Infância perdida

 

menino com cabeça em panela de pressãoNa quarta-feira, José Luiz Datena interrompeu sua programação de tiro, porrada e bomba para exibir algo, digamos, mais lúdico: o atendimento de dois bombeiros a uma criança de 1 ano de idade que havia ficado com a cabeça presa dentro de uma panela de pressão. O resgate, bem-sucedido, retrata metaforicamente o momento claustrofóbico da infância brasileira.

O mês das crianças começou sem motivos para comemoração. Além do Menino Maluquinho da panela de pressão, tivemos o caso do garoto piauiense que dormiu na cela com um estuprador e a polêmica em torno da menina que participou da performance no MAM.

Por sorte, a crise não é das crianças, e sim dos pais. Afinal, o que têm em comum todos esses episódios? A displicência, o equívoco, a negligência, o despreparo e a incompetência dos responsáveis.

No caso do menino do Piauí, são os pais — já devidamente afastados do filho — que deveriam passar uma noite na cela com um estuprador. Porque a história é pavorosa. Um pai permite que o filho durma com um “compadre” porque este se queixava de “solidão”. Há suspeitas de que ele tenha deixado o filho dormir na prisão em troca da promessa de trabalhar na horta da Colônia Agrícola administrada pelos presos. Mais: ele foi condenado por estuprar uma menina de 11 anos na frente da irmã da vítima, de 7.

O pai se defende, dizendo que foi enganado. Só teria permitido que a criança dormisse lá porque o amigo tinha dito que “só” matou a esposa porque o filho insistiu.

Qualquer que seja o destino do garoto e de seus três irmãos, o mal já está feito. Com sorte, poderão ser adotados por famílias decentes, mas o trauma nunca será apagado. Os quatro são fortes candidatos a desenvolver depressão, vários problemas psicológicos e, por fim, a repetir o modelo visto em casa, girando o círculo vicioso do qual fazem parte. E assim o mundo-cão vai se retroalimentando.

Já no caso da garota do MAM, a probabilidade de ela desenvolver problemas psicológicos ou psiquiátricos é menor. Quem vai ter que tomar tarja preta é a mãe. Obviamente, não havia no corpo nu do “artista” nenhuma mensagem erótica e sensual. A garota estava interagindo como se estivesse numa aula com um modelo-vivo na Belas Artes. Na cabeça dela, da mãe e na do “artista”, não havia nada além disso. O erro da mãe foi expor a menina e entregá-la às feras do politicamente correto.

Se a ideia era apresentar o nu masculino à filha, deveria tê-lo feito em família. Quer mostrar como é um homem pelado? Tirem a roupa todos em casa, andem pelados, tomem banho juntos, façam xixi de porta aberta.

A sala onde ocorreu a performance estava devidamente sinalizada sobre o teor da apresentação, incluindo a “nudez artística”. Todos os que estavam lá dentro estavam cientes disso.

Discordo, no entanto, de quem disse que a menina não deveria estar ali. Museu é lugar de criança, sim, e os pais devem despertar o hábito desde cedo — com a devido monitoramento. Do contrário, mais crianças se tornarão adultos intolerantes, que engrossarão a massa de ignorantes que acha que certas obras promovem “blasfêmia contra símbolos religiosos e também apologia à zoofilia e à pedofilia”.

Crianças repetem ações e modelos de pais e responsáveis. Um menino abusado provavelmente se tornará um abusador no futuro. O filho de um pai ausente, psicopata, assaltante de bancos e procurado pelo FBI provavelmente não será muito certo da cabeça. É claro que há exceções, mas a prática mostra a dura realidade.

Não sei como será o futuro, mas ele promete ser nebuloso. Pais que não têm condições de cuidar nem de si próprios continuam trazendo ao mundo seres que perdem a inocência assim que se entendem por gente.

Pensar nisso tudo me cozinha os miolos. E nem enfiei minha cabeça na panela de pressão. Ainda.

Foto: Corpo de Bombeiros de Sergipe.

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