Sem poder esquecer

 

Adolescentes se beijandoPedro abriu o quarto e entrou. Se dirigiu ao armário, que ocupava quase todo o cômodo, abriu suas portas e olhou para seu interior. Dentro dele, dispostas e bem organizadas, suas roupas dormiam meio esquecidas.

Observou sem pressa aquele universo de camisas e calças, ternos e sapatos. Sorriu com certa tristeza, teve mais simpatia pelos “ acumuladores” americanos. Havia assistido na noite anterior ao drama de homens e mulheres que acumulavam de tudo um pouco: papéis, revistas, lixo, peças de carros, apareciam em pilhas e pilhas amontoados em suas casas, cada um deles com um objeto de predileção, ou vários deles, sem poderem deles se desfazer. Pessoas que não conseguiam deixar de acumular objetos, numa compulsão doentia, apareciam na tela da TV sem conseguir explicar o motivo para não conseguirem abrir mão de nenhum objeto guardado.

Pedro não havia atingido esse estado patológico, mas, se lembrando das tristes histórias que assistira, percebeu que lhe era difícil se desapegar de algumas coisas.

Pegou uma camiseta com a estampa de uma antiga banda de rock. Era uma de suas favoritas. Lembrou-se de Ana.

Lembrou-se de seus cabelos, de seus olhos, de seu cheiro, e se viu de novo com 16 anos, na fila do Ginásio de Esporte do maior time da capital onde morava. Sua banda de rock predileta iria tocar ali. Estava na fila há mais de três horas, mas não sentia o tempo passar.

O grupo inglês Yes viera ao Brasil, num raro show esperado por muitos, entre eles o nosso herói. Pedro já batalhara com o pai a permissão para ir, fizera mil promessas, juras de dedicação ao estudo. Ficou a certeza de que drogas e bebidas jamais passariam por seus lábios. Fez essa última promessa com os dedos cruzados; afinal, cerveja não era bebida, mas algo que todo garoto de 16 anos tomava.

O certo é que o pai, por milagre dos milagres, não só concordou, como adiantou a mesada de seis meses, suficiente para que ele comprasse o tão desejado ingresso. E agora ele estava ali, a dois passos do paraíso!

Absorto no sonho de ver seus ídolos, não ouviu o chamado da primeira vez:

— Pedro!

— Pedrinho!

Olhou para o lado e a viu:

— Ana! — falou sem perceber.

Ela sorriu, e o coração de Pedro disparou. Eram colegas de sala, e ele sonhava com ela quase todos os dias.

— E aí, Pedro? Tudo bom? — ela falava com ele com uma intimidade que até então ele desconhecia.

— Tudo! — conseguiu dizer, com uma falsa naturalidade.

— Você deixa eu ficar na sua frente? — ela perguntou baixinho, se inclinando em sua direção para que só ele ouvisse.

Ele compreendeu rapidamente, e reagiu com a inteligência dos apaixonados, falando alto:

— Poxa, você demorou! Estava guardando o seu lugar!

Ela sorriu, e não se fez de rogada, entrou na sua frente com naturalidade.

Seu perfume chegou ao rosto de Pedro. Vinha, provavelmente, dos cabelos que agora se encontravam à sua frente.

Enquanto esperavam a abertura dos portões, conversaram sobre tudo e todos, descobrindo afinidades desconhecidas, cúmplices de um mesmo desejo.

Depois de um tempo, os portões se abriram, e, como se fosse natural, Pedro e Ana permaneceram juntos.

— Adorei sua camiseta!

Ele sorriu, e respondeu com uma coragem por ele desconhecida até então:

— Eu adoro você!

Ela sorriu algo tímida, mas não desviou seu olhar. Pedro se aproximou, e, sem pressa, encostou sua boca na dela. Sentiu o gosto dos lábios de Ana, e, como se já conhecesse o caminho, beijou-a apaixonadamente.

Pouco depois, o show começou, e os dois juntos, já namorando, assistiram nascer o primeiro amor.

Pedro abriu os olhos, e viu que não podia abrir mão dessa lembrança. Colocou a camiseta de volta ao lugar, retirou suas vizinhas e sorriu. Desta vez, com saudade, de uma menina que amou.

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