Um texto artístico

 

eyeball in handA polêmica em torno das recentes exposições envolvendo o nu teve um ponto positivo, para além das discussões éticas ou morais: nunca se falou tanto sobre Arte no Brasil. Milhares de brasileiros tiveram a oportunidade de ouvir, pela primeira vez, a palavra “instalação”, fora do contexto eletro/ eletrônico.

No meu caso, suscitou novamente um questionamento interno sobre o significado de Arte. Confesso que tenho dificuldades de entender o que distingue Pollock de uma criança de 5 anos rodeada de latas de tinta. Ou as bandeirinhas de Volpi de um desenho de festa junina feito por outra criança de 5 anos. O que torna o não-sorriso de Mona Lisa um dos retratos mais emblemáticos da história da pintura? Observo as esculturas de Aleijadinho e as considero medonhas. Não consigo diferenciar alguns móbiles de Hélio Oiticica daqueles que pendulam sobre berços de recém-nascidos. Afinal, Romero Britto é ou não brega?

De Salvador Dalí gosto de tudo — do bigode aos relógios escorrendo das telas. Já Renoir tem o talento de nos deixar com vontade de usar longos vestidos e guarda-chuvas rendados num dia de verão.

Gosto ainda do urinol de porcelana de Marcel Duchamp, considerado uma das obras mais representativas do Dadaísmo na França. Mas se alguém chegasse hoje e colocasse uma pia num museu, seria considerado artista?

A galeria de arte improvisada por camelôs nas feirinhas de antiguidade é outro caso interessante para falar desse tema. Entre Ches, Marilyns, Fridas e cavalos escovados correndo no campo, sempre há um quadro anônimo que chama a atenção. Por que ele jaz ali, e não num museu ou galeria? O que o pintor teria feito de errado?

Ninguém tem dúvidas de que um desenhista é um artista. Um arquiteto. Mas por que um pedreiro é apenas um pedreiro? Porque talvez uma parede de azulejos signifique cozinha ou banheiro, e não transmita nenhuma mensagem subjetiva. Ou porque ele não teve que pensar para colocar em prática o que o arquiteto projetou. Assentar um azulejo é uma arte. Por que o funcionário de um supermercado que empilha latinhas de leite condensado e, com elas, forma corações em datas comemorativas, não é considerado artista?

Fica claro, analisando os pareceres dos críticos de Arte, que não se trata apenas de estética ou habilidade manual. Definitivamente, a compreensão do umami artístico foge ao meu entendimento.

Na adolescência, artista pra mim, mesmo, era quem conseguia traçar o gráfico da tangente e da cotangente. Não que eu invejasse, longe disso, mas tirava o chapéu. Meus cadernos viviam furados pela força que imprimia ao compasso na vã tentativa de realizar a tarefa. As folhas do caderno de trigonometria pareciam ter sofrido um ataque de cupins. Além da falta de talento para a coisa, a ponta do meu compasso vivia amassada de tanto cair. Só de lembrar, suo frio.

Não tenho intimidade com gráficos e números. Nasci para ser artista — ainda que não esteja certa do que isso realmente signifique. E não saiba nem assobiar.

Imagem: Sara Zaher.

Para ler mais de Tatiana Rezende, clique aqui.

Para comprar o livro mais recente de Tatiana Rezende, clique aqui.