Eduardo Cunha: um homem honrado

 

Eduardo CunhaO título desta crônica é obviamente uma ironia. A frase de Eduardo Cunha na entrevista que concedeu à revista Época, “Eu honro meus acordos” — referindo-se ao sigilo para fazer a delação premiada —, só pode ser uma pilhéria. Cunha nunca honrou os acordos mais importantes que fez, como aqueles com o povo que o elegeu deputado federal e o juramento à Constituição no Congresso Nacional. Usa a palavra honra, mas, na realidade, está é tratando de proteger sua defesa — o que é legítimo, mas não é o mesmo que honra. Não em se tratando de um criminoso, corrupto, membro de uma das organizações criminosas que assaltam o Brasil.

Na entrevista, Eduardo atira para todos os lados, mas tem dois alvos preferenciais: Rodrigo Janot e Sergio Moro. Diz, com todas as letras, que é um preso político, trocando a ordem das palavras: sabemos que é um político preso, e não está preso à toa. Mas Cunha se sente injustiçado e, ao ler a entrevista, podemos perceber um homem desesperado, não para provar que é inocente, mas para desqualificar seus “algozes”.

Contudo, o ex-deputado revela, ainda que sutilmente, que as delações da JBS e de Lúcio Funaro têm furos e omissões. E que ele, Eduardo Cunha, tem “histórias quilométricas para contar”. Da maneira como se expressa, parece que só ele sabe e é capaz de dizer a verdade; os demais são todos mentirosos, e delataram aquilo que o ex-procurador Rodrigo Janot queria que dissessem. Cunha declara estar “pronto para revelar tudo o que sei, com provas, datas, fatos, testemunhas, indicações de meios para corroborar o que posso dizer” (destaque nosso).

Bem, eis uma contradição. Como assim, o que pode dizer? Não vai dizer tudo? Também vai omitir? “O que posso dizer” não é o mesmo que “revelar tudo o que sei”, que ele afirma em resposta à mesmíssima pergunta feita pelo jornalista Diego Escosteguy. Para o ex-deputado, sua delação não foi aceita pelo MPF porque ele não disse o que o Janot queria. Mas vemos que, provavelmente, houve omissão. Cunha se entregou nessa frase logo no início da entrevista, e durante a delação, possivelmente, sua eloquência deve tê-lo entregado. Não duvido nada. O tom da entrevista parece eloquente; imaginem a delação.

O ex-deputado-réu-condenado se tem em altíssima conta. Considera-se um troféu para a Lava-Jato e ainda diz que o outro troféu seria o ex-presidente-réu-condenado. Trata-se de uma visão nada imparcial, evidentemente. Contudo, o grande troféu quem tem é o povo brasileiro, que, pela primeira vez, pode ver os criminosos de colarinho branco, políticos e empresários pagarem pelos crimes que cometeram contra a nação.

Eduardo Cunha também ataca Lúcio Funaro, a quem chama de mentiroso, sem aplicar o adjetivo: “Mas eu não aceitei mentir. E ele [Janot] preferiu usar o Lúcio Funaro de cavalo” — como se fosse o delator uma peça de um jogo de xadrez. Cunha garante que sua delação destruirá a da JBS, abalará a da Odebrecht e pode acabar com a do Lúcio Funaro.

O ex-deputado também vai na jugular de Marcelo Miller, acusando-o, inclusive, de indicar a Fernando Baiano um advogado para auxiliá-lo na delação. Segundo Cunha, “não é de hoje que ele atua nos dois lados”. O ex-deputado acrescenta que “é preciso investigar as delações conduzidas pelo Marcelo Miller, esse mercado de delações”. Uma acusação gravíssima, de existir um “mercado de delações”. Interessante. E o mercado da impunidade, que parece um monopólio, nas mãos de um único advogado, que ganha rios de dinheiro sujo?

Naturalmente, qualquer cidadão de bem concorda que a atuação de Marcelo Miller deve ser investigada, a fim de se provar se era dúbia ou não. E esperamos que a Lei também seja rigorosamente aplicada no caso de se comprovar sua participação em negociações espúrias. Também é esperamos saber se Rodrigo Janot tinha algum envolvimento nos “negócios” de Marcelo Miller. Parece que não, mas sendo Miller o braço direito do ex-PGR, é indispensável verificar essa possibilidade.

Entretanto, tampouco podemos nos esquecer de que Cunha é um bandi-dê-ó-dó — parafraseando Rodrigo Janot —, assim como as outras figuras que menciona na entrevista, notadamente Joesley Batista e Lúcio Funaro.

Eduardo Cunha atacou Moro com força, ao dizer que o juiz “queria destruir o establishment, a elite política. E conseguiu”. Bom, o crime de corrupção tem que ser combatido, e a única forma é impor rigorosamente a Lei aos bandidos. Ocorre que os bandidos pertencem à elite política, que faz o establishment. Portanto, a destruição dessa elite política corrupta e desse establishment perverso é uma consequência da aplicação da Lei.

O ex-deputado também falou sobre sua rotina no presídio, se fez de coitado. E, comportamento comum a qualquer político, defende Vaccari, achando absurda a prisão do meliante petista. Dentro ou fora da prisão, o padrão é defender a “classe”.

Cunha também garante que o Congresso praticamente inteiro vai se reeleger e que o sistema político não vai mudar. A seu ver, a única forma de salvar o Brasil é o parlamentarismo, porque o governo cai, mas o presidente é preservado — se o sistema fosse parlamentar, teríamos a Dilma aí até hoje.

Enfim, Eduardo Cunha atira para todos os lados, em tudo e em todos, mas parece defender Michel Temer. Francamente, não sei se isso é bom para o presidente.

Bom domingo procês!

Foto André Dusek/ Estadão Conteúdo.

http://epoca.globo.com/politica/noticia/2017/09/eduardo-cunha-moro-queria-destruir-elite-politica-conseguiu.html

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