O privilégio e os privilegiados

 

Richard BransonNão adianta. A regra do mundo é que, em qualquer situação em que a gente se encontre, sempre haverá os privilégios e os privilegiados.

No momento, por exemplo, várias regiões do globo estão passando por aflições. O furacão Irma segue seu caminho. Já trouxe devastação ao Caribe e se aproxima da Flórida incólume e inalterado. Trata-se, segundo a mídia, do “maior furacão da história”, do lado do Atlântico, pelo menos. Enquanto isso, o “maior terremoto dos últimos 100 anos” atingiu o México na noite de ontem, enquanto o país também se encontrava na rota de outro furacão, o Katia. Miséria pouca é bobagem.

Dá para identificar um padrão nessas notícias?

Não é difícil para mim. Tudo está SUPERLATIVO hoje em dia, e nunca no bom sentido. Não li em nenhum jornal que, por exemplo, “as lavouras nos Estados Unidos nunca produziram tanta verdura, há fartura, as frutas estão doces e as rosas perfumadas como nunca antes na história”.

Só um exemplo.

Cada vez mais, o que interessa para mim são os relatos humanos, pessoais. Quanto ao furacão Irma tivemos hoje a rara oportunidade de ler uma crônica da excelente colunista aqui do Crônicas, Clarisse Mello. O texto pungente da Clarisse é bem como a vida, com altos e baixos, dores e alegrias. Embora amedrontada pela força anunciada da tormenta, Clarisse optou por não deixar sua casa e está preparada para enfrentar as consequências de seus atos, isto é, de ter optado por permanecer “na área”. Conformada em passar alguns dias isolada, sem gasolina, sem eletricidade e sem telefone, com água engarrafada e comida estocada, faz planos de passar os dias lendo e escrevendo na escuridão provocada pelo furacão, dentro e fora de casa, já que foi obrigada a fechar todas as janelas com venezianas antifuracão de metal para se proteger.

Há forças que podemos enfrentar, e outras com as quais devemos nos conformar.

O arquibilionário Richard Branson, por exemplo, que é “Sir” e fez sua fortuna, acreditem, vendendo discos (na era do vinil), também se preparou para enfrentar o furacão, só que, devido ao seu privilégio e recursos ilimitados, contava com um bunker usado em dias normais como uma adega sofisticada. Quer dizer, enquanto a devastação comia solta lá fora (Richard mora numa ilha particular no Caribe), o empresário da Virgin e seus funcionários se deleitavam jogando dados (sem alterar o destino) e bebendo bons vinhos.

Depois da tempestade, virão a limpeza e a longa recuperação. Alguns terão perecido, outros perdido tudo o que possuíam. Branson, por exemplo, não terá dificuldade alguma neste quesito. Ainda que encontre uma total devastação em seu território ilhado, não lhe faltarão recursos para reconstruir tudo, e muito melhor. Aqui nos Estados Unidos, por outro lado, embora muita gente vá ficar afetada, como já ficaram tantas pessoas por conta do furacão Harvey, haverá recursos para consolar as vítimas e reconstruir o que tiver sido perdido. Não é o que aconteceria, já aconteceu e acontecerá de novo no Haiti.

Privilégio não é crime, nem vergonha. Pode, por outro lado, ser sinal de intuição apurada e inteligência. Por isso, há duas coisas me irritam no atual estado de coisas. Uma é, como já expliquei, tentar tornar tudo pior do que já é, o que inclui um tuíte do próprio Branson reforçando a ideia, falsa ideia, de que a atual temporada de desastres naturais se deve ao aquecimento global. Outra é a firme disposição demonstrada por progressistas nos Estados Unidos de destruir os privilégios de que gozam em seu país.

A desculpa? Uma culpa intrínseca e a crença absurda de que ser pobre e desgraçado é mais nobre do que ser privilegiado, no caso citado habitante de um país democrático de primeiro mundo.

Já dizia Joãosinho Trinta: “Quem gosta de miséria é intelectual”.

Quer miséria  e igualdade na falta de privilégios, esquerdista americano? Mude-se para o Haiti.

Foto Virgin

http://www.cnn.com/2017/09/08/americas/earthquake-hits-off-the-coast-of-southern-mexico/index.html

http://www.telegraph.co.uk/news/2017/09/07/sir-richard-branson-says-necker-island-completely-utterly-devastated/

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