“Mãe!”

 

Jennifer Lawrence Mãe!Primeiro era o caos, depois se fez o cosmo. Ou, na ordem que se queira: luz, fogo, água, terra e ar.  O universo surgiu, e com ele o homem e a mulher. Provavelmente, a maior curiosidade do ser humano, desde sempre, se refira à criação da vida: como, quando e por quê?

Afinal, de onde viemos, e para onde vamos? Ou, quem sabe, a grande dúvida já não seja para onde, mas em que velocidade, ou, como chegaremos lá, porque todos sabemos que, ao fim e ao cabo, tudo será o caos novamente. E, como num moto contínuo, o caos e o cosmos se revezarão por toda a eternidade.

Ser criativo na indústria do entretenimento não tem sido fácil, muito menos simples. Para dizer a verdade, se alguém quiser ser famoso vai precisar ser mais do que criativo, vai precisar ser ousado, quiçá abusado. E chamar a atenção, criando histórias extraordinárias, megalomaníacas, hiperbólicas!

Parece ter sido esse o objetivo do diretor americano Darren Aronofsky (conhecido pelos premiados “Cisne Negro”, “O Lutador” e “Noé”) ao criar e dirigir o longa-metragem “Mãe!” [Mother!]: chamar a atenção. E, certamente, parece ter conseguido. Você pode até não gostar, mas vai falar dele, bem ou mal. Aliás, nem interessa o que se falará, mas que se falará, se falará!

No início era o vazio, e a ordem se impôs: faça-se a luz! E vieram também o fogo, a água em dilúvio e mais o que se ordenasse vir. E todos se completavam e, ao fim, como num passe de mágica, surgiu o Éden. Mas faltava a razão de ser de tudo isso. E eis que surgiu a vida e, com ela, todos os seres que habitam o Universo.

Em “Mãe!”, assim como no Gênesis, temos a alegoria da criação do mundo, dessa vez sob a perspectiva de Aronofsky, para quem Javier Bardem seria Ele, o Criador, e Jennifer Lawrence, Ela, a Mãe Natureza. E o dia começa com a Mãe desejando um dia como outro qualquer, emendando num fim-de-semana tranquilo, com cama, mesa e banho em ordem, se possível nesta ordem. Mas os fatos não se sucedem como Ela deseja.

Eis que surgem estranhos: primeiro o Homem (Ed Harris), que invade aquele espaço íntimo e destrói a calma do lar, do doce Éden. Depois, como que saído do seu íntimo, surge a Mulher (Michelle Pfeiffer), que se impõe com o desejo que o momento propicia. E a seguir vem o Filho mais velho (Domhnal Gleeson), depois o mais novo (Brian Gleeson) e, como na versão bíblica dos irmãos Caim e Abel, dá-se a discórdia. Ninguém mais se entende, todos têm angústias, a desordem se impõe, as disputas se sucedem, e vem o ciúme, a inveja e a morte.

O enredo é difícil de ser entendido: ora tem uma mensagem filosófica, ora religiosa, mitológica, e até mesmo ecológica. É fácil se perder, como num labirinto de ideias que se chocam. Em certos momentos parece que vislumbramos o paraíso, em outros, surge o inferno, com todas as suas pragas e maldições. Seria uma retrospectiva do Inferno de Dante, o verdadeiro Apocalipse ou só mais uma dificuldade de entendimento, de conhecimentos que se chocam?

Há que se admitir: Darren Aronofsky é audacioso, e mais confunde do que explica. Às vezes, até parece que quer imitar o Criador, tal sua verve, sua energia criadora! E o que dizer das locações, com aquela magnífica casa, toda de madeira, acolhedora, maravilhosa, imponente, isolada do mundo, como que perdida naquela natureza selvagem? É uma visão verdadeiramente impactante, principalmente se levarmos em conta os cenários de destruição e reconstrução.

Mais uma vez, há que se aplaudir a escolha do elenco, sem o qual não teríamos o mesmo resultado, com destaque para a extraordinária atuação de Jennifer Lawrence. Sua performance é tão emocionante e cativante, que em dado momento nos sentimos totalmente ao seu lado, torcendo para que Ele se toque, se lembre que ela se tornou Mãe, expulse os intrusos, restabeleça a ordem e devolva a paz ao ambiente.

Ele, o Criador, aparece como um poeta em fase pouco criativa, bem mais velho que a jovem esposa. Na verdade, Ele está mais para um marido alienado, vaidoso de sua obra, carente de afagos, de adoração. E, não por acaso, todos que o procuram são acolhidos. Seu coração está aberto, e Sua casa é a casa de todos, em total oposição ao desejo de sua esposa, que agora é a Mãe em seu estado primal , mas que mesmo assim está à mercê do acaso, abandonada à própria sorte, carente de atenção, de cuidados. Seria esta, aliás, outra leitura do roteiro — a criação do mundo sob a perspectiva da mulher, da esposa e da mãe?

Quanto ao roteiro, poderia ser classificado como de terror, pelo clima de apocalipse que a multidão instaura, ou seria um suspense, pelas expectativas que ficamos a idealizar? Talvez o filme esteja mais para um “déjà vu” do caos que o homem impõe, que, infelizmente, vem e vai, assim como a vida, essa incompreensível e maravilhosa existência do Criador, seja Ele quem for.

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