Malas, caixas e caixões

 

A visão da montanha de malas de dinheiro pertencentes a Geddel Vieira Lima não me impressionou. Fiquei pensativa. Constatei que malas de dinheiro não são elementos só dos filmes de ação, fazem parte da vida real de políticos brasileiros. Cueca é para amadores.

O que realmente me abalou foi outra mala. Um caixote, na verdade. Na adolescência, fiz uma excursão escolar para o Museu do Crime, na USP. Lá me deparei com fotos dos crimes cometidos por Chico Picadinho e a reprodução do famoso “Crime da Mala”, que aconteceu em 1928, em São Paulo: o italiano Giuseppe Pistone assassinou a esposa Maria Fea e tentou enviá-la picadinha para a Europa, de navio, dentro de uma mala.

Os pedaços de Maria Fea dentro da mala me impressionaram. É provável que Elize Matsunaga também tenha visitado o museu. É provável também que não tenha se impressionado tanto quanto eu.

Voltando a Geddel, o que me choca é que suas “traquinagens” são conhecidas desde que ele entrou para a vida pública. Ele deita e rola desde a década de 1980, quando suas ombreiras, polainas e pochetes já viviam recheadas. Até no mullet tinha cruzeiro escondido. É inacreditável que o Ministério Público, a Polícia Federal, o Mário Fofoca, uma CPI ou o que quer que seja não tenham notado o crescimento exponencial do patrimônio de Geddel.

Após décadas e décadas de roubo, ele acaba confinado em prisão domiciliar por “obstrução de Justiça”. É como prender o maníaco do parque porque ele foi flagrado derrubando uma árvore. Ou prender um assaltante de banco dirigindo um carro-forte com R$51 milhões sob a alegação de que passou no farol vermelho no momento da fuga.

A Justiça brasileira é uma caixinha de surpresas. Ineficiente, obsoleta, ridícula.

Logo que Geddel foi “preso”, em julho, acusado de obstruir investigações, o “Fantástico” fez uma reportagem sobre as propriedades do ex-ministro. Geddel é dono de 12 fazendas de gado em sete municípios da Bahia. A maior dela tem 1.027 hectares, e vale hoje mais de R$ 7,5 milhões. As 12 propriedades juntas somam mais de 9 mil hectares e valem cerca de R$67 milhões. O restante dos bens está em Salvador e arredores: carros de luxo, casas à beira da praia e até um restaurante. O mistério é que, em todos os casos, os imóveis foram declarados por um preço bem abaixo do mercado.

Localizei uma matéria na Folha de S. Paulo em maio de 2000. “Os preços não batem com a realidade”, já dizia o fazendeiro Valter Moreira, que tinha terras havia mais de dez anos no local. Mais: “As últimas cinco aquisições feitas pela família coincidem com o período em que o pai do deputado Geddel, Afrísio de Souza Vieira Lima, assumiu a presidência da Codeba (Companhia das Docas do Estado da Bahia, em agosto de 1995), e Geddel, a liderança na Câmara”.

Em 1994, quando se iniciava na política, Geddel declarou uma lista de bens bem modesta: uma linha telefônica, uma Paraty 89, um título de um clube e apenas 120 hectares de terra. Antes disso, em 1984, estreando na vida pública, tornou-se diretor do Banco do Estado da Bahia. Primeira denúncia: acusado de desviar R$3 milhões para favorecer parentes. Em 2001 foi inocentado desse crime. Em 1991, se elegeu deputado federal. Dois anos depois foi apontado como um dos “anões do orçamento” e absolvido novamente. Em 2007 assumiu o ministério da Integração Nacional na gestão Lula. Em 2011, com Dilma, virou dirigente da Caixa Econômica Federal. Já no governo Temer, durou pouco, apenas seis meses. Indicado como secretário de governo, foi acusado de pressionar o ex-ministro da Cultura, Marcelo Calero, a liberar a construção de um prédio em uma área protegida em Salvador.

No pedido de prisão, o Ministério Público Federal afirma que Geddel é um “criminoso em série”.

Ao ouvir que ficaria detido em prisão domiciliar, Geddel chorou. Pobre Geddel, tome um lenço. Posso ter perdido a capacidade de me chocar, mas não a de me indignar.

A primeira denúncia contra Geddel é de 1984. De lá até hoje, nenhuma investigação, nenhuma desconfiança? Tudo na maior normalidade. É como se Geddel fosse mais um deputado em Brasília.

Ricardo Boechat, também indignado no rádio esta semana, pesquisou os dez maiores assaltos da história do mundo. O praticado por Geddel aparece em sétimo lugar na lista (vamos fazer de conta que o crime só se restringe às malas de dinheiro encontradas no apartamento). Há quem diga que aquela dinheirama toda seria redistribuída. Se Geddel deixar as lágrimas de crocodilo de lado e revelar que bocas de jacaré alimentaria com tudo aquilo, nem sei o que pode acontecer com o país. Vai faltar mala.

Foto Reprodução/ Museu do Crime

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1 Resultado

  1. Joubert disse:

    Ao que parece, Geddel, esse “mala”, é uma espécie de “office boy” do PMDB. Com a devida vênia aos office boys, por favor.