Delírios de consumo de Tathy Bloom

 

menina no supermercadoUma das maiores alegrias da minha infância era ir ao supermercado. Numa tarde comum, meu pai ligava do trabalho e avisava que íamos fazer a “compra do mês”. Meu irmão e eu até parávamos de brigar. Saíamos correndo para tomar banho e aguardar o grande momento: a buzina do carro do meu pai. Nosso destino era um mercado que nem existe mais, “Sé Supermercados”.

Depois de escolhermos um carrinho a dedo — geralmente com as rodas bambas, “manco” ou com uma folha de couve presa à roda —, adentrávamos aquele templo cheio de possibilidades.

Primeiro percorríamos os corredores “chatos”: o do arroz, do sal, do óleo. Nada muito palpitante. Aos poucos, a coisa ia melhorando. Passávamos pelo do milho, do amendoim, até que avistávamos o primeiro pacote de Seven Boys.

Aquelas embalagens com bolinhas azuis, vermelhas e amarelas eram o prenúncio de que o sonho estava prestes a ser vivido. A alegria tinha lugar para começar: o setor das bolachas. Nossos top five eram Lanche Mirabel, bolacha recheada Tostines sabor morango ou chocolate, bisnaguinha Seven Boys, Sucrilhos e balas Soft. O que viesse além disso era lucro.

A cada vez que meu pai se ocupava escolhendo produtos que considerávamos “ruins”, como goiabada cascão ou pêssego em calda, meu irmão e eu nos divertíamos com o que tínhamos à mão. Literalmente.

Bastava uma virada de costas do patriarca para quebrarmos um Torrone ao meio e sairmos à paisana. Mais um momento de distração e abríamos um pacote de suspiros da gôndola. Às vezes, o pó branco ao redor da boca quase nos traía, mas um ou outro tinha o álibi perfeito: havíamos passado a mão sem querer num pacote de farinha de trigo estourado.

Em época de Páscoa, então, até sonhávamos com aquele túnel de ovos de chocolate.
As filas nos caixas eram quilométricas; afinal, o sistema de leitura por código de barras ainda não existia. Eu nem ligava. Meu irmão e eu estávamos muito ocupados decidindo o que íamos saborear primeiro quando chegássemos em casa. Talvez o iogurte Yoplait ou o Bliss.

Meu pai, ouvindo nossa conferência, sempre avisava: “Não é pra comer tudo em uma semana, hein? Se comerem, acabou. Vão ter que esperar o mês que vem”. Obviamente, acabávamos com tudo em dois dias.

Colocávamos as compras na esteira e ali permanecíamos por quase uma hora. Novamente eu não dava a mínima. Ficava hipnotizada olhando a moça do caixa apertar os botões da máquina. Impressionava-me a agilidade com que ela digitava sem olhar para o teclado. Achava o máximo. Durante um bom tempo, cogitei seguir uma promissora carreira como caixa de supermercado.

Hoje ninguém mais faz “compra do mês”. Os supermercados viraram mercadinhos de bairro. Não vejo mais lanche Mirabel, meu irmão nem tem bolachas em casa e meu pai não compra mais sua goiabada cascão: engorda. Viramos frequentadores dos corredores “chatos”.

Esta semana me bateu essa sessão nostalgia enquanto amargava na fila de um Pão de Açúcar. Mesmo com toda a facilidade do código de barras e das mocinhas patinadoras, as filas continuam estilo anos 1980, mas não é difícil descobrir o motivo. Agora, antes de passar a compra, precisamos quase responder qual é o nosso tipo sanguíneo. Recarga de celular? “Cliente Mais”? CPF na nota? No mesmo número? Já conhece a nossa promoção “Juntou & Trocou?” (Você acumula uns 500 selos e mais R$ 50 e “ganha” uma faca). Vai querer sacola? Quantas? Crédito ou débito?

Fiquei com saudades até de ser fiscal do Sarney.

1 Resultado

  1. Picida ribeiro disse:

    Lindo texto.
    Minha cara