Sempre existe o amor

 

mãos dadasA sirene do colégio tocou, ele ouviu a voz do professor e saiu de seu devaneio:

— Ok, gente, por hoje é só!

Olhou ao redor, viu todos saírem da sala e os seguiu por instinto. Viu-se no corredor do colégio e caminhou em direção à cantina.

Não entendia seu próprio desânimo, que o tomava sem que sua vontade aparecesse.

Em frente ao balcão, viu a confusão já instalada. Estava sem fome. Saiu dali e logo se viu no pátio.

Alguns colegas jogavam bola na quadra, outros conversavam rindo, despreocupadamente, e ele se deixou ficar por ali.

Olhava ao redor e não via muito sentido naquilo. Na verdade, não via sentido em muita coisa. Tudo parecia ter mudado muito rápido, contra sua vontade, e ele se viu sem força para interferir. Ainda se lembrava do dia…

A mãe o chamou à sala e lá ele encontrou o pai e a irmã, um ano mais nova que ele. Olhou para Júlia, que se mostrou tão nervosa e surpresa quanto ele.

Viu-se tentando entender o que estava acontecendo. Olhou para a irmã e tentou sorrir, aparentando uma calma que não tinha; mas era um ano mais velho um ano, se sentia na obrigação de suportar a tensão com um ar de despreocupação.

Olhando os pais à sua frente, sentiu que algo de ruim ia acontecer.

— Pedro, Julia — falou o pai. — Eu e sua mãe decidimos nos separar!

Do resto da conversa ele não lembrava muito. Houve aquela baboseira de que eles nos amavam muito etc.

Sua irmã começou a chorar, e ele, por terror ou fuga, se manteve quieto, impassível. Pensava nisso enquanto olhava para a frente sem ver os pais.

O resto foi confuso. Vieram morar com os avós maternos em outra cidade, e ele foi matriculado em outro colégio. Sem escolha ou desejo, viu sua vida mudar completamente, e teve raiva de não ser adulto.

— Oi!

Assustou-se com a voz e olhou para cima. Viu que era Ana.

— Você anotou a aula de matemática?

Ele a olhou como se ela tivesse vindo de Marte, mas conseguiu perguntar:

— Aula de quê?

Ela riu da falta de noção dele e repetiu:

— Matemática! Sabe, aquele negócio que tem uns números e tem prova na semana que vem.

Ele riu de volta. Gostava da Ana. Olhou para seu rosto, reparou nos cabelos castanhos e nos olhos da mesma cor.

— Oi, Pedro! Presta atenção! — ela disse, já se sentando ao lado dele. Ele riu sem jeito e explicou:

— Ana, não sei nem em que planeta estou…

Riram juntos, e se deixaram ficar ao sol olhando os colegas, sem preocupação.

Ela começou a falar, ele gostava de ouvi-la. Ela era extrovertida, ele do tipo caladão. Ele não tinha muitos amigos, ela também não.

Sentavam-se perto um do outro na sala e faziam os trabalhos escolares juntos. O fato de terem entrado na escola no mesmo ano, vindo de outro lugar, ajudou a amizade.

Enquanto Pedro a ouvia sem escutar, foi percebendo sua presença cada vez mais. Olhou em direção à boca dela. Seus lábios eram carnudos, e os dentes perfeitos.

Quando sorria, e ela sorria muito, duas covinhas se formavam de cada lado do seu rosto. Ele a achou bonita e teve vontade de sentir o gosto de sua boca.

Ela parou de falar, pareceu que lera seus pensamentos.

— O que foi, Pedro?

Ele se aproximou dela e a beijou delicadamente. Ela se deixou beijar, abriu a boca e colocou sua língua na dele. Ele a apertou contra si e, naquele momento, sentiu o calor do sol.

Quando se separaram, olharam um para o outro e riram. Descobriram, juntos, que gostavam mais um do outro do que imaginavam.

Ele deu a mão a ela, e ela aceitou.  Caminharam sem pressa em direção à sala de aula. Pedro apertava a mão da menina e sentia, pela primeira vez em muito tempo, que não estava só.

 

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