O paraíso tem mosquitos

 

Furacão Andrew

A devastação causada pelo furacão Andrew, em 1992.

Anteontem estava dando os últimos retoques na crônica desta semana quando me deparei na internet com a notícia de um furacão ameaçador vindo em nossa direção. Como se não bastasse a devastação causada pelo Harvey no Texas, um monstro destruidor despontava nas águas do Atlântico, em direção ao Caribe e à Flórida. Com o susto, pus a crônica em compasso de espera e entrei em modo de alerta.

Eram onze da noite. Saí de casa para abastecer o tanque do carro e comprar o necessário para sobreviver durante alguns dias. A aproximação de um furacão gera a corrida aos postos de gasolina, supermercados, farmácias. Há urgência em estocar alimentos não perecíveis em casa, água, velas, pilhas para lanternas, remédios, sacos de areia para vedação de portas, e tudo o mais que for preciso para sobreviver durante a intempérie. Ao mesmo tempo, temos que nos abastecer de paciência para enfrentar as longas filas silenciosas, com centenas de pessoas, e prestar atenção aos mínimos detalhes para preparar a casa, tentando evitar o pior. Talvez fiquemos sem água, eletricidade, telefone. A natureza, sem compaixão, pode nos isolar do mundo.

Minha primeira experiência com furacões foi em 1992, quando uma chuva tropical na costa oeste da África se transformou no Andrew, que varreu o sul da Flórida deixando seu rastro de mortes e destruição. Para quem vem de um país onde “em se plantando tudo dá”, e onde a natureza não sofre tantos desastres naturais, me senti como peixe fora d’água, sem saber o que fazer. A solução foi fugir para a casa de amigos que, supostamente, moravam numa região segura. Mas como tudo é imprevisível nesses eventos, o famigerado Andrew passou pela nossa cabeça.

Voltamos para casa vendo a paisagem de terra arrasada. Assisti ao primeiro filme de terror ao vivo, sem cortes ou efeitos especiais. Aprendi que todos os anos, de junho a novembro, conviveria com o fantasma dos furacões.

Em 2005, enfrentamos o Wilma, também devastador e traiçoeiro. Até hoje guardo na memória a madrugada em que, sentados no chão do quarto, ouvíamos o barulho ensurdecedor do vento e da chuva batendo nas janelas, querendo entrar à força. Foram quatro horas de pavor, angústia e impotência, até a natureza se acalmar.

Na manhã seguinte, ao abrirmos a porta, vimos todas as árvores de que havíamos cuidado com carinho durante tantos anos caídas no chão com as raízes expostas. Por todo lado havia destruição: casas alagadas, telhados arrancados, o desespero dos moradores com dificuldade de acreditar no que viam. O jeito foi arregaçar as mangas e, munidos de solidariedade, ajudar-nos uns aos outros a limpar os destroços, para começar a vida de novo.

Já se passaram 12 anos de relativa calmaria no sul da Flórida. Mas como nada dura para sempre, eis que este ano surge o Irma, um furacão de tamanho nunca visto, destruindo tudo por onde passa. Segundo as notícias que chegam do Caribe, as ilhas de Barbuda e Antígua estão inabitáveis. As fotos mostram um território totalmente arrasado, e com muitas mortes. Outras ilhas também foram atingidas. Neste momento, enquanto escrevo, o Irma está saindo da costa norte da República Dominicana e pode passar pelo Haiti, chegando a Cuba na sexta-feira. Chegará aqui entre a noite de sábado e a manhã de domingo. Hoje aproveitamos para vedar as janelas, e a casa ficou às escuras. Se não fosse por algumas luzes acesas, não saberíamos distinguir entre o dia e a noite. Tudo meio claustrofóbico, mas não tem jeito.

Como sabemos da chegada da tormenta? Além das notícias da meteorologia, horas antes de sua chegada o céu fica límpido, sem nem uma nesga de nuvem, com o sol brilhando no azul. De repente, como por encanto, os pássaros desaparecem, os esquilos se escondem em suas tocas, outros animais se recolhem, o silêncio é total. Parece que o mundo parou. O coração bate mais forte à espera do desconhecido. De repente, como se estivéssemos entrando num buraco negro, chega a escuridão. O vento começa a soprar com violência,  a chuva é torrencial e o medo se apodera de nós. É hora de nos escondermos num canto, longe das janelas. Minutos viram horas, e horas viram um tempo subjetivo interminável.

Hoje, quinta-feira, as escolas já estão fechadas, as pessoas que moram no litoral evacuadas para outros locais, abrigos e alimentos já estão preparados, todos os serviços em estado de emergência. Até os presos foram transferidos para presídios mais seguros. Os governos federal, estadual e municipal estão de prontidão para o que der e vier. Só temos duas escolhas: ou ficar em casa, ou fugir para outros Estados. Prefiro ficar quieta no meu canto, cozinhando, lendo um livro ou escrevendo.

Como nada é perfeito, nessa paisagem de paraíso também existem mosquitos para atormentar a vida. Perante os fenômenos da natureza somos impotentes, apenas um grão de areia no universo. Podemos perder tudo, até a vida, em segundos. Porém, quem sabe o Irma resolve mudar de rumo e nos poupar de toda essa aflição?

A sorte está lançada, agora é torcer e esperar.

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1 Resultado

  1. Cris disse:

    Somos todos impotente quando o assunto é desastre natural o que resta é precauções para que possamos passar da melhor forma possível.
    Deixo minha solidariedade e bons fluidos para todos que estão nessa situação.