A malha médica americana e a saúde mental da família humana

 

Noga na praia

Meu eu criança na praia, de nariz branco, circa 1960.

Este fim de semana, estou terminando a edição de um livro infanto-juvenil bem original, sobre aquele velho assunto da “devastação” que está sendo causada ao planeta pelos malditos seres humanos, incluindo a poluição, o esgotamento dos recursos naturais e o já clássico aquecimento global. O livro, que tem uma linguagem bacana, sem tatibitate, e explica com graça e inteligência alguns conceitos e verdades fundamentais da ciência, vai ser ilustrado por uma artista maravilhosa, que já trabalhou para a KBR em outras ocasiões. Não vai sair pela KBR. Será uma edição independente, publicada pelo próprio autor, mas com todo o cuidado de uma editora profissional.

Estou curtindo bastante fazer esse trabalho. Mas, quase no final do livro, comecei a me sentir meio indignada com essa disposição generalizada de assustar as crianças, no sentido de convencê-las de que seus pais e todos os demais adultos estão seriamente empenhados em sabotar seu futuro, na linha “que mundo deixaremos para os nossos filhos”.

É de pequenino que se torce o pepino. O autor, que não é nada inocente, percebe exatamente o que está fazendo, e entrega de bandeja o estado mental de nossa sociedade ocidental, afirmando a certa altura, quando se refere aos temidos humanos (todos os personagens do livro são insetos humanizados): “Não deixe que a cultura dos bípedes gigantes modifique a sua personalidade. Eles podem ser muito eloquentes, com seus livros, filmes e suas teorias, mas vivem com medo!”

“Bípedes gigantes” somos nós, e a frase é dita por uma traça, esperta devoradora de livros como não poderia deixar de ser.

Em alguma medida, essa história me lembra a daquele menino chorando na escola, desesperado, em estado de pânico, depois de assistir a um vídeo onde se afirmava que o mundo estava em vias de extinção porque as pessoas “jogavam lixo nas ruas”. Sem querer, porque creio que muito do medo que sentimos nos é instilado sem que disso tenhamos consciência, o livro em questão pode estar inserido na “nova onda” atualmente em voga, na qual adultos desarvorados e empreendimentos comerciais inescrupulosos estão avançando em direção a um mercado inédito e extremamente promissor: o de “prevenção” para crianças pequenas e bebês.

Não estou brincando. Aqui nos Estados Unidos, corta o coração ver mães “conscientes” submetendo crianças de cinco anos de idade a “tratamentos” para que vivam “mais felizes” com suas opções sexuais ou “conformidade de gênero”. Freud, que começou com essa coisa toda de pôr o sexo no centro da vida, deve estar se revolvendo na tumba: “O que eu fiz, meu Deus?”

Em outro “avanço”, um laboratório bacana sediado na França está iniciando sua campanha para “prevenção de câncer de pele em crianças e bebês”, incentivando o uso de filtros solares e outros produtos químicos para a pele praticamente desde o nascimento. De acordo com o conhecimento científico alegado por essa campanha, crianças jamais devem ser expostas ao sol antes dos três anos de idade; depois disso, jamais sem o filtro solar “especialmente desenvolvido” para a faixa de idade, sob o risco líquido e certo de adquirirem câncer de pele mais tarde.

Francamente, se banho de sol sem filtro solar na infância causasse melanoma, minha geração inteira não teria passado dos 30. Pelo menos no Rio de Janeiro não haveria ninguém vivo na minha faixa de idade. Ninguém sobreviveria ao rústico (e típico) nariz branco, coberto de “Pasta de Lassar”, ou, pior, à pele do rosto, ombros e costas no “tom vermelho de verão”, sempre “descascando”. Eu, pelo menos, tive inúmeros verões nos quais me queimei e curti “descascar”.

Certamente, alguns de meus contemporâneos, e até algumas pessoas que conheço, são vítimas de melanoma, infelizmente. Mas nada tão generalizado como estão querendo nos fazer acreditar. Por outro lado, desde que eu era criança, a ciência médica evoluiu muito, inclusive na prevenção e tratamento do “Big C”.

Não sou contra, por óbvio, a  prática de advogar bons hábitos e investir na saúde do futuro, tanto do planeta como das pessoas que o habitam, mas, me desculpem, não suporto mais viver numa sociedade regida pelo medo. Onde foram parar o prazer, os bons momentos, as múltiplas coisas boas que a civilização contemporânea nos proporciona?

Ok, eu sei. Não devo tirar os outros por mim. É bem verdade que, apesar de ser ligeiramente neurótica e hipocondríaca, sou em geral avessa a “prevenções” e tenho verdadeira ojeriza a médicos, embora me interesse por “pesquisar doenças no Google” como todo mundo. Mas esta semana, vencendo a minha resistência, tive uma boa experiência quando, finalmente, decidi adentrar a “malha médica” de Greenville como era minha obrigação como… não-cidadã americana, pelo menos por enquanto.

Em janeiro deste ano, imaginem, pelo simples fato de ser casada com um americano (não sei se o direito é extensivo a outros portadores de Green Card, mas é bem provável), tornei-me detentora do Medicare, seguro-saúde para pessoas com mais de 65 anos de idade, e tinha um ano para me submeter a um exame médico inicial obrigatório.

