, o próprio pedaço de terra? E um funcionário da limpeza de shoppings, que tem de limpar banheiros, por vezes, em situação insalubre? Uns pouquíssimos exemplos, só a título de comparação com as palavras da tal ministra.

Vamos nos lembrar de que a ministra recebe, de todos os trabalhadores do Brasil, incluindo os exemplos acima citados, carro de primeira com motorista e ar condicionado para aliviar o calor. Também recebe um auxílio moradia para viver em Brasília. E trabalha num amplo escritório, com ar condicionado, TV, um moderno aparelho de videoconferência, telefone para ligações privativas, smartphone moderno, com conta paga pelo contribuinte, e um garçom que lhe serve café, água, suco, chá, uns pãezinhos de queijo ou torradas com geleia.

Penso, humildemente, que se Luislinda entende que as pressões e as condições a que está “submetida” podem ser consideradas num contexto escravagista, deveria olhar pra baixo. Quem sabe não pede para sair? Aliás, só a liberdade que ela teve de aceitar o cargo e que ela tem de sair quando bem entender, já descaracteriza seu pleito. Ela não está obrigada a se submeter às “condições desumanas de trabalho do serviço público”, especialmente do cargo de Ministra de Estado.

Luislinda, com uma argumentação de mais 200 páginas, banalizou o trabalho análogo à escravidão e, por tabela, reforçou a necessidade de se definir legalmente o que isso significa, de forma que o empregador não fique sujeito ao julgamento aleatório ou ao humor de quem realiza a fiscalização. Imagina se a Luislinda resolvesse fiscalizar o trabalho dos desentupidores de fossa ou de sanitários entupidos? E o trabalho dos garis, correndo no trânsito, atrás do caminhão de lixo em movimento?

Luislinda demonstrou ser ministra de Direitos Humanos para si mesma e ponto. Aliás, na maioria das vezes que vemos falar sobre direitos humanos no Brasil, é sempre de um jeito muito suspeito, digamos assim. Os ativistas e autoridades relacionadas a direitos humanos estão sempre trabalhando a favor de presos condenados e, pode-se dizer, ignoram as vítimas ou suas famílias. Não que presos condenados não devam ser tratados com dignidade, não é isso. Mas, convenhamos, o foco principal parece equivocado.

Recentemente, a Justiça de São Paulo condenou o ex-vice-presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana a 16 anos de prisão por ligação com o crime organizado. Por apenas R$ 5.000,00 mensais, trabalhava para influenciar integrantes do judiciário nas decisões sobre o PCC. Entre suas tarefas, também estavam ações para prejudicar o sistema prisional paulista ante organismos internacionais de direitos humanos, como disseminar a fake news que a comida dos presos em São Paulo continha caco de vidro. Podemos apostar que, se for feita uma varredura cuidadosa, encontraremos o desvirtuamento das atividades em qualquer órgão relativo a direitos humanos, orquestrado pelo crime organizado.

A ministra Valois, com sua “luta” pelos próprios direitos humanos, traz à tona essa discussão: como o Brasil trabalha a questão de direitos humanos? Qual o foco? Quais os interesses envolvidos? Não sei vocês, mas não vi nada sobre isso na imprensa…

Como é aposentada do Judiciário — desembargadora —, Luislinda não precisa arranjar mais sarna pra se coçar, pode muito bem evitar essas dores de cabeça. As pressões do cargo são ossos do ofício, ora! Assim como encarar sol e chuva são ossos do ofício de qualquer trabalhador rural. Se lhe parece desumano estar submetida ao trabalho de Ministra de Estado, pode sair, D. Luislinda: a senhora não precisa desse emprego. E, pelo visto, não tem nada de minimamente razoável a oferecer ao Brasil, na qualidade de servidora pública.

Bom domingo procês!

Foto: Sérgio Lima/Poder360

Para ler mais de Vânia Gomes, clique aqui.

Para comprar o livro mais recente de Vânia Gomes, clique aqui.

Deixe seu comentário