O resgate do Brasil

 

O resgate do Brasil

Luciano Mariz Maia, Vice-procurador Geral da República

Em entrevista ao periódico O Estado de São Paulo deste sábado, o Vice-procurador Geral da República, Luciano Mariz Maia, enfatiza que o resgate do Brasil será por meio de um resgate institucional.  Ademais, declarou que quando o povo diz que todos os políticos são bandidos, dá a si próprio o direito de cometer irregularidades. Epa, como assim? Não, isso não é verdade.

Em que pese seu apreço pelas instituições democráticas, a fala do vice-procurador causa espécie. Como pode simplesmente acusar aqueles que dizem que todos os políticos são bandidos de serem iguais? Desculpem, mas ao dizer “Quando você atribui que ninguém presta, todos cometem crimes, são todos bandidos, você está dando a si próprio o direito de cometer irregularidades, o direito de destruir vidas, de desrespeitar a lei. Isso é uma espécie de vale-tudo”, é exatamente isso o que ele faz: acusa o povo de ser igualmente corrupto, ladrão, bandido.

Ora, basta ligarmos a TV no noticiário, abrir a internet em qualquer site de variedades, que sempre haverá uma notícia de político bandido. E sem distinção de partido, de estado da federação, de “ideologia”. Como não achar que todos são bandidos?

Podemos concordar que seja uma visão muito generalista, sabemos não são todos os políticos. Mas são todos os destacados: presidente, ex-presidentes, candidatos à presidência, governadores, senadores, deputados, a lista é longa. Inverter a lógica e dizer que o povo é permissivo assim me parece de uma arrogância sem limites. Além de arrogante, o vice-procurador parece se colocar como O guardião da lei.

Já na primeira pergunta, Luciano Mariz se esquiva da resposta. A repórter d’O Estado perguntou objetivamente se ele concordava com a avaliação dos políticos de que as investigações criminalizavam a atividade política. Mariz deu um belo discurso filosófico, mas não disse nem que sim, nem que não, nem o principal: que a atividade política parece criminalizada por causa dos políticos bandidos.

Em resposta a outra questão, atacou sutilmente os partidos políticos, declarando que “solidariedades partidárias terminam excedendo o dever da integridade na apreciação de erros, desvios, por filiados àquele partido”.

Também defendeu o MPF e atacou a imprensa. Afirmou que a instituição é plural, que enquanto o PGR aparece de um jeito, outros procuradores trabalham em várias outras áreas e há diversos canais de comunicação, mas “Muitas vezes a imprensa é seletiva no que olha e perde a chance de ver a pluralidade de atores”. Nesse ponto, disse uma verdade. E podemos acrescentar que não apenas perde a chance de ver o todo, como também se permite a interpretações e elucubrações inapropriadas ou mesmo erradas. Isso atinge o povo muito mais do que a verdade dos fatos da atuação institucional. A liberdade de imprensa é um bem inalienável da democracia, mas é preciso que estejamos atentos àquilo que é propagado e, principalmente, que saibamos distinguir o que é opinião do que é fato.

O vice-procurador transparece firmeza de caráter. Mesmo assim, a entrevista não passa uma boa sensação. Ainda que tudo indique que o MPF e a PGR continuarão atuando com a mesma seriedade no combate à corrupção, devo dizer que já sinto saudades de Rodrigo Janot.

Foto: MPF

http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,e-erro-generalizar-um-ataque-a-classe-politica-diz-vice-procurador-geral-da-republica,70002054822

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