Arte. Desejo. Atenção. Perigo!

 

Adriana Varejão no Queermuseu

Obra de Adriana Varejão no “Queermuseu”, “exaltando” a pornografia e a zoofilia (detalhe).

Neste fim de semana, tendo me comprometido com uma amiga a colaborar com seu projeto de arte, decidi, após cuidadosa reflexão, retirar meu oferecimento.

Foi muito difícil. Além de ser “um animal político”, como me classificou generosamente a minha amiga, sou também, e fundamentalmente, um bicho da arte, e acredito que a arte é o espaço máximo da liberdade. E também da provocação, da polêmica, da discussão da realidade. Mais ainda: a arte é o campo da experimentação onde se fermenta o futuro e se determina a distinção entre o bem e o mal, entre o bom e o ruim, entre o belo e o feio. E não se trata de uma distinção acusatória, ou eivada de preconceito, mas aquela distinção limpa e conclusiva que se atinge após longa reflexão.

A arte, por exemplo, costuma ser contra o governo , contra a moral vigente, contra as instituições. E assim tem sido desde que a arte é arte.

A arte é o espaço do sagrado, muito além das religiões. A arte é o espaço do diálogo elevado entre o homem e si mesmo, entre o desejo do homem e seu mais evoluído componente espiritual.

Se não for assim, não é arte, mas uma indevida apropriação, que não consegue escapar ao clichê, seu exato oposto.

No entanto, hoje em dia — e não se trata em absoluto de algo recente — tornou-se muito difícil reconhecer o que é arte verdadeira. A arte despiu-se da necessidade de um talento para o desenho, para a reprodução da realidade em pinceladas de óleo sobre a tela; confundiu-se  com o espaço da performance (ou dele se apropriou), através, por exemplo, do conceito de “instalação”.

E é exatamente aí que se encaixa o projeto da minha amiga: uma instalação. Não vou dizer qual o tema da discussão porque não me interessa identificar o trabalho, ao qual ela tem pleno direito, apenas a situação.

Ocorre que essa minha amiga, que conheço há muitos anos, está perfeitamente inserida num contexto aqui nos Estados Unidos que resume tudo, ou quase tudo o que tem me desagradado no atual estado mental que atravessa o país e que, ouso dizer, daqui se propaga para todo o planeta. É contra o governo e acredita que Donald Trump é responsável por todos os males do mundo; acredita que é possível se mudar de sexo e se tornar mais feliz através da automutilação e medicação extremada, atos que permitem a uns poucos iludidos acreditar que podem ludibriar a natureza; acha que o islamismo contém uma espécie de “moralidade superior”, à qual devemos prestar tributo por alguma razão misteriosa; e defende a noção de que a tentativa de disciplinar a crucial questão da imigração ilegal é cruel e criminosa.

Claro que a minha nada acurada descrição do ideário da minha amiga, além de conter elementos do meu próprio ideário, é caricata e incompleta. Não deve chegar nem perto da profundidade de seu pensamento e dos motivos profundos que a levam a ser artista, e, provavelmente, a usar sua arte para defender seus pontos de vista. E é justamente esse ponto que quero levantar no editorial de hoje.

Não posso ter certeza, apesar de ter solicitado uma descrição detalhada, de para onde irá o projeto da minha amiga, nem do destino que trilharia o meu depoimento, que uma vez nele inserido adquiriria vida própria. Mas posso fazer uma boa ideia, com base no que ela me disse e no que tenho visto ocorrer aqui no dia a dia. Uma artista tem todo o direito de exercer sua liberdade criativa. Por outro lado, também decidi me conceder o direito de não colaborar com um projeto que, uma vez terminado, iria contra as minha crenças mais arraigadas neste momento.

O que me leva à questão do meu comentário publicado ontem, no Facebook, sobre a polêmica em torno da exposição “Queermuseu”, montada no Centro Cultural Santander de Porto Alegre e fechada neste fim de semana, um mês antes da data marcada para seu término.

Sim, meus amigos, vou retirar boa parte do que disse.

Não estou no Brasil. Mas mesmo que estivesse, não iria a Porto Alegre para visitar a tal exposição. Quantas pessoas, dentre aquelas que a boicotaram, e criticaram, atacaram com violência seu conteúdo artístico sequer o viram, com exceção de uma ou outra imagem, como o desenho caricato e malfeito, fora do contexto, onde se via a inscrição “criança viada”? Como lembrou a crítica de arte Daniela Name, em seu artigo n’O Globo, “os cidadãos de bem comentavam, mesmo sem ter visto”. Eu incluída, e por isso volto atrás em minha estreiteza.

O lamentável desfecho a que foi conduzido esse caso, altamente representativo do estado de histeria coletiva em que se encontra a nossa sociedade, poderia muito bem ser descrito com aquela metáfora do cego que apalpa um elefante. Muitos viram apenas o rabo (literal e metaforicamente), e ali se detiveram, analisando o pelo, o comprimento, e o que há por trás, digo, por baixo daquela vara viva. Detectaram apenas o orifício, talvez mais de um, mas não se preocuparam em buscar o conjunto monumental do impressionante animal, algo impossível quando não há uma visão total, nem distanciamento suficiente para entender o que está sendo visto. Na minha ânsia de condenar o transgenerismo e os abusos relativos à noção de gênero, algo que tornei de certa forma minha “missão”, pisei na bola de verdade.

