Solidariedade de grupo e a sabedoria dos zulus

 

Daisy Lucas e os zulus“Se quiser ir mais rápido, vá sozinho. Se quiser chegar mais longe, vá em grupo”: a primeira vez que ouvi este provérbio africano, eu estava exatamente numa aldeia de zulus, em Lesoto.

Claro que me impactou muito mais profundamente do que se tivesse lido em algum lugar, ou escutado em algum documentário, porque ali eu vi que realmente a ideia da sinergia do grupo se realiza. Eles vivem absurdamente para a comunidade, o que alguém planta é para todos, o que alguém caça é para todos, os filhos são da aldeia, e todos são responsáveis por tudo.

Seu poder reside exatamente nisso: um por todos, todos por um. Trabalham juntos, lutam juntos, dançam juntos, sofrem juntos.

Como minoria, é bem verdade que sofrem muito mais do que se alegram. Mas persistem. Eles sim, exercem de fato a resiliência, termo tão em moda há algum tempo. Sim, são resilientes, desenvolveram metodologia própria para resistir e lidar com os problemas, adaptando-se a qualquer situação que se apresente, por mais rude que possa ser. E usam os meios mais toscos ou mais simples para resistir.

Sua reação nunca é individual, sua luta é sempre a luta de todos. Nós, os ditos civilizados, que temos tanta tecnologia em mãos, não conseguimos fazer isso, fechamos os olhos às desgraças que — erradamente pensamos — não nos atingem diretamente.

Fico eu a pensar no provérbio, e carregando nas costas e na memória o peso desta nossa civilização ocidental que não consegue enxergar um palmo adiante do nariz. Justamente nos tempos de hoje, acabando de assistir pela televisão aos massacres que acontecem pelo mundo afora — na Síria, na Venezuela, e, mais disfarçados, em outros países.

Ainda hoje, tempos depois, me surpreendo com a capacidade do pensar grupal dos zulus. E, admitindo que todo texto pode ter leituras diferentes, me vejo buscando interpretações outras para o provérbio, interpretações ocidentais. Tudo isso, para entender como a ânsia pelo poder consegue fazer com que pessoas se reúnam apenas para usar e abusar dos bens comuns, para roubar e corromper. Para entender como pessoas de carne e osso, como eu e como você, conseguem fechar os olhos para a grande verdade de que os roubos, a corrupção e a ânsia desmedida por poder lesam a sociedade e promovem a desesperança, a miséria, a desigualdade.

Quando se organizam em grupos para “chegar mais longe”, as quadrilhas — especialmente as quadrilhas políticas, que usam o voto do povo como argumento e aval para seus feitos, ou malfeitos — fazem o pior uso possível dessa sabedoria, a inocente sabedoria popular, acumulada ao longo do tempo. Neste caso, o “mais longe” consiste na maior distorção.

Claro. Em grupos, os corruptos se prendem uns aos outros com a aliança invisível do “cala a boca ou eu conto que você estava no mesmo barco”. Com isso, protegem-se uns aos outros, se escondem uns aos outros, e cabe a nós, povo, nos agrupar e tirar a venda que a pseudodemocracia colocou sobre nossos olhos.

Cabe a nós voltar à inocência dos que — como os zulus —, vivem para o seu grupo social, para a solidariedade dos que percebem que a felicidade nunca é sozinha.

Que os filhos da terra sejam filhos de todos nós, e que nos sintamos responsáveis por cada criança desesperançada que não consegue mais sorrir.

Foto: Acervo pessoal da autora.

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