Coragem etílica

 

Janot e o advogado de Joesley

Janot e o advogado de Joesley “flagrados” num bar em Brasília.

Gosto de provérbios e ditos populares, simplesmente, porque expressam com precisão a alma e as atitudes humanas. Um provérbio judaico diz que “o bêbado fala o que o sóbrio pensa”. Há também um antigo provérbio latino que proclama “in vino veritas” — no vinho, a verdade (tradução livre). A ciência comprovou ambos os provérbios em 2011, com o trabalho de um grupo da Universidade de Missouri, nos Estados Unidos, publicado no Journal of Abnormal Psychology. Uma das conclusões do estudo é que o álcool faz as pessoas terem menos cuidado com suas atitudes, mas não as faz inventar nada. Provavelmente, se sentem mais livres para dizer a verdade, ou exatamente o que pensam. Portanto, seja do ponto de vista da tradição ou da ciência, a desculpa usada por Joesley Batista e Ricardo Saud de que estavam bêbados é esfarrapada. A bebida apenas lhes deu coragem para dizer abertamente o que jamais diriam sóbrios.  Assim, devido à sua coragem etílica, os protagonistas do áudio começarão a semana vendo o sol nascer quadrado. Finalmente!

A passagem de Rodrigo Janot pela Procuradoria Geral da República deixa marcas indeléveis. O Brasil nunca mais será o mesmo, simplesmente porque o PGR encarou a corrupção como ninguém antes, deixando para trás a alcunha de “engavetador geral da República”. E porque Janot, inclusive, não coaduna com erros, é que foi revista a colaboração premiada da JBS. O magistrado voltou atrás numa decisão — uma qualidade, em se tratando de um homem poderoso.

O áudio revela o desprezo de Joesley por nossas instituições e, francamente, não acredito que seja o único empresário brasileiro a pensar dessa forma. Desde que o áudio veio à tona, e estimulou Janot a rever o acordo, percebemos que a mídia começou uma campanha para desqualificar tanto o PGR quanto o instituto da delação premiada. E se, ao contrário, Janot não mexesse no acordo e ninguém ficasse sabendo do conteúdo dos áudios?

Parece haver uma inversão de valores quanto às decisões do PGR, amplamente semeada pela mídia, especialmente pelo Estadão e O Globo. Janot fez o certo: reconheceu o erro do acordo de colaboração premiada, verificou que o MPF tinha sofrido um abuso por parte dos meliantes e, sem medo das consequências, reviu o acordo e pediu a prisão dos protagonistas, e também de seu ex-braço direito.

O entendimento do Ministro do STF Luís Roberto Barroso, no entanto, é diferente do da mídia. Para ele, Janot agiu corretamente ao abrir investigação sobre a delação premiada da JBS. E mais, Barroso entende que não há outra forma de revelar os esquemas corruptos, a não ser pela delação premiada.

O sistema judicial trabalha com base em provas. É óbvio que a JBS é parceira de Lula e do PT, mas disso Joesley deu apenas pistas, um pequeno aperitivo dessa relação; o alvo da delação era outro. Parece que agora há fartas evidências de que o meliante-mor da nação omitiu fatos. A Justiça e também nós, cidadãos, queremos saber mais. Queremos saber tudo, a exemplo do ocorrido com a Odebrecht que, parece, está cumprindo com o dever de casa humildemente. Os Batistas, ao contrário, ludibriaram o MPF, a Justiça, e o povo brasileiro. Tudo foi cuidadosamente calculado. E estavam tão seguros de si que se descuidaram na entrega do áudio. Que sorte!

Como Fachin não decretou a prisão de Marcelo Miller, parece haver dúvidas quanto à sua atuação nas mentiras e omissões descobertas recentemente. De qualquer forma, o caso de Miller ainda exibe outro colorido: é o agente público que, detendo informações privilegiadas, partiu para o setor privado. É bom que se saiba que não há lei que o impeça de fazer a troca de emprego sem um período tampão. A legislação vigente prevê que os membros do sistema judicial, ao se aposentarem, tenham que passar por uma “quarentena” antes de assumirem funções no setor privado, mas esse período não é previsto para quem pede exoneração. Portanto, é possível que o Ministro Fachin esteja agindo com cautela antes de decretar a prisão de Miller, pois parece que as evidências não são suficientes para afirmar que houve uso de informações privilegiadas para ajudar seus clientes, antigos acusados.

O álcool também é boa desculpa para provocar encontros “fortuitos”. É sabido que Janot tem o hábito de passear pelo comércio local de uma área nobre de Brasília. Ele o faz de cara limpa, na boa, deve ser perto de onde mora. Pois o advogado de Joesley foi importunar o passeio de Janot e fez questão de se sentar com ele num bar. Janot não parecia nada feliz com o encontro que o “acaso” tinha providenciado: não compartilhou a cerveja, nem sequer tirou os óculos escuros e não escondeu a cara de enfado — a imagem do desprezo. Já o advogado estava com cara de quem tinha passado a noite em claro, tentando descobrir o que fazer para livrar seu cliente da cadeia — a imagem do desespero. Foi tirada uma foto da “reunião” e, segundo o jornalista Cláudio Humberto, suspeita-se de que o registro foi providenciado por alguém ligado ao defensor de Joesley.  Aliás, parece óbvio: notem que o advogado olha para a câmera, meio de canto de olho. Mais uma jogada para desacreditar o nosso PGR, que não se intimidou ao demonstrar sua insatisfação.

E que tal se Lula tomasse uns gorós antes de depor ao juiz Moro, essa semana? Será que ficaria mais à vontade e soltaria a língua? Será que admitiria seus crimes? Será que zombaria de todos, como provavelmente faz no âmbito privado, e como Joesley e Saud demonstraram no áudio?

Seria muita sorte a nossa.

Bom domingo procês!

Foto Anônima, via “O antagonista”.

http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,fachin-atende-a-pedido-de-janot-e-determina-prisao-de-joesley-diz-site,70001981987

https://oglobo.globo.com/brasil/fachin-determina-prisao-de-joesley-ricardo-saud-21805320

http://www.diariodopoder.com.br/noticia.php?i=87725239018

http://www.diariodopoder.com.br/noticia.php?i=87723684240

O artigo científico sobre os efeitos do álcool tem acesso livre: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4254813/#

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