Neste momento, continuo sem ver a totalidade das obras, mas pesquisei um pouco e li mais a respeito. Não se trata, como eu pensava antes, de um apanhado de obras improvisadas com o objetivo de defender a temática queer — que, quero deixar claro, continuo deplorando, e acreditando que tem tido um efeito prejudicial em nossa sociedade — de qualquer maneira, com obras grosseiras, mas de uma curadoria que inclui alguns de nossos maiores artistas, mortos e vivos, como Lygia Clark, Leonilson, Adriana Varejão.

Foi arrepiante ver Adriana Varejão, por exemplo, qualificada como zoófila por pessoas que, até ontem, eu julgava esclarecidas e intelectuais. Foi nauseante ver gente embarcando sem nenhuma hesitação nos argumentos toscos do vídeo reproduzido no Estadão, no qual pessoas cujo nível de cultura está próximo de zero criticaram as obras por eles rotuladas como “pedofilia”, “pornografia”, e… já esqueci o resto. Um amigo cujas opiniões respeito muito — e, graças a Deus, continuo respeitando — descreveu o trabalho da Varejão da seguinte forma: ” A obra mais polêmica, que retrata a zoofilia e homoerotismo, é da Adriana Varejão. Um pintura espetacular, que recria as situações narradas do período colonial com a estética das pinturas e desenhos Shunga do período Edo do Japao (1603-1867). Essas pinturas já foram expostas no British Museum, no Musée Guimet e no MAK de Vienna. São respeitadíssimas e cultuadas hoje no mundo inteiro, e em Tóquio existe um museu dedicado a elas”.

Francamente, me senti mal. Fiquei com vergonha de mim mesma e do meu julgamento apressado, baseado com toda certeza em disse-me-disse de Facebook. Deveria ter ficado na primeira frase do meu post, “Estou completamente por fora dessa polêmica sobre o Queermuseu”. Nunca deveria ter me aventurado até o “vou dar o meu pitaco”, pelo menos não antes  de pesquisar e buscar informação. Felizmente, em algum momento do post, mencionei a “arte degenerada” do período nazista, e pelo menos me resta o consolo de ter tido tal discernimento prévio para me redimir.

Estamos todos nos transformando em animais radicais, binários — não no sentido de sexo, mas de pensamento preto no branco — ignorantes e desrespeitosos do desejo alheio.  Fascistas, sim. Fundamentalistas. Cortadores de cabeças. E isso é uma tremenda vergonha.

Lamento se decepciono meus muitos amigos e poucos seguidores que não gostaram quando me desculpei pela minha própria ignorância ontem à noite no Facebook. Mas me recuso a me tornar justamente o tipo de pessoa que venho criticando por seu autoritarismo e falta de abertura.

Sou conservadora, mas não sou castradora. E tenho dito. O fechamento da exposição “Queermuseu” é mais uma vergonha para o Brasil.

Em tempo: originalmente, antes de ser distorcida pelos progressistas, a expressão “queer” queria dizer “estranho”,  “bizarro”. Neste sentido, a exposição pode ser vista não como “exaltação”, mas como “visão crítica” dessa situação.

A íntegra do meu “depoimento” no Facebook:

Estou completamente por fora dessa polêmica sobre o Queermuseu, mas vou dar o meu pitaco. É difícil definir o que é e não é arte hoje em dia. Só os curadores e patrocinadores da exposição podem decidir isso, e, por óbvio, apenas no que se refere a eventos específicos dos quais participam. A arte contemporânea em sua melhor expressão foi considerada “degenerada” na Alemanha nazista, e não era “agradável de se olhar” nem muito menos “enlevava a experiência humana”, como li no pedido de desculpas do Santander. Só o tempo pode dizer o que tem valor ou não e a arte tem também, sim, um forte componente político e social. Discordo de que o fato de a exposição “ser ofensiva” para determinadas pessoas deva determinar seu destino, mas entendo o Santander, que apesar de seu discurso humanista tem como objetivo primordial fazer dinheiro e divulgar o seu banco. Discordo também de que tal exposição deva ser financiada por dinheiro público. E, sobretudo, ATENÇÃO, discordo da premissa de que “essa exposição traga uma temática importante para se pensar o mundo hoje”. Aí é que está o xis do problema: a problemática queer não é importante para se pensar o mundo de hoje. É completamente irrelevante, ao contrário do que querem nos convencer. E como tal deveria ser tratada. Quem discordou da tal exposição e achou que era lixo não deveria ter ido visitá-la e deixado que fracassasse por si. Mas hoje em dia tudo tem que ter barulho, boicote e ativismo. Chega às raias do insuportável e dá força àquilo que não queremos reforçar. Agora, a tal arte queer passou a ser vítima, mártir, “elevada” pela “censura” à liberdade de expressão. Perderam a batalha, mas estão ganhando a guerra! (Nas fotos, os fantásticos e “degenerados” George Grosz, “Natureza Humana”, e Otto Dix, “Pragerstrasse”, circa 1920)

Foto: Reprodução.

https://www.washingtonpost.com/entertainment/museums/gender-diversity-art-show-closed-over-protests-in-brazil/2017/09/11/3d0019f4-9720-11e7-af6a-6555caaeb8dc_story.html

https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/artigo-nao-ha-arte-possivel-para-gente-de-bem-21810164

http://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,exposicao-sobre-diversidade-sexual-e-cancelada-apos-repercussao-negativa,70001983960

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