Escolher um médico para o “resto da vida” é mais um problema num país estrangeiro. Como confiar em alguém, se você não tem ninguém para lhe recomendar um bom profissional de saúde? Alan já tinha encontrado um. De certa maneira, deu “sorte”, porque, logo que chegamos aqui, teve uma emergência de pressão alta, e no posto de saúde onde foi atendido a doutora indicou um clínico geral e fez com que ele passasse na frente da “longa fila”.

Tal longa fila, devo esclarecer, não tem nada a ver com as longas filas no atendimento em postos de saúde no Brasil. Trata-se, ao contrário, de uma razoável espera para conseguir uma hora com um médico de sua escolha quando não há nenhuma urgência. Na clínica de emergência, Alan esperou menos de cinco minutos. Uma vez medicado e atendido, marcou sua hora para dali a uma semana, e quando chegou a minha vez, tive que esperar menos de 10 dias.

Desde então, Alan tem ido a esse médico, mas, por “razões de privacidade”, não queria que eu frequentasse o mesmo consultório. Cá para nós, nem eu queria. Nunca vi esse médico mais gordo, mas não simpatizo nem um pouco com certas medidas que ele adotou para o meu marido.

Onde iria? Pensei em perguntar aos novos vizinhos de condomínio, mas acabei… na internet. Visitei os perfis de vários médicos do sistema de saúde de Greenville, com foco numa clínica aqui perto, e acabei optando por uma “médica osteopata” com um rosto e uma voz bem simpáticos (o sistema tem vídeo), et voilà, ela estava “recebendo novos pacientes”.

Marquei a hora, não sem alguma preocupação. O que seria um “médico osteopata”? De acordo com minha pesquisa, trata-se de um médico com a mesma formação que os outros, apenas com foco em “saúde integral” e com uma filosofia menos intervencionista. Achei positivo saber que na primeira consulta “não receitavam narcóticos”, um mal nacional aqui nos Estados Unidos. Mas, por outro lado, fiquei meio apreensiva ao ler na “cartilha osteopata” que primam por recomendar “medidas médicas para transgêneros”.

Enfim, hoje em dia somos todos obrigados a lidar com tais idiossincrasias. Sem escapatória. A consulta, que teve lugar na última quinta-feira, foi bem “light”. Me ofereceram uma vacina contra pneumonia, devido à minha idade, mas tive o direito de recusar. A médica, realmente muito simpática, apenas conversou comigo, auscultou o meu peito e me pediu para respirar. Em seguida, recomendou uma colonoscopia e uma mamografia, porque “é o padrão para a minha idade”. Tudo de graça. Embora, devo esclarecer, o Medicare cubra “apenas 80% dos seus gastos médicos” e seja necessário um seguro extra para quem precisa de medicamentos caros e os toma regularmente. Antes de ter tal seguro, que custa em torno de 30 dólares por mês, o Alan, por exemplo, chegou a pagar uma verdadeira fortuna por seus remédios para pressão alta, pelo menos três vezes mais caros do que similares no Brasil. Antibióticos, em geral, são gratuitos. E há outras opções interessantes, como o aplicativo “Good Rx” que dá descontos substanciais sem que se precise pagar nada. Graças a Deus, não faço ideia do que acontece quando alguém precisa dos caríssimos medicamentos modernos para tratar o câncer, por exemplo.

Voltando à minha consulta: felizmente, pude optar por recusar ambos os procedimentos, que acho desagradáveis e invasivos. Limitei-me ao tradicional exame de sangue, e mesmo para este consegui evitar voltar no dia seguinte, porque já haviam se passado sete horas e meia desde que havia tomado café (o exame de glicose recomenda um jejum de oito horas).

Ainda não recebi o resultado dos meus exames. Mas, devo admitir, “na minha idade”, me sinto bem de ter uma médica a quem recorrer em caso de emergência, alguém em que possa confiar e para quem possa telefonar. E tudo 80% de graça, imaginem.

Alguém acredita que um país que proporciona tais cuidados a uma reles estrangeira “idosa” pode ser realmente um lugar horroroso para se viver, com uma política nojenta, onde impera o capitalismo selvagem, a destruição sistemática do planeta, o racismo, e a xenofobia? Um país, como li hoje mesmo numa coluna n’O Globo, que está vivendo um “momento pós-apocalíptico”, graças a Donald Trump, à ameaça nuclear de Kim Jong-un e a uma série de inéditos furacões causados pelo aquecimento global?

Think again. Não basta nos protegermos dos exageros da “malha médica”, como recomendava o saudoso (e cardíaco) João Ubaldo. Ao que parece, devemos também aprender a nos defender da radical e frequentemente mal-intencionada “malha da mídia”, da “malha comercial” e, claro, da ubiquidade das redes sociais. Vale sempre, como recomenda a filosofia zen, adotar o “caminho do meio”, cada vez mais difícil de ser trilhado.

Bom domingo!

Para ler mais Noga de Sklar, clique aqui.

Para comprar o livro mais recente de Noga Sklar, clique aqui.

2 Resultados

  1. Vânia Gomes disse:

    Nossa! Essa coisa de proibir bebês de tomar sol é perigosa! Crianças precisam de sol, isso influência diretamente no metabolismo da vitamina D e no desenvolvimento dos ossos! Que “médicos” são esses? No Brasil, vivemos uma “epidemia” de deficiência de vitamina D, imagine, com tanto sol que temos aqui.