Quem é quem?

 

Quem é quem   Bem me lembro das ruguinhas na face rosada de minha avó. Uma história que hoje me parece tão antiga… Às vezes, eu mesma me pergunto: “Era assim mesmo, será que eu vivi isto?” Custo a acreditar que as pessoas, especialmente as avós, não tinham medo de mostrar as marcas do tempo, e muitas até diziam: “Essa ruga tem uma história”.

Não sei se é porque se vivia menos, mas parecia até que as pessoas ostentavam sua idade como uma espécie de “vitória”, um sinal de que era sobrevivente, de que estava ganhando a luta contra as décadas.

A experiência era um plus em quase todas as situações de vida, e neste quase eu tenho que lembrar que experiência em sexo era… só para homens.

Buscava-se o saber como fosse um fim em si mesmo.  Como era difícil o acesso ao conhecimento! Quem quisesse se aprofundar em algum assunto ia a uma biblioteca — acho que elas nem existem mais.

E os livros? Parecia que os escritores competiam entre si para ver quem escrevia o livro de mais páginas. Mesmo os didáticos entravam na competição — os estudantes ficavam de ombros caídos de tanto carregar material escolar pesado.

Passa o tempo que passa, e quando paro para revisitar minhas memórias tenho a impressão de que aquele era outro mundo, tantas as diferenças. Hoje tudo me parece mais fácil, mais acessível e, por incrível que possa parecer, mais complicado. A insatisfação é geral e nunca tem fim. Quando se atinge uma meta, logo inventam outra.

Da minha salinha de escrever, posso viajar o mundo inteiro, confortavelmente, mas cada vez tenho mais vontade de abrir a porta e sair num destino qualquer.

O saber está ao alcance de qualquer pessoa, mas cada vez mais fica evidente que se sabe menos. O volume de informação, imenso, não está mais nos livros pesados. Em compensação, não se tem mais certeza do que é informação boa e do que é inverdade, lixo cibernético, mentira criada com algum propósito, que depois vira “pós-verdade”. Pós-verdade… Isso pode?

Pode, hoje você conta nos dedos o que não pode. Permissividade é a palavra.

Pode-se tudo; só não se pode enganar o Tempo, embora seja possível lhe dar um drible daqueles bem dados.

Que drible? Uma simples troca de pele e você vai ter que adivinhar quem é a mãe, a filha e a avó.

Imagem: Safari

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