Os judeus e o perdão

 

o Livro da VidaÉ ponto pacífico que um dos esteios da democracia é a liberdade de opinião.

Mas em tempos tão carregados de opinião como o nosso, haveria um limite para a liberdade de expressão? Deveríamos nos conter quando a nossa opinião, livremente expressada, está claramente destinada a ofender alguém?

Bem, nos tempos de hoje, onde tudo o que se diz pode ser encarado como ofensa, e há sempre alguém com pedras na mão à espera de ser ofendido, tal critério torna-se um pouco duvidoso. Deveríamos, então, fazer um “assessoramento” prévio para ver se a ofensa em questão vai ou não contra a razão? Como exemplo dessa situação, posso citar os inúmeros ofendidos por terem sido endereçados com pronome pessoal diverso daquele que esperam, na maioria dos casos em franca oposição ao que espelha a biologia. Por exemplo, “aqueles” que desejam ser “aquelas” (e vice-versa), mas continuam com um biótipo de “ele” ou “ela” à prova de toda lógica.

Mas deixa isso pra lá. O que dizer então, por exemplo, de uma editora de notícias franqueando seu espaço a alguém de cuja opinião difere radicalmente? Seria barrar um colaborador com base em sua opinião um ato totalitário e desprezível? Ou apenas um ato de profissionalismo, com o intuito de preservar uma “linha editorial”?

Difícil.  Mas todas essas reflexões esbarram em situações onde a opinião prova ser, simplesmente, equivocada. Como num texto que, sim, publiquei na semana passada (a semana começa hoje, não é?), e no qual deixei passar uma afirmação segundo a qual o judeu “não conhece o conceito do perdão, como o cristão”.

Sim, deixei passar por distração, e justamente na semana mais emblemática do ano para esse tipo de discussão.

A ficha caiu apenas quando, no entardecer de sexta-feira, eu estava na cozinha preparando o jantar de Shabat enquanto o Alan, no quarto, escutava uma entrevista com um rabino na TV. Eu nunca tinha visto o Alan assistir a entrevista de rabino nenhum. Curtimos a tradição aqui em casa como um ponto de ancoramento nos antepassados, algo cultural, enriquecedor, mas não damos a mínima para a religião, Alan sendo um pouco menos avesso do que eu. Entre essas tradições está o Shabat e o cardápio ancestral recomendado para as festas religiosas, como Pessach, Rosh Hashaná e Yom Kipur. E da cozinha, de longe, escutei o rabino falar a palavra “perdão”.

Meu Deus! Como assim, os judeus não conhecem o conceito de perdão?

Não só conhecem, como seu mais importante feriado religioso, um festival de reflexão e contrição, tem “perdão” até no nome: Yom Kipur, “Dia do Perdão”.

E não é só  isso. Eu não esperava escrever sobre isso novamente, mas esta deve ser, sei lá, a minha 10ª ou 12ª crônica sobre o assunto, uma para cada ano desde que me posicionei como cronista, principalmente porque se trata de minha época do ano favorita em termos de herança cultural: os dez dias que separam o ano novo judaico do Dia do Perdão são, tradicionalmente, dedicados à reflexão sobre tudo aquilo que fizemos de “errado” no ano que passou, do que nos arrependemos, uma memória daqueles a quem ofendemos, das leis que transgredimos, dos objetivos que não alcançamos. A intenção é chegar com o coração desarmado e a mente desintoxicada para o cerimonial do perdão, no qual, conforme o nosso mérito e o julgamento do “ser supremo”, após 24 horas de jejum e orações, recitando, tanto uma relação de pecados quanto os motivos que acumulamos ao longo da História para agradecer a Deus e confiar nele, seremos ou não “inscritos no Livro da Vida”, isto é, iremos adquirir o direito a mais um ano.

Quer dizer, não só o judeu conhece muito bem o conceito de perdão, como nele baseia toda a sua filosofia de vida e senso elevado de ética.

Conceder e receber perdão: eis a essência do Yom Kipur, sem o qual o novo ano não pode começar, perigando não passar de uma celebração vazia.

