Tradução de táxi, ou de Uber

 

publixNão sei se vocês perceberam, mas dei uma sumida nas duas últimas semanas.

Vou explicar: consegui, depois de um bom tempo de “investimento” em contatos e possibilidades, encontrar uma excelente solução para o problema da sobrevivência na selva dos Estados Unidos:  arranjei um “emprego”.

Não é um emprego qualquer, mas um sob medida para o que eu estava buscando: deixando de lado o ego e a vaidade de ter meu trabalho adorado e reconhecido como indispensável pelo povo, estou trabalhando sem sair da minha linda casa no alto da montanha e rodeada de florestas, onde cada amanhecer é um deslumbre total. E não levanto o derrière da minha confortável cadeira executiva, passando a maior parte do dia, e um pedacinho da noite, encerrada no meu delicioso escritório. Melhor: estou ganhando dinheiro, provavelmente dinheiro suficiente para bancar as minhas contas e o nosso polpudo empréstimo imobiliário, o que é um tremendo alívio.

Eu já estava no end of my rope  —  ui, passei  sem querer para o inglês —, digo, no fim da linha. Vinha investindo em muitas coisas diferentes, usando diferentes habilidades que desenvolvi ao longo da vida, inclusive design de sites, uma loja online de joias magnéticas, e, last but not least — ui, de novo! — o nosso queridíssimo “Crônicas da KBR”, onde eu, Vânia Gomes e nossos dedicados colunistas temos nos dedicado desde dezembro do ano passado a formar a consciência de nossos leitores dedicados num mundo que nos desafia a cada dia. Ufa.

Nada disso, vamos combinar, estava me dando dinheiro, apenas esperança e alimento para o ego. Mas nada como a cruel necessidade para nos obrigar a “cair na real”.

Dinheiro é o que interessa. O resto é bom à beça.

Tive muita sorte. O trabalho a que estou me referindo, que, apesar de autônomo, é constante e não demanda esforço para conseguir mais e mais, bastando para isso a minha própria dedicação e capacidade, se baseia no meu conhecimento dos dois idiomas principais da minha vida cotidiana, português e inglês: estou trabalhando para uma empresa de traduções binacional, bem bacana, cujo sistema apelidei de “tradução por taxímetro”, ou Uber, para soar mais independente e moderno: um job é oferecido várias vezes por dia, você avalia se pode pegar,  o prazo é sempre apertado, e o pagamento por palavra traduzida.

Compensa. Mas, como um viajante perdido no deserto (da capacidade financeira), tenho ido com muita sede ao pote, e trabalhado umas 12 horas por dia, inclusive nos fins de semana. Daí o meu sumiço repentino. Sei que não posso prosseguir nesse ritmo, mas, por enquanto, preciso criar uma “reputação”, se é que vocês me entendem. Depois melhora. Ou talvez nunca venha a melhorar, sei lá. Uma vez o dinheiro entrando, a gente se acostuma a ganhar, não é?

Mas não se preocupem: não vou ficar famosa com esse trabalho nem nada nesta linha. Vocês provavelmente jamais verão meu nome orgulhosamente associado, por exemplo, ao prêmio Nobel de Literatura Kazuo Ishiguro, embora isso me desse bastante prazer. O trabalho que estou fazendo se restringe a traduções técnicas, médicas, jurídicas, e, com um pouquinho de sorte, um ou outro slogan de marketing que vocês verão disseminado no mercado, mas jamais saberão que fui que o traduzi.

Não tem problema. Estou feliz mesmo assim, pois uma carga do tamanho de um bonde foi retirada dos meus ombros já meio alquebrados pela idade e pelos constantes desafios. E meu desejo no momento, que tenho certeza de que em breve poderá ser alterado, é largar tudo o mais que ando fazendo, e aproveitar os momentos em que não estou traduzindo de olho no taxímetro para curtir companhia de marido, pôres e nasceres de sol, luas cheias e uma eventual visitinha ao supermercado, para nem mencionar um drinque na pizzaria aqui do lado. Sabem como é, pequenas coisas que valorizam a vida cotidiana.

Milagrosamente, pareço ter perdido o interesse nas idas e vindas de Donald Trump, nas misérias do mundo, e até na corrupção brasileira, pois é, me desculpem. Mas sei que com o tempo esses interesses em mudar o mundo devem voltar com tudo. Ou não. Enquanto isso, embora o “Crônicas” deva ser mantido regularmente pela dedicação de nossos colaboradores e de nossa coeditora, e por um tantinho de minutos diários que continuo dedicando à edição, vocês terão que se virar sem mim. Ou, pelo menos, sem minhas crônicas brilhantes e meu agudo olhar de analista política.

Acredito que poderemos todos sobreviver.

Principalmente eu, claro. Esta manhã, quando adentrei o supermercado e vi o temido balcão de “vagas” para idosos, respirei aliviada. Provavelmente não vou mais precisar trabalhar como caixa do Publix, o beneficente supermercado local, e nem fazer faxina em casas de família, como tantos imigrantes desarvorados.

E isso não tem preço, you can’t put a price on that.

Se a saudade apertar, lembrem que tenho 14 livros de crônicas publicados, todos disponíveis na Amazon, mais outro tanto de participações nas edições do Singles K, num total de seis páginas na loja virtual. Vai lá.

Inté!

Para ler mais Noga de Sklar, clique aqui.

Para comprar o livro mais recente de Noga Sklar, clique aqui.

1 Resultado

  1. Tereza Braga disse:

    Sou tradutora profissional. Gostaria muito de trocar uma ou duas ideias sobre o seu emprego taximetrizado…

Deixe seu comentário