Partidos políticos tradicionais e os novos eleitores

 

jovens eleitoresFalar de política abertamente, esperando um diálogo sério e empolgante, está cada dia mais difícil no Brasil. Há um enorme preconceito, quase uma ojeriza, em relação aos políticos e aos partidos políticos em geral. Não é incomum o diálogo terminar com a frase: “É tudo ladrão”.

Temos que entender que o desencanto não é sem motivo. A prática política no Brasil nos últimos anos não contribuiu muito para a construção de uma postura de simpatia, de admiração. Todavia, não é correto generalizar, colocar na vala comum todos os que se dedicam à atividade política. Como tampouco é correto confundir a prática de diversos políticos com o conceito histórico da palavra “política”, que está diretamente ligado à realização de serviços em benefício da sociedade, em geral procurando criar condições para melhorar a vida das pessoas, a segurança, a educação, a saúde e a capacidade econômica de cada um.

Atualmente, a população mais jovem está mais distante da política partidária, das religiões organizadas, dos clubes sociais, e bem mais próximas das redes sociais, que são o novo espaço de interação social. Em geral, essa parcela da população conta com pouco tempo disponível, dificuldade para fechar o orçamento e certa quantidade de dívidas, visto que as tecnologias disponíveis e desejadas exigem compra de equipamentos, de serviços para sua utilização, e de tempo, muito tempo para administrar a parafernália eletrônica. Isso faz com que cada estação voe e que, mensalmente, mais e mais contas cheguem ao endereço dos usuários.

É necessário comprar o aparelho de celular, o chip, o pacote de internet. A TV aberta já não empolga: a TV paga tem a preferência, mas também tem conta mensal. O carro também é objeto de desejo, muitas vezes adquirido por meio de pagamento de parcelamento mensal, e a ele podemos somar a gasolina, a manutenção e os impostos. A essas contas se somam ainda o clássico aluguel ou a prestação do apartamento. Despesas e contas se avolumam, e acabam se tornando dívidas vencidas e não pagas.

A manutenção desse aparato tecnológico moderno não é barata, e exige uma boa renda permanente. Vale lembrar que as contas são mensais e, em geral, permanentes. Um período de desemprego já provoca o caos no orçamento. O cartão de crédito em regra socorre, mas cobra caro. Os juros são estratosféricos. A dívida continua, e até aumenta.

Nesse contexto de país de baixa renda, de tempo parco e muitas preocupações, como participar da vida política? Como conhecer as pesadas ideologias que estão na base das cores de alguns partidos políticos? Como identificar que nenhuma ideologia, mas sim interesses pessoais estão na base da cor desse ou daquele partido?

Difícil. Como entender o fato de que determinados partidos políticos já têm suas diretorias cristalizadas, suas executivas, e que os recém-chegados só são bem-vindos quando se contentam com as funções de aumentar a estatística de filiados e votar nos candidatos escolhidos pela direção? Muito difícil.

Assim, cada dia mais se amplia a independência política, o distanciamento da filiação partidária. Contudo, isso não quer dizer que a população mais jovem não se interesse pela política. Essa população tem interesse, sim. Porém, à sua maneira. Não conhecem bem e não se preocupam com antigas ideologias. Não estão dispostos nem acham inteligente participar da luta entre o azul e o vermelho. Ficar no centro e identificar os problemas atuais que a sociedade deseja ver resolvidos faz mais sentido, e o cultivo de uma postura mais conciliadora, de entendimento, tem mais apelo: nem o preto nem o branco, mas o cinza. Um governo que tenha competência para fornecer serviços públicos de melhor qualidade, “pescar” no cinza os problemas do momento e apresentar soluções, administrando bem o dinheiro dos pagadores de impostos, é o governo desejado.

No Brasil, historicamente, os governos cobram impostos elevados e ofertam um serviço público cada vez menos eficiente. A maioria das pessoas paga impostos e compra no mercado privado serviços, como educação, saúde, escola e até segurança.

Considerando o número e a força dos votos dessa população mais jovem, e pensando nas pessoas que estão entre a faixa de 16 e 32 anos, efetivamente serão os partidos políticos e os políticos tradicionais que terão que mudar, pois significativa parcela da população já mudou, e não estão se empolgando com eles.

 

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