Sabemos de nada, inocentes!

 

Sabemos de nada inocentes  Se tem algo que os filmes “Tropa de elite”, especialmente o segundo, nos ensinou, é que o crime organizado está infiltrado nas diversas esferas de comando do Rio de Janeiro. A obra é de ficção, mas o TSE já sinalizou que a realidade se aproxima bastante do enredo estrelado por Wagner Moura. Para completar, a Ministra Cármen Lúcia afirmou que se soubéssemos tudo o que ela sabe, não dormiríamos. Sabemos de nada, inocentes que somos.

A verdade é que as organizações criminosas, de todos os tipos, são muito mais ordeiras do que as instituições e as esferas políticas criadas para combatê-las. Têm planejamento estratégico e cadeia de comando muito bem definida.

Nos últimos tempos, é que estamos vendo um MPF e uma PF mais preparados para lidar com esse mal que já contaminou todo Brasil. Não me refiro apenas às organizações criminosas travestidas em partidos políticos. Falo também das milícias e do tráfico de drogas. Segundo levantamento do TSE, quadrilhas influenciam na política e nas eleições em, pelo menos, quatro estados: Rio de Janeiro, São Paulo, Amazonas e Maranhão.

O Rio de Janeiro dispensa maiores apresentações. Contudo, é importante assinalar que 19 zonas eleitorais no estado precisam de reforço policial para a realização do pleito democrático. Mesmo assim, o Rio de Janeiro já coleciona algumas cassações de mandatos após uma CPI da Assembleia Legislativa revelar a atuação de milícias na eleição de seus “candidatos”.

Um caso grande repercussão no ano apssado ocorreu em Embu das Artes (SP), cujo prefeito eleito — Ney Santos (PRB) é investigado por ligação com o tráfico de drogas e o crime organizado. O prefeito tomou posse apenas depois que lhe foi concedido um habeas corpus, concedido em fevereiro deste ano.

No Amazonas, nas áreas de fronteira com a Colômbia, também é o tráfico de drogas que amplia os domínios na esfera política e eleitoral. Um ex-vereador de Tonantins, Radson Alves de Souza, está preso por facilitar o tráfico internacional. Ganhou um bocado de dinheiro com isso.

Esse é um pequeno quadro que vem à tona em matéria d’O Globo, deste domingo. A situação de nosso país é muito mais grave e difícil de consertar. Mortes já começaram a ocorrer por motivação política. Nesse faroeste caboclo, a atuação dos xerifes é limitada por leis feitas pelos… criminosos.

Entrar na política significa poder. Não apenas com ganhos de valores exorbitantes e indevidos, mas também e, podemos dizer, principalmente, com a ação “legítima” — afinal, se trata de cidadão eleito pelo voto popular — em benefício de grupos de interesse, nesse caso, de criminosos.

O povo é joguete nas mãos dessas organizações. As milícias e o tráfico de drogas constituem um poder paralelo nos seus territórios, interferindo até em detalhes do modo de vida das pessoas. A população vive acuada e, temendo pelos seus, obedece aos comandos autoritários e ameaçadores. Isso também perpetua a pobreza e alimenta o ciclo vicioso do crime.

A Presidente do STF, Ministra Cármen Lúcia, afirmou que os presídios brasileiros, em todos os Estados da Federação, estão totalmente dominados por organizações criminosas. Não é difícil inferir que o sistema prisional brasileiro constitui um ambiente que incentiva o crescimento das organizações voltadas ao crime. E também que nos presídios estão os comandos que dirigem a ação dos grupos criminosos.

A Ministra Cármen parece dizer algo nas entrelinhas. Num caso como esse, se perde o sono apenas pelo que se viu, mas também pelo que não se viu, mas se sabe. Talvez a grande desilusão da Ministra é saber e ver-se de mãos atadas, mesmo com o poder que tem nas mãos.

Bom domingo procês!

Foto: Stive – Law enforcement

https://oglobo.globo.com/brasil/se-brasileiro-soubesse-tudo-que-sei-seria-muito-dificil-dormir-diz-carmen-lucia-1-21921369

https://oglobo.globo.com/brasil/tse-pede-investigacao-sobre-interferencia-do-crime-organizado-na-politica-21922376

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