COB: caixa de Pandora desportiva

 

Carlos Arthur NuzmanRenovação, mudança, troca, alternância, são palavras que até aparecem no dicionário de políticos, mas têm uso raro. Um lesto olhar esclarece que o que ocorre com menos frequência é renovação: são sempre as mesmas pessoas, com os mesmos objetivos e hábitos, tanto na política quanto no esporte.

As diferenças entre Carlos Nuzman e qualquer outro político brasileiro são sutis. Nuzman foi atleta com certo destaque — jogador de vôlei — e precisou trilhar um caminho mais tortuoso para chegar ao cume pretendido. Mas chegou, e chegou chegando, “bagunçando a zorra toda”, parafraseando o funk da carioca Ludmila.

Há 22 anos ocupa a presidência do Comitê Olímpico Brasileiro, um reinado, pode-se dizer. As sucessivas reeleições de presidentes de federações, incluindo a própria, foram características da gestão de Nuzman. Isso, para não falar do extensivo e ostensivo uso de recursos públicos com pouca transparência na execução, incluindo os gastos que viabilizaram a realização dos Jogos Pan-Americanos de 2007. Qualquer semelhança com personagens que rondam a política nacional não é mera coincidência.

Nuzman foi pego, literalmente, de calças curtas, na manhã de ontem. Ainda dormia o sono dos corruptos, que se acham acima da lei, quando foi acordado por um delegado da Polícia Federal que portava um novo mandado de busca e apreensão, além de um pedido de prisão temporária. Pelo menos por uns dias, vai dormir o sono dos corruptos presos, longe das chaves do cofre onde “cultivava” barras de ouro, o mesmo metal precioso objeto da volúpia de Sérgio Cabral, que o armazenava na forma de joias.

Podemos desconfiar de alguém que se perpetua em cargos de destaque. Pela lógica, ser presidente do COB deve dar um trabalho danado, ser uma responsabilidade imensa, e qualquer pessoa que trabalhe pra valer e seja honesta, claro, se dignaria a cumprir o papel que lhe confiaram e cairia fora na primeira oportunidade, exausta e envelhecida, com vários anos a menos.

Não é o caso de Carlos Nuzman. Não fosse a operação Unfair Play — um desdobramento da Lava-Jato — o ex-jogador de vôlei se perpetuaria no poder do esporte nacional; só sairia morto, podemos apostar.

Pudera! Seu patrimônio cresceu espantosos 457% em 10 anos. Obviamente, vários bens foram ocultados de sua declaração de imposto de renda. Após a deflagração da operação, Nuzman fez uma retificadora à Receita Federal, a fim de declarar os quilos do metal precioso — um indicativo de obstrução de justiça.

As Olimpíadas devem ter rendido um bom dinheiro para o presidente do COB e do Comitê Organizador Rio 2016. A quantidade de obras executadas na Cidade Maravilhosa arrancou grana dos cofres públicos para nada — só do governo federal foram mais de R$ 2,0 bilhões. Afinal, qual o legado das Olimpíadas de que tanto se falou?

Parece que só o metrô do Rio de Janeiro mesmo. O Parque Olímpico está completamente abandonado. A probabilidade de superfaturamento, portanto, é mais do que plausível, considerando-se que delegações chegaram ao Rio e não estava tudo pronto; e a qualidade das instalações estava aquém do esperado, especialmente na Vila Olímpica, onde os atletas se hospedaram.

Além de ladrões, incompetentes.

A política desportiva brasileira é realmente uma caixinha de surpresas — do tipo caixa de Pandora, contendo os males do mundo dos esportes. Nuzman conseguiu a façanha de ser preso antes de Ricardo Teixeira, o todo-poderoso ex-presidente da CBF que, provavelmente, não pode colocar o pé fora do Brasil, senão vai preso, tal qual Paulo Maluf.

A abertura dos Jogos Olímpicos foi um espetáculo de beleza e arte. Surpreendeu o mundo e nos encheu de orgulho. Agora, amargamos a vergonha de sermos vistos como o país que comprou votos para sediar os jogos, com o Comitê Organizador envolvido em tenebrosos esquemas de corrupção. Como a Lava-Jato é uma operação conhecida, talvez o mundo não esteja tão surpreso com esses acontecimentos.

A nós, brasileiros, resta fazer a nossa parte para que ocorra renovação dos mandachuvas ou, pelo menos, alguma alternância. Eles não chegam lá sozinhos.

Bom fim de semana procês!

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