Todo o dia de Kipur, dedicado a orações, alterna momentos de dor e contrição — como o super sagrado e obrigatório “Kadish”, a “Oração dos Mortos” — e cânticos alegres e inconfundíveis de adoração a Deus, como o “Avinu Malkheinu” . [Nosso pai e nosso rei]: “Aseh imanu tzadaka v’chesed v’hoshi’einu[Faça-nos justiça e nos dê compaixão, e nos conceda a salvação]. Mesmo sem um pingo de religiosidade na mente me arrepio toda com as palavras e a melodia dessa canção invocativa, que escuto todo ano, apenas uma vez por ano, desde que aprendi a falar.

Por falar em honrar os mortos, há uma outra passagem no mesmo texto que estou mencionando, na verdade na mesma frase, na qual o autor afirma que “no judaísmo não existe tampouco a ideia do esquecimento”, e nisso ele está coberto de razão. O judeu é treinado para não esquecer, e mesmo os momentos de maior felicidade, como o casamento, são temperados de memória, como o ato de quebrar o copo, que lembra a destruição do primeiro templo de Salomão pelos babilônios. E, cá entre nós, por que haveríamos de esquecer? A memória é a “pièce de resistence” de qualquer cultura, e um dos males mais terríveis que nos assolam na era digital é a falta de cultura, isto é, de memória. Todo mundo parece confiar e acreditar que a memória do Google nos basta, mas outra parte essencial da memória é sua carga emocional, coisa que o Google não pode nos proporcionar.

Quem não conhece a história está condenado a repeti-la, e por que não dizer, a deturpá-la e usá-la de forma equivocada, como temos presenciado com lamentável frequência num mundo onde “qualquer pessoa pode ser comparada a Hitler”.

Não custa nada lembrar que a impressionante figura de Jesus Cristo se trata, nada mais nada menos, que de um bom judeu, e boa parte das tradições cristãs são tradições judaicas adaptadas. O “dia do perdão”, imagino, acabou transformado no ato da confissão, praticado com mais frequência e onde o perdão é concedido não pelo “ser superior”, mas por seu representante aqui na Terra mesmo.

Fundamental, meus caros. O ser humano é intrinsecamente tão errado que dificilmente sobreviveria sem a oportunidade de buscar e receber um perdão periódico por seus atos e pensamentos equivocados, pensem bem.

“Errar é humano”. Mas “perdoar é divino”.

Mamãe, de saudosa memória, nos últimos anos de sua vida, após ter sofrido um bocado, deixou de lado a tradição milenar de jejuar no Yom Kipur porque “não tinha mais pecado”.

Já eu, embora tenha jejuado por vários anos, nunca tive pecado, já que para mim “não existe pecado” nem ao sul, nem ao norte do Equador. Quer dizer, não concebo a ideia de pecado baseada num código de fé que considero ultrapassado. Mas não se passou um ano de minha vida em que não tenha me dedicado, durante esses dez dias abençoados, a fazer um balanço do ano que termina.

E isso, quero crer, me ajuda a seguir vivendo.

Por isso, este ano, mais do que nunca, e embora o ato de refletir esteja se tornando quase impossível, já que todo o nosso tempo mental se encontra ocupado pelo vício na tecnologia e pela energia sugadora das redes sociais, recomendo que vocês também reflitam, e pratiquem, além disso, o cada vez mais raro discernimento.

Aos leitores do nosso Portal, peço desculpas por ter deixado passar um ato tão falho que para ele não existe contrição possível. Não só os judeus conhecem e praticam o perdão, como vou mais além: ouso dizer que o inventaram.

G’mar hatimá tová. Que no próximo sábado, Dia do Perdão, este ano ainda mais especial por cair num sábado — Shabat shabatot, o “sábado dos sábados” — o Senhor inscreva o nome de vocês no Livro da Vida.

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2 Resultados

  1. Vânia Gomes disse:

    Linda crônica e bastante reflexiva. Nesses tempos superficiais, é difícil encontrar espaço para nos aprofundarmos em reflexões tão importantes como essa, que vai fundo na nossa humanidade. O sacramento da Confissão é importante para os católicos, mas de nada vale se não há arrependimento e, igualmente, se não soubermos, nós mesmos, praticar o perdão. Eis o grande desafio.
    Feliz ano novo!

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