A quantas anda a cultura?

 

máscaras de comédiaO gosto dos outros quase sempre me surpreende. Na maioria das vezes, pelo inusitado, mas às vezes pelo lado negativo. Os outros têm o direito de pensar o mesmo a meu respeito, mas quando o choque é grande, levo dias digerindo o susto. Um caso desses aconteceu recentemente.

Resolvi, em cima da hora, ir ao teatro. A peça comemorava o sucesso de mais de uma década de um grupo de comediantes e, pela descrição, os integrantes se apresentavam individualmente. Supus, santa ingenuidade, que se tratava de uma comédia de Stand Up.

Adoro esse tipo de humor. Gosto tanto que, mesmo perdendo grande parte das piadas por conta do meu inglês deficiente, já assisti a vários humoristas de Stand Up nos Estados Unidos, onde o gênero é popular.

Tenho ótimas recordações de diversos comediantes cujos nomes não gravei. Algumas das piadas, inclusive, tornaram-se private jokes. Uma delas é a do caminhão do lixo. Não sei reproduzir o humor fino, nem os detalhes, mas o fato é que, seja qual for a hora em que passe o caminhão do lixo, as pessoas reclamam. De manhã, pelo barulho; na hora do almoço, pelo cheiro; de tardinha, porque atravanca a rua; e por aí vai. Afinal: a que horas dá para passar com o caminhão do lixo? — é a pergunta que fazemos aqui em casa quando é preciso tomar alguma providência necessária, mas que ninguém está a fim de encarar.

Entrei animada no teatro e ajeitei-me na poltrona, antevendo uma hora de bom humor, não necessariamente de riso escancarado. Uma mulher, ou um homem vestido de mulher, não sei ao certo, mas tanto faz, entrou no palco para o que parecia ser um aquecimento da plateia, um introito ao espetáculo. Horrível, apelativo, chulo. Por gestos e por palavras. Ainda por cima, a voz era esganiçada, talvez intencionalmente. Mexeu com alguns dos espectadores. Todo mundo riu, menos eu.

A criatura saiu de cena aplaudidíssima, e entrou uma voz em off, simulando um telefonema. Um pouco melhor. Mas logo voltou a mulher, caracterizada de outra forma, com o mesmo timbre irritante. Ela própria fez uma piada sobre sua voz, uma das poucas falas aproveitáveis do texto, apesar de essa segunda personagem ser tão ruim quanto a primeira.

Sai a mulher. Voz em off. Entra um homem, um escracho só. Humor raso, todo mundo rindo, menos eu. Outra mulher, desempenho no mesmo nível.

Um espetáculo não precisa de grande requinte para ser apreciado, mas aquilo era, simplesmente, primitivo. Ocupando o horário nobre, em um local prestigiado! Não aguentei, saí do teatro, coisa que não me lembro de ter feito em nenhuma outra ocasião nos últimos 20 anos.

O que mais me assustou não foi o tipo de humor, mas a plateia, razoavelmente lotada (apesar de o ingresso não ser barato, nem a maioria das pessoas aparentar idade suficiente para pagar meia entrada), estar adorando aquilo. A problemática ali era eu.

Meu marido se surpreendeu quando voltei para casa mais cedo. Expliquei. Sugeriu que eu denunciasse. Denunciar o quê? Aqueles atores não estão fazendo mal a ninguém, são apenas artistas indo de encontro ao seu público, e assiste quem quer. Mau gosto não é crime.

O mundo está cheio de peças ruins, filmes ruins, programas ruins. Bons também. As listas variam de pessoa para pessoa porque, como reza o ditado popular, gosto não se discute. Lamenta-se.

E já que vocês aturaram este meu desabafo, vou recompensá-los recomendando um documentário recente chamado “Divinas Divas”. Na minha opinião, um perfeito exemplo de bom gosto. Mas haverá quem discorde.

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